domingo, 18 de dezembro de 2011

Balada Mixta, uma festa sem preconceitos

Quando eu soube que a Balada Mixta faria sua última edição ever (na noite de ontem), não quis perder a chance de conhecer uma das mais faladas festas pop da cidade. Ela começou tímida, na Funhouse, e em 2 anos de vida chegou a atrair 1,5 mil pessoas, já no Espaço Emme. Cresceu tanto que os produtores decidiram parar, antes que a brincadeira perdesse a graça. Aproveitei o convite feito pela minha amiga Katylene, uma das 21 atrações que comandariam a maratona de 10 horas de jogação, e fui lá ver qual era o babado.

A cena com que me deparei não me convenceu logo de cara. Um exército de late teenagers de visual massificado - grandes golas V, listras horizontais, a inevitável camisa xadrez, óculos Wayfarer ou redondos e o eventual bigode "que faz a cabeça dos modernos" (zzzz) - requebrava ao som de... "Dança Juliana Dança". Achei tão surreal aquele monte de discípulos da revista Junior cair no pagodão que pensei que o entusiasmo era fake. Mera reprodução de alguma tendência tida como cool, espalhada pelas redes sociais como a modinha a ser seguida. Mais ou menos como a atriz da Globo que dança na pista vip do show de rock, aparentando amar a banda - mas, quando o repórter pergunta qual sua música preferida, gagueja e desconversa, porque só estava fingindo gostar daquilo.

Mas a vodca está aí para alterar convencimentos e derrubar preconceitos - os meus, no caso. Aos poucos, percebi que a animação das pessoas ao meu redor era genuína, por mais improvável que fosse a trilha sonora, e ninguém ali se levava muito a sério. "Tira a calça jeans, põe o fio dental!" Quando a Banda Uó subiu ao palco, confesso que torci o nariz para aqueles meninos que encarnavam todas as referências estéticas hipster de uma só vez. Quem me fez baixar a guarda foi "Rosa" - a impagável versão tecnobrega que eles fizeram para "Last Night", dos Strokes. Com direito a muita pinta no palco, é claro. Depois, Katylene assumiu as pickups e emendou Deborah Blando, "Mila", Katy Perry, Michel Teló e "Total Eclipse of The Heart". "Tira a roupa, se joga no chão e morre!", comandava, pelo microfone. A essa altura, eu já tinha assimilado o espírito da festa e me deixei levar.

É verdade que a testosterona do ambiente era zero: o clima era lúdico, inofensivo, com pouca gente se pegando. Aquele era um lugar de gente feliz. Quando revistas femininas como Nova propagam clichês do tipo "as baladas gays são os melhores lugares para dançar, eles são superdivertidos, você vai adorar", é em festas como essa que as leitoras deveriam se aventurar, e não nos megaclubes, onde a combinação de altas doses de hormônios, carão e aditivos produz um ambiente pesado, hostil e excludente.

A despedida da Balada Mixta iria até 8h, com café da manhã a partir das 6h, mas não aguentei ficar até o final. Quando meu fígado começou a cantar "assim você me mata", um cafuçu fofo de óculos geek me ajudou a pegar um táxi (sim, gente, na Balada Mixta até o cafuçu é hipster!) e voltei para casa, feliz por ter participado daquilo. Essa festa pode ter acabado, mas outras iniciativas parecidas certamente continuarão, porque existe um público imenso. Tem muita coisa nova e interessante acontecendo fora dos clubes gays de sempre. Nunca é tarde para rever velhos paradigmas e se abrir a outras possibilidades.

[Foto: Marcelo Fubah. Não levei minha câmera e, enquanto procurava na internet imagens da festa para usar no post, achei essa foto, de uma edição mais antiga, mas que transmite bem o clima divertido de ontem]

11 comentários:

Lucas T. disse...

Que legal seu post sobre a festa. Nunca fui e conheço pouca gente que foi. Hipsters me cansam, a "ironia" das roupas é legal, mas tem que estar no clima. Acho meio infantilizado.

Destaque para o parágrafo onde você fala das festas gays mainstream. É impressão minha ou estão ficando cada vez piores? Não apenas em SP, em todo país. São tantos aditivos e tantos meses na academia e às vezes eu me pergunto: pra que?

E aí do outro lado tem os hipsters, que tendem a ser caretíssimos. Ou um extremo ou outro. Não dá pra encontrar o meio termo?

Ah, não esquece de avisar quando vier pra Porto Alegre de novo - caso ainda tenha coragem.

Daniel disse...

Também só fui em euma no Estúdio Emme e o clima é exatamente este que você descreveu. Lembra um pouco as festas da Fosfobox aqui no Rio.
Ou as do grupo Paranoid Androind.

danrodrigues disse...

Thiago,

Eu sempre fui mais fã destas festas que as de grandes clubes, um pouco pq eu não curto música eletronica e outro pouco pois normalmente eu saio pra dançar e rir com os amigos, e é isso que acontece nessas festas.

Legal que você gostou. Parece que esse tipo de festa está em todo lugar do mundo, pois viajo tanto, vou pra balada em quase todos os países e parece que a coisa está indo mais pra esse lado xadrez e de listras do que pro lado dos descamisados.

Beijão e saudades!!

Jgomes disse...

Nunca fui a uma festa dessa....sou cinquentão e acho que ficaria deslocado.Que pena que acabou,espero que outras como essa apareçam novamente.

Boa sorte
um abraço
JGomes

CriCo disse...

Aqui no Rio rolava a UltraLoveCats, que tem a mesma vibe. Não sei se ainda rolam...

Daniel disse...

a ULC é do mesmo grupo da Paranoid Androind. Ainda rola sim.

Cássio disse...

Frease da semana (e candidata a frase do ano!) 'meu fígado começou a cantar "assim você me mata"'

wair de paula disse...

Dança Juliana dança? Michel Teló? Não há animação (ou teor alcoólico..) que me faça curtir isto. Abraços!

Anônimo disse...

Bando de bixa escludente, cafona, classe media e preconceituosa. Pelo menos dois anos atrasadas na detecção de ondas e modismos. Voilta pra casa tia Cotinha.

Paulinho disse...

Lendo seu post, lembrei da minha primeira vez na Trash 80 em 2005, me comportei de forma bem parecida (torci o nariz no começo e depois da vodka, achei engraçado). Acho que a vibe das duas festas devem ser bem semelhante mesmo. Acho legal ter vários estilos de festas gays na cidade, para não ter sempre aquela fórmula repetitiva: música bate-cabelo, bees sem camisa, gogo boys, dorgas, etc.

Ylton disse...

Nao conheci esta. Mas cada dia me convenço mais de que está cansando a receita de grandes clubes gays com publico previsivel. Prefiro algo mais misturado onde cabem madonna e gretchen.sem ninguem torcendo o nariz. Encontrei essa vibe nas festas da Voodoo e do bar Ze Presidente, ambas em SP. Pelo menos la nao tem ninguem fazendo carão!