quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Mais um ciclo que termina

Êta aninho danado, hein? No meu caso, 2009 foi um ano de pouca festa e oba-oba e muito trabalho, muitas pedras para carregar. Não existem anos que são simplesmente felizes, e outros que por algum motivo não são, parecem anos de "entressafra" entre anos melhores? Pois bem, posso dizer que 2009 esteve no segundo grupo - foi um dos anos em que eu mais me desgastei e menos curti até hoje. Para completar, problemas de saúde rondaram várias pessoas da minha família - sendo que meu avô acaba de completar seis meses na UTI, o que está dando ao nosso fim de ano um gosto amargo de hospital. Ainda bem que as companhias aéreas fizeram várias promoções nos últimos meses, e com isso consegui fazer algumas viagens curtas para fugir do baixo-astral contínuo que tem espreitado a minha vida. Penso que elas foram o que me aconteceu de melhor em 2009.

Curiosamente, conversando com amigos e conhecidos, percebi que este também foi um ano inglório para muitas outras pessoas, de diversos meios e clãs. Parece haver uma sensação coletiva, generalizada, de que 2009 não deixará a menor saudade para ninguém.

Felizmente, o ano está terminando - nada melhor do que celebrar as coisas boas que aconteceram, e mentalizar energias e pensamentos positivos. Esta é minha última postagem do ano. O blog continua em 2010, mas os posts ficarão um pouco mais esparsos, por conta de um projeto que vai ocupar boa parte do ano, já a partir de janeiro, e sobre o qual falarei em breve. Será outro ano de muito trabalho, dessa vez com poucas viagens - mas tenho certeza de que, em todos os campos da minha vida, as coisas serão bem melhores!

Feliz Natal e votos de um excelente 2010 a todos!

O BLOG... 114 posts em 2009 89.445 acessos de 01/jan até agora recorde de acessos em um único dia: 645 recorde de comentários em um único post: 101 39 posts com o marcador "gay" 19 sobre noite 15 sobre comportamento 14 sobre restaurantes e/ou comida 14 sobre turismo 8 sobre cinema 8 na linha rapidinhas

... E O BLOGUEIRO Tive um ano puxado de trabalho, faculdade e freelas. E pouquíssimo tempo para malhar. E menos pique para sair à noite. Em São Paulo, fui menos a clubes e mais a bares, como Sonique, Volt, Athenas e Piaf. E a única festona que fui conferir (Skol Sensation) não me agradou. Mas não deixei de ir dançar em clubes quando estava passeando em outras cidades. Aliás, viajei como nunca pelo Brasil: além do Rio de Janeiro (onde passei um carnaval perfeito), estive em Brasília, Belo Horizonte (duas vezes), Salvador, Natal, Porto Alegre, Curitiba, Recife e Maceió. Escrevi matérias de viagem sobre Berlim, Barcelona e Natal. E também desenvolvi algumas pautas de comportamento, incluindo uma sobre sexo pago que me fez conversar com garotos de programa e seus clientes em vários Estados brasileiros. Isso sem falar nas matérias para a faculdade, que foram de transporte público na periferia até mulheres nas forças armadas. Saboreei uma infinidade de comidinhas deliciosas Brasil afora, e acho pouco provável que um dia eu deixe de dar valor para o hábito de comer bem. Testei albergues no Rio de Janeiro. Fiz passeios de bicicleta da minha casa até a Hípica de Santo Amaro, o Museu do Ipiranga e o Parque Villa-Lobos. Vivi uma Parada Gay bem low profile. Lancei com outros cinco blogueiros o projeto 30ideias, que teve uma repercussão muito bacana e pode render uma versão impressa em 2010. Li Grande Sertão: Veredas, sério candidato a livro mais chato já escrito. Comprei mais duas linhas de celular, passando a ter quatro, e por causa disso acabei sendo entrevistado pelo Jornal da Tarde. Arranquei algumas ervas daninhas do meu canteiro de amizades. Mas ele ficou bem mais bonito com amizades novas ou que deram flores em 2009, como Diego, Fernando, Paulo, Beto, Marco, João, Marcelo, Rodrigo, Dirceu, Ale, Kiko, Bruno, Zezé, Isadora, Gustavo, Daniel C, Daniel S, Marquinhos, além de outros que já alegravam meu jardim. Ou seja, o saldo foi positivo :)

MÚSICAS QUE FIZERAM O MEU ANO Kylie Minogue, "The One" (Freemasons Radio Edit). La Casa Azul, "La Revolución Sexual". Estelle, "American Boy" (no rap version). The Killers, "Human". La Casa Azul, "Vull Saber-ho Tot de Tu". Franz Ferdinand vs. Kelis, "Take Me Out For a Milkshake" (Thriftshop Mashup). Late Night Alumni, "Empty Streets" (Seamus Haji & Paul Emmanuel Remix). Pet Shop Boys, "Love Etc.". Air, "Mer du Japon". Depeche Mode, "Wrong" (Trentemoeller Remix). M.I.A., "Paper Planes". Royksöpp, "Happy Up Here". Pet Shop Boys, "Pandemonium". Coldplay, "Violet Hill". The Ting Tings, "Shut Up And Let Me Go". A-Ha, "Move to Memphis". Lilly Alien, "Fuck You". Beyoncé, "Halo" (Dave Aude Remix). Gui Boratto, "Take My Breath Away". David Guetta feat. Kelly Rowland, "When Love Takes Over". Deep Dish feat. Tracey Thorn, "The Future of The Future". Moby, "lhft". Pussycat Dolls, "Hush Hush". Pitty, "Me Adora". Malena Ernman, "La Voix". Moony, "Don't Know Why". Black Eyed Peas, "I Got a Feeling". Zoe Badwi, "Release Me". Dalto, "Muito Estranho". Aromabar, "Winter Pageant". Morcheeba, "Let Me See". Lady GaGa, "Bad Romance". Royksopp, "The Girl And The Robot".

10 FILMES QUE MAIS ME AGRADARAM A Partida. Bastardos Inglórios. Vicky Cristina Barcelona. Quem Quer Ser Milionário? Strella. Divã. Queime Depois de Ler. Elvis e Madona. De Repente Califórnia. Ensaio Sobre a Cegueira. (pude ir ao cinema bem menos do que eu gostaria, e é possível que alguns bons filmes de 2009 eu ainda vá ver em janeiro, e coloque na lista do ano que vem...)

ALGUMAS COMIDINHAS MARCANTES DE FORA Camarão creme shiitake @ Camarões Potiguar, Natal (RN). Frango Dijon @ Babilônia, Curitiba (PR). Gnocchi ao molho de carne de panela cremoso (de novo!) @ Usina de Massas, Porto Alegre (RS). Cheesecake de chocolate @ Café do MARGS, Porto Alegre (RS). Pudim de leite condensado @ Riviera, Belo Horizonte (MG). Tagliatta di filetto a la Enzo com spaghetti ao pesto @ Massarella, Maceió (AL). E mais algumas que talvez depois eu acrescente aqui...

TRÊS MISSÕES PARA 2010 Ter disciplina e horários para dar conta de tudo o que terá que ser feito. Não carregar nenhum ressentimento. Ver primeiro o lado bom das coisas (e das pessoas) - e não gastar energia com o outro lado.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Picadinho nordestino (parte 2)

Contraste social existe no Brasil inteiro, mas em Alagoas algo chama a atenção: os ricos são muito, muito, ricos. Por algum motivo que desconheço (será o calor?), a grã-finagem local usa e abusa de looks monocromáticos em bege, fazendo a linha "safári do sertão". Os alagoanos estufam o peito de orgulho ao lembrar que o cantor Djavan é de lá. Outra filha ilustre por quem eles nutrem muita simpatia é a ex-senadora (e hoje vereadora) Heloísa Helena. Já quando se fala em Renan Calheiros, eles gaguejam e tentam desconversar. E, antes que se chute o pau da barraca de vez, fazem questão de frisar que o ex-presidente Fernando Collor (que teve um romance com Leila Lopes, segundo a autobiografia deixada pela atriz, vocês viram?) é do Rio de Janeiro. As praias do Nordeste não costumam ter trechos segmentados por tribos, como Ipanema. Mas o trecho mais gostoso da Ponta Verde para ficar é entre os bares Lopana e Kanoa. Aliás, falando em Ipanema, esqueça o grito de "AAAAAAAAAAA-bacaxi!": a marca registrada de Maceió é o mantra "Pi-co-lé e-sor-ve-te CAI-CÓ! Pi-co-lé e-sor-ve-te CAI-CÓ!", repetido ad nauseam pelos falantes de um exército de carrinhos. Eu não conseguia parar de pedir o suco de abacaxi, laranja e gengibre do quiosque Guaraná Ponta Verde - tomava pelo menos três por dia. Estou longe de ser um santo e já vi diumtudo nessa vida, mas fiquei chocado com o quanto as camisetas com dizeres chulos (produto tipicamente nordestino que faz sucesso entre os turistas da classe C) estão pesadas. Coisa de tirar as crianças da sala! Onde o Brasil vai parar? Alugue um carro e passe um dia redondo no litoral norte: pegue praia em Guaxuma, depois siga até Ipioca, entre no condomínio Angra de Ipioca, almoce com os pés na areia no Hibiscu's (peça camarão ao champagne), e na volta para Maceió, tire fotos no mirante da Praia da Sereia. Já no litoral sul, a minha sugestão para quem tem pouco tempo é pegar praia no Gunga de manhã e em Barra de São Miguel à tarde (quanto mais você se afastar das barracas centrais, em direção às casas de praia, melhor). No fim da viagem, eu já estava me acostumando a ser chamado de "galego" pelos nativos. Para dar um up na vida dos filhos, há quem resolva batizá-los com nomes próprios inspirados no inglês: Kléberson, Dayane, Maicon, Rosicleide. Em Maceió, não vi muitas amostras do "estilo Creysson" - mas notei que nomes comuns recebem grafias diferenciadas, como Kaio, Karllos e Rogéryo. Morro de saudade da torta caseira de mousse de chocolate, pedaços de morango e creme de doce de leite que eu comia no Massarella, meu restaurante favorito em Maceió junto com o Takê. Aqui em São Paulo, muitos torceram o nariz para a favelização do Orkut e migraram para o Facebook - que, até o fechamento deste texto, ainda era tido como cool. No Nordeste, porém, o Orkut ainda é ferramenta de contato fundamental e necessária - todo mundo que você conhece em qualquer situação pergunta se você tem perfil e pede para te adicionar. Não existem gays em Maceió (e nem no Irã), mas, com um mínimo de perspicácia, é fácil encontrar um macho que curta uma brincadeira "na baixa". E a brincadeira que o moço quer, em 99% dos casos, é colocar a "pomba" dele no seu "boga". Mas gay é somente aquele que brinca com a pomba deles, capisce? Bom mesmo é dar risada de tudo isso, e ainda disparar a seguinte pérola, na iminência do abate: "Essa pomba gosta de um carinho?" Ah sim, e antes que perguntem: a amostragem realizada constatou que os alagoanos moram longe, bem longe. Se a liberdade de viajar sozinho e aprontar à vontade não tem preço, é duro ter que pedir para os outros nos passarem filtro solar nas costas - as alagoanas recusavam, ruborizadas: "não posso, eu sou uma mulher casada!".

sábado, 19 de dezembro de 2009

O sobe-e-desce de Maceió

Justiça seja feita: depois de um generoso post com as impressões gerais de Maceió (que foram mesmo muito positivas), chegou a hora de colocar a cidade no mesmo paredão por que já passaram Salvador e Recife. Afinal, deixando um pouco o deslumbramento de lado, sou obrigado a reconhecer que a capital alagoana tem virtudes e defeitos, e não é um destino perfeito para todo mundo (como nenhum outro é). Vamos então aos prós e contras.

UAU:

1) PONTA VERDE. Já falei das maravilhas da Ponta Verde no post anterior: uma praia linda, com coqueiros e mar verde-turquesa, que coloca no bolso as praias urbanas das outras cidades. E isso tudo, a poucos passos de você. Para quem gosta de sair pela porta do hotel, atravessar a rua e entrar no mar, duvido que exista capital melhor do que Maceió. Talvez seja esse o aspecto em que ela mais se destaca no cenário nordestino.

2) O LITORAL ALAGOANO. Fora da capital, existem belas praias para todos os gostos: com mar verde, com mar azul, com ondas, sem ondas, rústica e selvagem, com música alta e cadeiras de plástico, com famílias, com surfistas... Para conhecer todas, eu precisaria ficar pelo menos o dobro do tempo por lá. Minhas prediletas foram Barra de São Miguel (a dos bacanas locais, com belas casas de praia, areia branquinha e mar calmo e cristalino), Guaxuma (mais rústica, mar ondulado, sem muvuca) e Praia do Gunga (como o acesso a ela se faz por escuna ou atravessando uma fazenda particular, a freqüência é exclusivamente de turistas, o que dá uma vibe meio farofenta em alguns momentos; mas é uma das mais bonitas).

3) TUDO É PERTO. Maceió é uma verdadeira bênção para quem quer descomplicar a vida ao máximo nas férias. Esqueça carro, deslocamentos, trânsito. Você faz tudo a pé: vai à praia, ao quiosque de sucos, à lan house, aos restaurantes, à academia, ao point de pegação... Basta que você escolha sua hospedagem na praia da Ponta Verde. (Não, você não vai morrer se ficar no Ibis ou em algum outro hotel da vizinha Pajuçara, menos nobre - mas o entorno não é tão agradável).

4) COMIDA BOA. É bom que se diga: nesse quesito, não dá para comparar Maceió com Salvador e Recife, cidades bem maiores e que possuem uma cena gastronômica riquíssima. Mas não faltam boas comidinhas para quem gosta de repor as energias em grande estilo [aos interessados, já dei algumas dicas no post anterior]. Um diferencial é o serviço, que vai além da cordialidade protocolar, mas sem cair na falsa simpatia. Se você se encantar com algum lugar e voltar mais duas vezes, no final o pessoal da casa já estará te cobrindo de dengos e paparicos (o sushiman Leonardo, do Takê, me presenteou com várias criações fora do menu, um fofo!).

5) FACILIDADES DE CAPITAL. A vantagem de escolher uma capital é poder contar com comodidades sempre bem-vindas. Os bons hotéis têm wi-fi, dois shopping centers grandes e algumas multimarcas dão conta de suas necessidades imediatas de consumo (não que você vá sair de casa para fazer compras em Maceió), e quem não quiser perder o ritmo do corpitcho pode treinar numa academia bem bacana, a K2 Fitness, com aparelhagem novinha, todas as aulas que importam e um staff simpático, atencioso e dedicado como eu vi poucas vezes na vida (meu queixo caiu mesmo; diária a R$25, semana a R$100).

6) UMA RELATIVA SEGURANÇA. Nos comentários ao post anterior, meu amigão sótérópólitano, com os brios feridos e uma pontinha de ciúme (achei isso uma graça, João!), veio logo avisar que a amiga dele foi assaltada em Maceió. É claro que não dá para se expor desnecessariamente: ostentar jóias, deixar a câmera pendurada, ir para o mar e largar as coisas sozinhas na areia, cismar de testar a internet móvel no breu enluarado da praia à meia-noite. Não custa repetir que Alagoas é um dos estados mais pobres e desiguais do Brasil. Ainda assim, dentro do miolo turístico (Pajuçara, Ponta Verde, Jatiúca), a cidade me passou a impressão de ser bem mais segura do que os miolos turísticos das outras capitais (exceto Natal).

UÓ:

1) VIDA NOTURNA. Aceitemos de uma vez por todas o fato de que a riqueza de Maceió são suas as praias, e a melhor coisa a se fazer é dormir cedo depois do jantar para aproveitar bem o dia seguinte. Ser bem menor que Salvador e Recife também significa ter poucas opções de vida noturna - basicamente, alguns bares na orla, com cantores tristonhos dedilhando seus violões, e o Maikai, mistura de bar e casa de shows que é the place to be entre os héteros. Há duas boates gays, mas os partidões da cidade passam longe [ver item seguinte]. Mas quem tiver o olhar atento logo perceberá que não é preciso caçar na noite para atingir os resultados desejados.

2) O ARMÁRIO COLETIVO. Saindo das metrópoles maiores, lembramos que o Nordeste não é lá muito tolerante com a homossexualidade. Os machos de Maceió são bem mais calientes e menos travados que os de Natal, mas há um agravante: no estado onde tudo se resolve com jagunços, se o pai do erê descobrir que o filho não é cabra-macho, ele pode mandar capar você. Assim, só pisam em boate gay aquelas bichas que não têm mais nada a perder. O que não significa que você não possa gozar de sua estadia: na própria Ponta Verde, em se plantando tudo dá, basta saber procurar (não vou dar o mapa da mina, que isto aqui não é o Uomini). De qualquer forma, não se trata de um destino gay friendly: melhor vir desencanado, ou trazer o namorado. Vida gay ativa, você acha em Salvador, Recife e Fortaleza.

3) A FALTA DE UM PLANO B. Não se engane: Maceió não tem absolutamente nada pra fazer a não ser praia, praia e praia. Ao contrário de outras capitais nordestinas, ali não há um patrimônio histórico relevante, nem um circuito de opções culturais. Por isso, vá fora da época de chuvas (maio a agosto) - ou corra o risco de acabar flanando entre o shopping, a lan house e a feirinha de artesanato. E se praia não é a sua praia, melhor escolher outro lugar. Vá para Salvador, que tem tantas facetas para se explorar que a praia acaba nem sendo a atração principal. Ou permita-se descobrir Recife - mas fique hospedado em Olinda.

4) LUGAR "DE TURISTA". Você é aquele viajante que gosta de ser diferente, evitar as massas e descobrir lugares off the beaten track, que fogem do lugar-comum? Em suma, você é um turista que não gosta de estar com turistas? Xiii... Maceió pode não ter se tornado tão manjada quanto Porto de Galinhas, mas está longe de ser um destino inusitado ou underground. A cidade recebe uma fauna bem democrática, incrementada pelos pacotes da CVC, e não tem um circuito descolado, como Salvador ou Trancoso. Você sempre pode ir a praias menos óbvias, que só os alagoanos conhecem - mas a própria juventude dourada da cidade prefere freqüentar a Praia do Francês, onde as barracas tocam música alta e o fluxo de turistas é constante. Para aproveitar melhor, agende sua viagem para março ou abril, ou entre setembro e o começo de dezembro - o tempo está ótimo, há menos muvuca e os preços são mais baixos.

5) PASSIENÇA CAS CRIANSSA REMELENTA GRITÂNU. Ser uma cidade relativamente pequena e tranqüila e ter águas mornas e calmas para banho garantem a Maceió uma inabalável vocação de destino familiar. E família, vocês sabem, quer dizer... criança. Criança apostando corrida pelos corredores do shopping, berrando no restaurante, chorando dentro do avião... Como os pais modernos são cada vez mais incapazes de colocar limites nos rebentos, quem está em volta tem de pagar o pato e contar até cem. Se você, como eu, marcaria "kids: I like them at the zoos" no seu perfil no Orkut, esteja preparado. Para fugir da pirralhada, uma solução é preferir as praias de mar menos dócil, como Guaxuma.

6) POR TRÁS DOS TAPUMES, A REALIDADE. Ao longo da orla, Maceió é linda e fotogênica. Mas é só dirigir alguns minutos para longe da praia que o pano cai, revelando uma cidade pobre e sem encantos (o centro é bem feio), castigada pela desigualdade e com direito a bairros barra-pesada (se o cafuçu-delícia quiser te arrastar para a casa dele em Jacintinho ou Benedito Bentes, agradeça educadamente, mas não vá). Evidentemente, o contraste entre a bolha mágica da zona turística e o mundo-cão do resto da cidade não é privilégio de Maceió: Recife, Salvador, Fortaleza, SP e até mesmo a Cidade Maravilhosa estão aí para não me deixar mentir.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Maceió, a usurpadora

Quando penso em Nordeste, a imagem que vem à minha cabeça é a de uma praia de beleza rara, com águas cristalinas contrastando com um céu muito azul, e ornada por uma fileira de coqueiros bem altos. Corpos morenos, sotaques carregados, caipiroskas, simplicidade, preguiça e hedonismo à beira-mar. Pode até ser que essa visão seja um reducionismo tipicamente sudestino, mas é isso que eu espero encontrar quando resolvo embarcar numa viagem para aquela região. Ao mesmo tempo em que eu busco um refúgio tropical, também gosto de ter certas comodidades urbanas - especialmente bons restaurantes, para terminar meus dias de praia com uma comidinha especial. É por isso que meu olhar explorador começou pelas capitais.

Em viagens anteriores, Salvador, Recife e Natal mostraram seus encantos, cada qual à sua maneira. Mas todas elas perderam um pouco do brilho depois que fui conhecer Maceió. Quando o assunto é praia urbana, a capital de Alagoas dá de dez. O mar de Ponta Verde tem uma tonalidade turquesa que eu só achava possível no Caribe. Não bastasse isso, são águas tranquilas (bem diferentes do Walita-Master-Super-ligado-no-Créu-5 que é Ipanema) e em temperatura realmente agradável para o banho (incomodava ficava a sua avó, que tremia de frio em Floripa). O calçadão é todo novinho, recortado por jardins e uma ciclovia que percorre toda sua extensão, revelando lindos panoramas. Mesmo sendo urbana, a praia tem trechos muvucados e outros mais tranquilos, sempre enfeitados por coqueiros. É tudo tão mais bonito que cheguei a ficar com pena das outras capitais.

Claro que toda "trip Nordeste" que se preza inclui cruzar os limites da capital e explorar as praias mais afastadas. Salvador é ponto de partida para várias (Morro de São Paulo, Praia do Forte, Imbassaí, Barra Grande, Boipeba), Natal tem Pipa e Galinhos, Recife foi praticamente engolida por Porto de Galinhas. O litoral alagoano tem muitas opções, com um bem-vindo diferencial: a praticidade. Tudo é muito mais fácil, perto e rápido do que nas outras capitais. Está viajando sozinho e não quer gastar mais de R$100 por dia com carro alugado? Dá para explorar os litorais norte (Guaxuma, Ipioca) e sul (Francês, Barra de São Miguel) usando ônibus urbano, por apenas R$2,50. Se preferir mais conforto, passeios em grupo saem a módicos R$20 por pessoa (a praia do Gunga, por mais mainstream que seja, é de uma beleza ímpar). Dá para passar a semana conhecendo uma praia diferente por dia, sem enjoar.

Depois de um dia de muito sol e deliciosos mergulhos, nada como repor as energias com um bom jantar. Como capital que é, Maceió não decepciona, com excelentes restaurantes, que vão do brasileiro e regional (Bodega do Sertão, Divina Gula, Canto da Boca) ao cosmopolita (o italiano Massarella, o japa-cool Takê e o buxixado contemporâneo Wanchako, que já causava auê com seus ceviches muito antes do hype peruano chegar a São Paulo). A digestão, você faz com uma agradável caminhada pelo calçadão da Ponta Verde, sentindo a brisa do mar e vendo o vaivém de nativos e turistas - que passeiam, tomam sorvete e bebericam nos bares, numa gostosa celebração do espaço público que já se tornou inviável em cidades maiores.

Aí está outra vantagem de Maceió: oferecer as facilidades urbanas básicas sem perder um certo ar pacato, interiorano. A região onde o turista circula é pequena, gostosa e segura. Esqueça o trânsito, os deslocamentos e as preocupações das outras capitais: ali você faz tudo a pé e realmente entra no clima de férias. Apesar de Alagoas ser um dos estados mais pobres e desiguais do país, o turista não sofre o assédio infernal de pedintes, vendedores e malandros que empesteiam Salvador. Dá para andar na praia à noite, ver as estrelas e até se engraçar com alguém ali mesmo, sem grilos. Como nem tudo é perfeito, Maceió fica devendo em termos de baladas [vou analisar melhor os prós e contras no Sobe-e-Desce de Maceió, um dos próximos posts] mas, com tanta praia bacana e um belo amanhecer às 4h40, é melhor negócio levar uma vida diurna e deixar para cair na jogação em casa.

No fim das contas, Maceió superou todas as expectativas e fechou minhas aventuras com chave de ouro, como a melhor viagem de 2009. Pretendo passar pelo menos uma semaninha por ano ali. Até porque Alagoas tem muito mais a se explorar: não só praias menos manjadas (Coruripe, Carro Quebrado, Porto das Pedras) como outros tipos de passeio (a cidade histórica de Penedo, a foz do Rio São Francisco). Ainda vou conhecer o Ceará antes de dar meu veredito final, mas Fortaleza vai ter que rebolar muito se quiser levar o troféu. As outras capitais têm predicados indiscutíveis, mas, por enquanto, Maceió é meu novo destino preferido do Nordeste.

[FOTOS: (1) o mar turquesa de Ponta Verde, impensável para uma praia urbana; (2) o sol nascendo às 4h40 da manhã; (3) praia do Gunga, passeio que mais chama a atenção dos turistas; (4) sushizinho esperto do Takê; (5) água cristalina em Barra de São Miguel; (6) uma simpática maria-farinha no fim de tarde em Ipioca]

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Picadinho nordestino (parte 1)

Os homens pernambucanos ainda têm o sotaque mais gostoso do Nordeste. A Praça da República pegou emprestado algumas medusas luminosas da Rosane Amaral para fazer sua decoração de Natal. Brasília Teimosa era imbatível na categoria "bairros com nome bizarro"; agora o nome mudou para Brasília Formosa, coisa mais sem-graça. Na gíria recifense, menino é "boyzinho". E menina? É "boyzinha", ora! A sinalização nas estações do metrô de Recife segue a mesma identidade visual do metrô paulistano - a linha Centro tem fontes e cores idênticas às da nossa linha 3-Vermelha (eu me senti no Carrão!). Aliás, eu ainda fico espantado com a devoção que os recifenses nutrem pela cidade de São Paulo. As incansáveis carrocinhas de CD pirata, que fazem a trilha sonora compulsória da praia, adoram desenterrar alguma música do além e transformá-la em hit do verão. Em 2007, foi o hino disco "Dance Little Lady Dance", da Tina Charles (1976); agora é a vez de "Muito Estranho", que fez a fama do cantor Dalto nos idos de 1982 ("cuida bem de mim! então misture tudo... dentro de nós!"). No quesito gente bonita, o trecho em frente ao Edifício Acaiaca continua sendo pura propaganda enganosa. E o mais gostoso para ficar é aquela clareira tranqüila que sempre se forma entre a muvuca do Acaiaca (número 3232) e a concentração gay-penosa na altura do finado Hotel Savaroni (3772). Tomei uma caipiroska de uva incrível no Clássico Cozinha Afetiva, novíssimo restaurante que serve pratos de comfort food assinados pelo famosinho Douglas Van Der Ley. Aliás, também é dele o cardápio do It, que funciona dentro da bacanérrima multimarcas DonaSanta e é a opção mais cool para almoçar em Boa Viagem (adorei a mesona coletiva, com tentáculos que se espalham por todo o salão). Fui me dar mal justamente no meu restaurante predileto, o Oficina do Sabor, em Olinda. Quis inventar moda e pedi um camarão com creme de gengibre uó - o molho levou o troféu Xuca da Silva. Não tem jeito: lá o negócio é pedir o bom e velho Jerimum Frevoé! Engraçado que Las Bibas From Vizcaya são idolatradas aqui em SP, mas lá em Recife ninguém fala nelas. O buxixo da Galeria Joana D'Arc deu uma reanimada, mas está menos gay. É sempre difícil escolher entre os 57623 crepes do cardápio da Anjo Solto. O Marquinhos, que acessa meu blog todo dia e reclama quando não tem post novo, é muuuuuito fofo! Os pernambucanos que foram ao Sauípe se jogar no Heaven & Hell estão falando bem do festival até agora. Quando o assunto é qualidade de som e público, a nova New Misty é bem melhor que a veterana Metrópole. Mas eu me divirto mesmo é com a mundiça do MKB ("Meu Kaso Bar", que tal?), que pra mim continua sendo, de longe, a melhor balada de Recife. Ainda acho que a Thermas Boa Vista, que dá de 10 na nossa 269, é a melhor sauna gay do Brasil (OK, ainda preciso conhecer a tal Dragon, de Fortaleza). Mas o público era melhor e mais jovem em 2007. Esqueça os melindres semânticos dos baianos: em Recife, você pode chamar os cafuçus de cafuçus sem medo, porque eles têm orgulho de ser cafuçus. Viva os cafuçus!!! [Quer ler Recife 2007? Clique aqui].

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Férias do blog - ¡Hasta la vista!

Em 2009, fiz várias viagens curtas Brasil afora, mas não parei de postar por causa delas (muito pelo contrário: escrevi ainda mais). Agora, com o cansaço acumulado das últimas semanas e férias de verdade pela frente, chegou a hora de dar um descanso para o Introspective. O blog ficará em recesso por duas semanas, sem novas atualizações. Quem não quiser perder o hábito da leitura pode passear pelos meus links e dar uma olhada no que meus amigos andam escrevendo (alguns têm postado coisas ótimas). E aos que me seguem há pouco tempo, fica o convite para que fucem nos meus arquivos e leiam os textos mais antigos - muitas águas rolaram nestes quase três anos escrevendo aqui. Até a volta!

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Curitiba, Porto Alegre ou Belo Horizonte?

Três capitais de porte médio, três opções de passeio para um fim de semana diferente, aproveitando os freqüentes voos promocionais. Não custa lembrar: este comparativo é 100% subjetivo, baseado nas minhas experiências pessoais. Meus posts com roteiros e dicas dessas cidades, você encontra aqui, aqui e aqui.

1 ATRAÇÕES TURÍSTICAS Convenhamos: nenhuma das três é uma cidade turística. Turístico é o Rio de Janeiro. Quem parece mais empenhada em receber visitantes é Curitiba: a cidade soube transformar suas muitas áreas verdes em atrações turísticas, distribui mapinhas claros e explicativos e foi a primeira a criar linhas de ônibus que percorrem os pontos de interesse, nos moldes de capitais europeias. Por outro lado, as concorrentes têm arredores bem mais atraentes: Porto Alegre tem fácil acesso a Gramado (e é ofuscada por ela), enquanto BH arrasa com o casario histórico de Ouro Preto e o sensacional Inhotim. Curitiba 1 ponto, Porto Alegre 1 ponto, BH 1 ponto.

2 ZONAS DE CHARME As três capitais têm bairros que cumprem a função de Ipanema ou dos Jardins, com cafés, restaurantes e gente bonita nas calçadas. O Moinhos de Vento (Porto Alegre) me pareceu o mais charmoso, talvez por ser pequenino e aconchegante, com uns guris fofos flanando pelo Parcão ou pela Rua Padre Chagas. O Batel (Curitiba) é bem maior, tem muito mais opções de bares, restaurantes e compras e, portanto, acaba sendo o mais interessante para o turista. O miolo elitizado de BH (Savassi e Lourdes) tem prédios ótimos para se morar, mas o fervo é meio tranqüilo demais, com pouca coisa acontecendo na rua. Curitiba 2 pontos, Porto Alegre 1 ponto, BH 1 ponto.

3 O POVO Gente bonita e gente feia existem em todo lugar. Mas os mineiros saem na frente, porque são de longe os mais simpáticos, fofos e receptivos. A beleza dos gaúchos tem fama, mas muitos partidões vivem reclusos e dificilmente dão sopa por aí. O mesmo acontece com Curitiba, que fica na lanterninha por ter o povo mais fechado. Conhecidos que se mudaram para lá tiveram dificuldades para se entrosar, e o turista que chega querendo se jogar pode sentir falta de mais interação. Sua experiência será muito mais agradável se você já tiver amigos locais, que possam te inserir nas rodinhas (como aconteceu comigo). Curitiba 0 pontos, Porto Alegre 1 ponto, BH 2 pontos.

4 GASTRONOMIA Empate técnico entre Porto Alegre e Curitiba, que têm circuitos gastronômicos simplesmente fantásticos. Nas duas cidades, os comilões passam muito bem, sem jamais sentir falta dos bons restaurantes de SP. Os mineiros também valorizam a boa mesa e sua farta culinária típica é muito apreciada - mas, à primeira vista, a cena de Belo Horizonte não me pareceu tão rica e diversificada quanto a das capitais do Sul. Talvez essa impressão mude quando eu tiver oportunidade de explorar BH com mais calma. Curitiba 2 pontos, Porto Alegre 2 pontos, BH 1 ponto.

5 NOITE GAY Com a noite mais desenvolvida do Sul (considerando que em Floripa o fervo é sazonal), Curitiba tem a maior quantidade de endereços, com bom movimento de quinta a domingo. Mas BH vence pela qualidade: a Josefine é a melhor boate gay de fora do eixo Rio-SP e, na mesma quadra, o fofíssimo Café com Letras é o lugar mais gostoso para se fazer um "esquenta". Porto Alegre ocupa um desonroso último lugar: lugares como Ocidente, Refugiu's, Venezianos e Cine Theatro Ypiranga (apropriadamente chamado de "CTI") ajudam a explicar por que os gaúchos não saem da toca. Curitiba 1 ponto, Porto Alegre 0 pontos, BH 2 pontos.

EM SUMA... Se você quer comer bem, gosta de andar a pé e acha que parques podem ser tão encantadores quanto praias, escolha Curitiba. Se a ideia é curtir um fim de semana a dois, de preferência no inverno, com muita comida e pouca balada, visite Porto Alegre e estique até Gramado. Agora, se você está viajando sozinho, quer ferver, conhecer gente e fazer novos amigos, a melhor pedida é BH. Curitiba 6 pontos, Porto Alegre 5 pontos, BH 7 pontos.

[FOTOS: Bosque Alemão (Curitiba), Parque Farroupilha (Porto Alegre) e Museu de Arte da Pampulha (Belo Horizonte)]

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Consumo e felicidade*

Patrick Terrien, chef francês e diretor da escola de culinária Le Cordon Bleu, declarou à coluna "As últimas 10 coisas que comprei", do caderno Vitrine, da Folha, ter comprado champanhe, flores, foie gras, laranjas, cogumelos selvagens, água, jornal, pão, um CD e entradas para o cinema.

O que uma pessoa compra dá uma boa noção de como ela vive. No caso do chef, tudo o que ele comprou foi para o consumo em família, para presentear um amigo e sair com a mulher. Comprou coisas que não duram nem podem ser exibidas, mas podem tornar a relação entre as pessoas próximas a ele mais agradável e apetitosa.

A lista me surpreendeu, pois já havia notado que vários entrevistados da coluna falam de objetos que exibem seu poder aquisitivo, de modo a agregar valor a si próprios, digamos, convertendo-se em produtos. Tornar a si mesmo vendável é, para o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, uma das tarefas mais importantes que as pessoas têm numa sociedade de consumo, além de conquistar a felicidade. Para ele, a felicidade é o principal objetivo da sociedade de consumo.

De fato, se estivéssemos na Grécia Antiga, nosso objetivo seria alcançar fama e glória. E, se vivêssemos na sociedade medieval, o fim de todo indivíduo seria cumprir a doutrina cristã para salvar sua alma. Mas, na sociedade de consumo, vivemos para sermos felizes por meio do que adquirimos. Paradoxalmente, por meio daquilo que descartamos.

A aquisição de mercadorias satisfaz nossos desejos e providencia nossa felicidade. Mas os desejos são inesgotáveis. Brotam de todo contato que temos com o que existe no mundo. Um dá lugar a outro, e satisfazê-los é tarefa impossível. Como as mercadorias são produzidas com a finalidade primeira de serem compradas, a sociedade de consumo precisa permanentemente provocar nossa insatisfação com o que temos e atiçar nosso desejo pelo que ainda não temos.

Toda propaganda de alguma mercadoria sugere, subliminarmente, que aquela que temos está ultrapassada e não pode nos oferecer o que a nova poderá. Não comprá-la é ficar em falta com nós mesmos e não pertencer ao círculo especial dos que já a adquiriram.

Enredados nesse moto contínuo de insatisfação/descarte/consumo, compreendemos a máxima da vida: sempre seremos felizes por pouco tempo. Toda suposta felicidade antecipa uma infelicidade. E, enquanto saltamos de uma infelicidade a outra, a almejada felicidade passa a ser um breve intervalo, sempre imperceptível.

A felicidade, substituída pela satisfação de desejos nunca aplacáveis, jamais é experimentada. O que nos resta é a ansiedade da felicidade. As compras do chef francês sugerem que ele se desvia dessa sedução consumista. Fruir, mais do que ter. E não apenas o sabor do foie gras ou dos cogumelos mas o prazer de repartir com amigos e familiares pequenos prazeres. Celebração e simplicidade.

[(*) Artigo escrito pela terapeuta existencial e professora de filosofia Dulce Critelli e publicado no caderno Equilíbrio do jornal Folha de S.Paulo, no dia 12. Gostei tanto que resolvi dividir com vocês]

domingo, 15 de novembro de 2009

Elvis e Madona: bacana do começo ao fim

A solidariedade com o próximo não poupa nem mesmo nossos momentos de lazer. Quem de vocês já não foi ao teatro ver alguma peça bem ruinzinha, só para dar uma força a um amigo querido que estava no elenco? Ou não comprou uma brochura de poesias pra lá de toscas, dessas que são oferecidas na Avenida Paulista, para ajudar algum escritor maltrapilho a sobreviver de sua arte? Ou mesmo não encarou aquela festinha de aniversário erradíssima, porque uma boa amizade justifica até certos micos?

Algo parecido se dá em nosso meio em relação aos produtos culturais "GLS". Existe um senso comum de que devemos prestigiar todas as iniciativas feitas por, com ou para gays, como forma de apoiar "a causa" e fortalecer nossa classe tão preterida e desfavorecida, numa espécie de "corporativismo pink". Nesse sentido, comprar revistas e ver filmes vira um ato político, revestido de um propósito nobre. No caso dos filmes (e até mesmo das novelas), a simples presença de personagens homossexuais na trama já justificaria nosso interesse - afinal, somos tão varridos para baixo do tapete pela sociedade, que qualquer um que nos tire do ostracismo merece nossa gratidão.

De fato, para alcançar a inclusão social e a conquista de direitos tão sonhados, é preciso que os gays [escrevo 'gays' sempre em sentido amplo, incluindo GLBTTXYZ, ok?] se articulem, da mesma forma como fazem os evangélicos e tantos outros grupos da sociedade. Quando damos ibope aos tais produtos, mostramos que somos um mercado, temos anseios e queremos ser reconhecidos. Mas esse gesto tão louvável exige de nós uma certa dose de boa vontade. Para proteger quem nos estende a mão, acabamos diminuindo o nosso nível de exigência: não raro, somos obrigados a fazer vista grossa à inconsistência do enredo do filme, ou ao gritante amadorismo da revista. Enfim, consumimos produtos que certamente não passariam no nosso crivo, se não fosse pelo fato de terem um ingrediente gay.

Felizmente, desse cenário despontam algumas boas exceções. Produtos que não têm no tal ingrediente gay o seu único predicado, mas se amparam em outras qualidades, transcendendo guetos e se comunicando com um público maior. Um ótimo exemplo é o filme Elvis e Madona, de Marcelo Laffitte, uma das surpresas do Festival Mix Brasil deste ano. Elvis faz bicos entregando pizzas, enquanto não consegue ganhar dinheiro com a fotografia; Madona é cabelereira e luta para juntar dinheiro e produzir seu espetáculo musical. Do encontro desses dois caminhos, surgirá uma amizade, que aos poucos se transformará em algo mais forte. É mais uma história de amor, mas foge do lugar-comum por várias razões - a começar pelo fato de que Elvis é uma menina lésbica e Madona, uma travesti.

A história, que se passa no bairro carioca de Copacabana, tem ritmo e agilidade. O amor entre as personagens, além de nada óbvio, não vem de mão beijada, atravessando alguns conflitos e momentos de suspense, com direito a uma reviravolta no final. Madona é vivida pelo ator Igor Cotrim, que desbancou travestis de verdade nos testes para o papel. O moço deve ter feito um laboratório poderoso, pois conseguiu assimilar não só o vocabulário, mas também a atitude e o jogo de cintura dessas pessoas, que tentam extravasar em seus corpos de homem a feminilidade que carregam dentro de si. Para criar a personagem, foi inevitável a construção de uma caricatura, mas ao longo do filme Igor soube encontrar seu equilíbrio, defendendo o papel com honestidade e respeito, sem deixar o humor de lado.

Elvis e Madona é um filme simpático e nada pretensioso. O elenco conta com a participação de alguns atores globais consagrados, mas sempre em papéis secundários. Além disso, é palatável a vários tipos de público, conseguindo subverter com delicadeza os conceitos de normalidade impostos socialmente. Depois de enfrentar várias batalhas (incluindo a captação de patrocínio, que chegou a interromper as filmagens, por falta de verba), o longa ainda luta para encontrar uma distribuidora. Quem se animar com o vídeo abaixo e não quiser esperar pela estreia, ainda incerta, tem mais uma chance de conferir o filme no Mix: no próximo sábado (21/11), às 15h30 no Cinesesc.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Porto Alegre te despreza

Não poderia ter sido outro o título do post. Depois daquela traumática experiência de junho de 2008 (quando fui passar um inofensivo fim-de-semana em Porto Alegre e fiquei quatro dias trancado em casa, enquanto a cidade era varrida por uma tempestade e o aeroporto permanecia fechado), peguei um bode de lá. Resolvi dar uma segunda chance à capital gaúcha em uma época "segura", quando o tempo estivesse quente e ensolarado e eu poderia finalmente conhecer o tão falado sunset do Guaíba. Aproveitei o feirão da Gol em setembro e comprei passagens para voltar a Porto no último fim-de-semana. Qual não foi minha surpresa ao ver que, em plena primavera, a previsão era de chuva nonstop... meu pesadelo gaúcho se repetiria nos mínimos detalhes!

Até pensei em cancelar a viagem (colegas blogayros sugeriram que eu fosse para o Rio ou até BH, onde o finde de sol estava garantido), mas a saudade dos amigos gaúchos e a preguiça de passar pelo procedimento de reembolso da Gol falaram mais alto. Diante do mau tempo, fui checar o circuito cultural do Centro - a Feira do Livro e a Bienal do Mercosul ocupavam os principais espaços culturais da cidade. Visitei o Museu de Arte do Rio Grande do Sul (MARGS, em cujo café comi uma cheesecake de chocolate maravilhooosa, fica a dica!), o Santander Cultural (lindo prédio), o Cais do Porto (meio chocho) e a famosa Casa de Cultura Mário Quintana (que deve ter vivido dias melhores, pois parecia meio abandonada; aliás, o café na cobertura tinha potencial para ser um lugar realmente bafônico, se sofresse uma repaginação bem planejada).

Não foi como eu havia imaginado, mas consegui ocupar o tempo sem ficar maldizendo a minha sina - e ainda tive um fim de tarde delicioso com um guri que conheci por ali. À noite, depois de jantar com meu atencioso anfitrião, segui a dica dele e fui conferir a festa Biônica, num clubinho da Cidade Baixa. Ótima surpresa: som bem legal, transitando entre house, breaks e electro (da dupla de DJs, só se viam as silhuetas contra o telão: eles tocavam no escuro, com umas perucas espetadas e uns óculos-lanterna acesos, tipo um "Information Society from hell, with lasers"), pista animada e cheia de gatitos, embalada por um ar condicionado polar (que compensou o calorão pegajoso do Ocidente na véspera). Mesmo com a chuva, fechei o sábado no lucro.

Para minha sorte, a cidade se redimiu no domingo e me presenteou com um lindo dia de sol. Primeiro, fui conhecer o Parcão, onde os chiques do bairro Moinhos de Vento vão para ficar com o cooper feito. Depois, segui para o miolinho da Padre Chagas (uma mistura do Batel de Curitiba com o Palermo Soho de Buenos Aires; o Z Café lembra muito o Bar 6 portenho). Na transversal Dinarte Ribeiro, vi vários restaurantes novos - seis deles bolaram uma iniciativa que permite ao cliente escolher pratos de uma casa e comer em qualquer das outras cinco. Não resisti e voltei ao Usina de Massas (que não participa da brincadeira), para matar a saudade do mítico nhoque com molho de carne de panela cremoso. Fiquei furta-cor com os novos preços: pela porção individual da massa e uma garrafinha de água, paguei R$67! Só valeu a pena porque esse prato é mesmo dos deuses.

Depois do êxtase gastronômico, fiz o programa clássico dos gaúchos: fui tomar sol (dispensei o chimarrão) vendo o movimento no Parque Farroupilha (ou Redenção), bem mais democrático e agitado que o Parcão. Amigos contavam que uma passada no Brique da Redenção, espécie de feirinha de artesanato que rola por lá, era programa obrigatório das bees locais, mas até que não vi tantas. Mesmo assim, foi bem interessante ver o vaivém da fauna local, com direito a famílias felizes, grupos de loiras legítimas, emos com looks de baixo custo e alguns homens de babar. De lá, fui correndo para o Gasômetro - se eu finalmente conseguisse ver o bendito pôr-do-sol, minha estada seria completa. Infelizmente, tive que ir para o aeroporto antes que o sol se pusesse, mas tudo bem: deixei Porto Alegre satisfeito e resolvi que vou ver o tal "espetáculo" pelo YouTube mesmo...

[Foto: Parque Moinhos de Vento com o chão coberto pelas pétalas dos ipês coloridos]

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Ensaio sobre a cegueira

(Eu ia falar do blecaute de ontem em um post cheio de personagens, na linha deste e deste que fiz na época da Parada Gay de 2008, mas o Celso acabou fazendo primeiro, então desisti da ideia). Querem saber? O apagão pode ter causado diversos transtornos em pelo menos sete Estados (diz que os cariocas nunca foram ensinados a dormir sem ar condicionado), mas eu me diverti bastante.

Quando as luzes se apagaram, eu estava no meio de uma aula-seminário desgastante, com alunos e professora trocando farpas; num passe de mágica, o blecaute desfez o climão imediatamente. Nos corredores do prédio, meninas davam gritinhos, e imagino que alguns casais mais espertos aproveitaram para engrenar um gato-mia erótico de ocasião. Afinal, um blecaute pode encerrar em si uma grande tensão sexual, especialmente em um prédio cheio de cantinhos e gente de várias orientações sexuais com os hormônios à flor da pele.

Na Paulista, estranhamente, senti um clima de inquietação e euforia (?) parecido com a semana do Natal (só que sem as luzes). Claro que alguns deveriam estar cansados e preocupados com a volta para casa, mas outros tantos aproveitaram a contingência para reunir a galera, beber e comemorar (!). Trezentos mil celulares faziam ligações incessantemente, e o inusitado entusiasmo só crescia quando se descobria que o mesmo apagão estava acontecendo no Rio, em Vitória, Minas e até no Centro-Oeste. "Nossa, que irado, é no Brasil inteiro, véi!", exclamou um rapaz de boné.

Desisti de ir para casa e tomei o rumo do Conjunto Nacional, atrás de um lanche. Por uma casualidade do destino, descobri que dois dos meus melhores amigos também estavam perdidos pela Paulista. Nós nos abraçamos felizes com a coincidência, e achamos graça de tudo aquilo, como três adolescentes. Difícil foi achar um lugar que nos recebesse para comer e beber, ou mesmo que vendesse algo para consumirmos na rua: temendo confusões e assaltos, os estabelecimentos só serviam quem já estava lá dentro. Aliás, um desses meus amigos estava prestes a entrar na 269 quando a luz acabou, e foi barrado; se tivesse chegado cinco minutos antes, sua noite teria sido no mínimo engraçada.

Depois de uma romaria danada, acabamos num boteco bem pé-sujo, onde churrasquinhos eram as opções mais dignas disponíveis. Comemos, bebemos e rimos muito, enquanto víamos o movimento e apreciávamos o clima de festa ao nosso redor. A escuridão nos instigava: o papo na mesa girava em torno dos temas e causos mais baixos, sórdidos e absurdos possíveis, enquanto imaginávamos o que não estaria acontecendo em certos lugares e regiões - no calor das elucubrações, houve até quem sugerisse uma expedição trash pelo Centrão ou pelo Autorama. Mas o fogo-de-palha acabou logo, e os três amigos por fim se separaram. Eu pelo menos voltei bonitinho para casa...

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

72 horas em Natal

EM FASE DE CRESCIMENTO
Pequena, limpa e segura (especialmente em comparação com Salvador e Recife), Natal ainda é pouco verticalizada e não tem cara de metrópole, mas de "cidade de praia". Tem apenas 800 mil habitantes e vive do turismo - que chega ao auge em dezembro, com o Carnatal, maior micareta do país. Deve crescer bastante nos próximos anos, com um incipiente boom imobiliário e investimentos para a Copa de 2014, que incluem a construção do maior aeroporto da América Latina. O sol nasce e se põe cedo: às 6h, já dá para ir à praia, e pouco depois das 17h já está completamente escuro e a lua brilha no céu (!). Como a cidade é espalhada e cortada por grandes avenidas, o turista precisa de carro o tempo todo - especialmente se ficar hospedado na Via Costeira, que alinha os hotéis mais novos e de maior porte.

AL MARE
Ponta Negra é a praia urbana mais famosa de Natal. No canto direito (emoldurado pelo Morro do Careca), existe um centrinho urbano meio bagaceiro, que lembra o Porto da Barra, em Salvador; ali, a presença gringa é constante. No canto esquerdo, a orla é menos muvucada e mais residencial; a moçada fica na altura dos quiosques 20 e 21, em frente ao Manary (hotel charmoso e friendly, com um ótimo restaurante). Ponta Negra é essencialmente uma praia de turistas: o natalense (que é bem menos praieiro do que os nordestinos de outros Estados) prefere ir para Redinha, na zona norte, ou para Cotovelo, Pirangi e Búzios, que ficam fora de Natal, no caminho para Pipa.

HAPPY PIPA
Aliás, uma esticada até Pipa, vila charmosinha uns 80km ao sul de Natal, vale muito a pena. A praia do centro é meio farofa: o belo visual é poluído por uma profusão de mesas e cadeiras de plástico, ocupadas por famílias em pacotes turísticos. Prefira a Praia do Amor, à direita (dá para ir andando, se a maré não estiver cheia): mais rústica, com espreguiçadeiras, reúne o povo jovem e bonito do pedaço. Para quem quiser ficar em Pipa (e estiver com o orçamento folgado), duas dicas top são a pousada Toca da Coruja e o restaurante Camamo, nova casa do chef do fantástico Beijupirá, de Porto de Galinhas. Se, por outro lado, você preferir relaxar em uma praia realmente low profile, troque Pipa por Galinhos, 150km ao norte de Natal.

BUGUE-WOOGIE
O passeio mais típico é feito a bordo de um bugue e toma um dia quase inteiro. O circuito começa nas lindas dunas de Genipabu (onde os mais empolgados fazem passeios de dromedário, com direito a turbante na cabeça e foto-recordação). O toque de aventura fica por conta do bugueiro, que sobe e desce as dunas em alta velocidade, fazendo manobras bruscas, especialmente se o turista pediu o passeio "com emoção". Nas próximas paradas, mais esportes radicais: esquibunda (descer uma longa duna sentado em uma prancha, caindo na água) e aerobunda (aqui, você despenca na água a partir de um teleférico improvisado). Antes de voltar para Natal, escala para almoço num desses restaurantes industriais para o turismo de massa. A real: as dunas são lindas e os 'esportes' são divertidos, mas... o que na primeira vez é novidade, numa segunda já se tornaria um programa de índio.

ENCHENDO O BUCHO
Tive excelentes surpresas no capítulo gastronomia: restaurantes grandes, vistosos e com preços camaradas, transitando entre o regional e o internacional. O que mais me impressionou foi o Camarões Potiguar, tão bom que visitei duas vezes (em apenas três dias de estada). Os pratos de camarão custam R$55 e servem duas pessoas; entre tantas opções, o Creme Shiitake e o Fondue são imperdíveis. Outro que não pode ficar de fora é o Mangai, um bufê regional gigantesco, divino, que coloca o Parraxaxá de Recife no chinelo. A carne de sol com natas é deliciosa, e a mesa de doces é uma afronta. Na churrascaria Tábua de Carne, você come um macio filé mignon de sol com acompanhamentos típicos e ganha de brinde uma bela vista panorâmica. Para algo menos típico, duas pedidas são o badalado Temaki Lounge, que investe nos sushis com toques fusion, e o versátil Guinza, que serve culinária japonesa e internacional. Os sucos do Mangaboo e os doces da Daguia Tortas Finas estão entre os melhores da cidade.

PUSSYCAT FORRÓ
Sabe qual é a música típica de Natal? Beyoncé, Pussycat Dolls... em versões forró, é claro. O hit da hora é uma versão de "Angel", do Jon Secada, que toca a cada cinco minutos; acho que cheguei a ouvir "Halo" (Beyoncé) com duas letras diferentes. Na balada, saem os DJs e entram as bandas: são elas as atrações das casas mais concorridas da cidade, como o Decky e o Sargent Pepper's (que tem programação na linha pop-rock e é tido como um dos melhores "esquentas" de Natal). Mesmo na principal boate gay, Vogue Natal, a pista de tribal-bate-cabelo (mal equalizado, distorcido, de agredir os ouvidos) é menos animada do que o ambiente com música ao vivo. A Vogue divide as bees com o Feitiço, outro espaço para shows dominado pelo público GLS. O único endereço que aparentemente tinha uma proposta mais eletrônica, o incrementado Crystal Club, acabou fechando as portas. O jeito é aprender a cantar "Halo" em português.

O LADO RUIM
Como nem tudo são flores, quem quiser se engraçar com os nativos precisa de muita paciência. Se em todo o Nordeste a cultura machista/ patriarcal deixa os gays acuados, em Natal o problema se agrava, porque todo mundo se conhece e morre de medo de se expor. Caçar pelo Disponível ou Manhunt? Choverão mensagens (sempre te chamando de "brother"!), mas 99,9% dos perfis mostram só o pipi e o popô - e marcar encontro com uma mula-sem-cabeça local pode gerar grandes sustos. Na balada, não é menos complicado: os caras te olham por horas, mas nunca tomam uma atitude; você faz a abordagem, o cara fica sem jeito e, meia hora de papo depois, você vê que a coisa não deslancha nunca. Isso se algum conhecido seu não vier te cumprimentar e o cara praticamente sair correndo, branco como papel, porque você conhecia alguém ali. Ou você fica com algum outro turista, ou faz a linha marginal e cai no perigón da pegação noturna de Ponta Negra, ou se contenta em provar os sabores da culinária.
[FOTOS: Morro do Careca, em Ponta Negra, símbolo de Natal; Praia do Amor, em Pipa]

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Do Começo Ao Fim: para sonhar sem pensar

Hoje fui convidado para uma sessão fechada do filme Do Começo Ao Fim, junto com outros blogueiros e jornalistas [para conhecer a história, confira o trailer aqui]. O longa de Aluizio Abranches vem ao mundo carregando um grande peso nas costas. O público gay ficou em polvorosa desde o vazamento precoce do vídeo promocional (que foi acessado por mais de 700 pessoas em apenas duas horas) e passou a depositar nele expectativas bastante altas. Além disso, o assunto central - a relação de dois irmãos que crescem juntos e descobrem que se amam - é polêmico e merece um tratamento cuidadoso.

Para dar conta do recado, o diretor optou por um caminho fácil: focou seu olhar exclusivamente no romance entre os rapazes, isolando-os do mundo ao seu redor. Após um olhar carinhoso sobre a infância de Francisco e Tomás, a narrativa sofre um abrupto corte de 15 anos, os dois protagonistas subitamente percebem o que sentem um pelo outro, e a partir de então passam a viver numa bolha de amor. Nessa fantasia, não há espaço para dilemas ou conflitos: a relação é, no mínimo, improvável, mas não enfrenta nenhum tipo de hostilidade ou obstáculo. O fato de os dois serem irmãos parece ficar em segundo plano e não ter grande importância.

Do Começo ao Fim tem muitos predicados. É superdelicado, tem belos cenários, fotografia e trilha sonora caprichadas. Julia Lemmertz (cada vez mais bonita) está impecável como a mãe dos rapazes. Amorosa e sensível, ela nem precisa de texto para expressar sua ternura - bastam-lhe os olhos e o sorriso. A love story é contada com doçura e intensidade: a declaração de amor (picotada no trailer) que Francisco faz para Tomás é tão bonita que dá para escrever e pendurar na parede; a seqüência dos dois dançando tango nus, embora curta, é marcante. O novato João Gabriel Vasconcellos se saiu muito bem como o irmão mais velho, Francisco, e parece ter um futuro promissor como galã.

Por outro lado, alguns diálogos são sofríveis (sobretudo os da "fase infantil", que soam completamente artificiais) e, se você não for do tipo sonhador, que se deixa levar pela fantasia, talvez comece a apontar vários furos e inverossimilhanças, aqui e ali. Por sorte, sou um romântico incorrigível e meu lado menininha falou mais alto. Como uma parte de mim sempre quis ser o "filhote", sempre procurou um homem um pouco mais velho que cuidasse de mim, me desse carinho e me protegesse, eu me identifiquei com a fantasia proposta e consegui me render à delicadeza da história, deixando o senso crítico de lado. Mesmo assim, senti falta de um fecho à altura: achei que o filme terminou "meio de qualquer jeito".

Para quem simpatiza com histórias água-com-açúcar, Do Começo ao Fim certamente vale o ingresso. Pela forma limpa de mostrar o desabrochar da sexualidade, o filme será uma referência positiva para adolescentes gays, que ainda estão se descobrindo (assim como o fundamental De Repente Califórnia). Às vezes, tudo o que precisamos é de um pouco de fantasia: muitos gays encherão os olhos com a beleza dos atores, e se permitirão sonhar com Francisco e Tomás. Mas não sei se o filme conseguirá convencer um público mais amplo. Não por ter incluído os temas homossexualidade e incesto, mas por ter dado a eles um desdobramento raso, desperdiçando a chance de ser um filme muito maior. No fim das contas, passado o encanto inicial, fica a sensação de que o diretor poderia ter ido mais longe.

sábado, 31 de outubro de 2009

Pré-verão

De repente já estamos em novembro, e daqui pra frente o ano vai escoar cada vez mais rápido. Este feriado será divinamente ensolarado em boa parte do Brasil - um prenúncio do verão que a gente sempre espera e adora. Tem Parada no Rio, tem festas em Floripa, Salvador... não faltarão opções para quem quiser sair da toca e se jogar. Quando vocês estiverem lendo este post, provavelmente estarei dourando o corpinho nas areias de Natal ou Pipa. Quem sabe eu não encontro uns cafuçus como os dessa foto [tirada do novíssimo livro de Mario Testino, MaRio de Janeiro Testino] para passar filtro solar nas minhas costas? Bom feriado a todos, e obrigado pelos 200 mil acessos no blog!

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

"CPF na nota?"

Quem mora em São Paulo já se acostumou a ouvir essa pergunta antes de fazer uma compra ou mesmo pagar o almoço no quilo do dia-a-dia. Para os que não são daqui, uma rápida explicação: para aumentar a arrecadação de ICMS, o governo daqui criou o Programa Nota Paulista, que neste mês está fazendo dois anos. Ao fazer uma compra, o cidadão informa seu CPF e pede a nota fiscal ao estabelecimento; do ICMS que é recolhido, a Secretaria da Fazenda restitui uma parte (30%) ao consumidor. Trocando em miúdos, o cidadão assume o papel de fiscal e o governo lhe oferece uma fatia do ganho como recompensa.

Todo mundo sabe que exigir nota fiscal e combater a sonegação é uma questão de cidadania - afinal, o imposto recolhido pelo governo, EM TESE, beneficia toda a população. Ao mesmo tempo, é uma postura que nunca fez parte da rotina da maioria, e até mesmo para estimular a criação do hábito é que a recompensa se torna importante. Pelo programa, o consumidor pode escolher a forma de receber os créditos (em dinheiro na conta, na poupança, em abatimento do IPVA), e ainda concorre a pequenos prêmios em dinheiro.

O problema é que o site que receberia as notas fiscais teve falhas operacionais nos três meses iniciais do programa, não creditando os valores, e por conta disso muita gente concluiu que o sistema era furado e o sacrifício de juntar quilos de notas fiscais não valia a pena. Além disso, existe por parte do cidadão comum, que enxerga o Fisco como um predador, o receio de ter seus gastos bisbilhotados e monitorados pelo governo. Resultado: a propaganda negativa se multiplicou, fazendo com que mais pessoas se desinteressassem pela ideia.

Confesso que eu mesmo não aderi ao sistema, por pura inabilidade para guardar quilos de notas fiscais, e influenciado pela tal propaganda negativa. Mas fiquei tentado a vencer a preguiça e rever minha posição quando soube que meu chefe já acumulou cerca de mil reais em pouco mais de um ano. Tudo bem que ele é bem mais disciplinado do que eu jamais conseguirei ser (ele pede nota paulista até de cafezinho, e chega a boicotar estabelecimentos que não fazem o crédito), mas pelo menos isso mostra que o sistema realmente funciona. O único senão: o governo está ampliando as hipóteses de substituição tributária para cada vez mais produtos. Com isso, o ICMS passará a ser pago pela indústria, não mais pelo varejo, e o consumidor que pedir a nota paulista acabará não recebendo nenhum crédito.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

O grande desafio

O mundo precisa de novas ideias. Uma pauta genial, tipo "como é que ninguém pensou nisso antes?", que renda uma reportagem incrível, alavanque a imagem de uma revista e justifique sua existência. Um novo seriado de TV, que desponte na programação e chame a atenção das pessoas, conquiste fãs e vire mania. Uma solução arquitetônica criativa para otimizar o espaço dos apartamentos cada vez menores. Uma estratégia de marketing que consiga convencer os consumidores de Coca-Cola de que a Pepsi é uma bebida saborosa e desejável. Uma nova batida musical - ou mesmo uma nova combinação dos velhos elementos - com um resultado diferente, contagiante, que faça as pessoas correrem para a pista, gritarem e levantarem os braços. Uma cura para o vírus HIV, o diabetes e o mau humor de segunda-feira. Um jeito gostoso de comer legumes. Uma lufada de ar fresco. Um novo olhar sobre a vida. O pulo do gato.

É fato que continuarão existindo seriados de tevê. E revistas. E propagandas de Omo, Apracur, Tintas Suvinil e Gleid Sachê. E coleções de roupas. E novelas. E hinos de axé music e house tribal. Até segunda ordem, as referências do passado, as fórmulas já testadas, tudo aquilo que deu certo terá que continuar servindo, quebrando o galho e dando conta do recado. As pessoas continuarão se vestindo, comendo e satisfazendo suas necessidades básicas de qualquer maneira. Difícil mesmo é bolar coisas novas - ou que não sejam tão novas assim, mas ostentem frescor, despertem desejo, provoquem as pessoas. Rompam a inércia, o marasmo, a letargia, e façam o mundo sair do piloto automático e dar um passo à frente. Existem riscos, claro - mas deles dependem o consumo, o lazer, a economia, nossa felicidade, tudo. Inovar é o desafio do mundo.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Menos Bonner e mais William

Foi contratado pela Globo e ganhou exposição diária no horário nobre. Conquistou uma legião de fãs; passou a receber ainda mais carinho e assédio depois que abriu uma conta no Twitter, onde fala de igual para igual com seu público - dia desses, causou sensação ao dividir sua receita de brigadeiro. Tudo isso seria banal se estivéssemos falando de um ator de novelas. Mas a história se torna no mínimo curiosa quando se trata de um apresentador de telejornal - aliás, o editor-chefe do noticiário de maior audiência do país (o Jornal Nacional, da Rede Globo).

William Bonner está cada vez mais pop. Na tal conta no Twitter, onde já tem quase 160 mil seguidores, brinca com os interlocutores e retransmite os twits mais engraçadinhos a seu respeito. Aliás, ele mesmo parece bem mais soltinho ali do que o JN lhe permite. Entrevistado por Marília Gabriela na última edição de seu programa, que foi ao ar no dia 18/10 no canal GNT, ele explicou que quer mostrar que é "uma pessoa normal" e está adorando esse contato mais próximo com os fãs. Falou também sobre o casamento com Fátima Bernardes (como Tarcísio Meira faria com Glória Menezes, ou Alexandre Borges com Júlia Lemmertz) e, no final, deu uma palhinha dos seus dotes como cantor, entoando alguns versos do clássico "New York, New York", de Frank Sinatra.

Tudo isso me parece bastante inusitado. Mesmo sabendo que apresentadores sérios e sisudos no ar não precisam ser assim na intimidade, fiquei surpreso com essa "revelação" de que Bonner é um cara boa-praça, espontâneo e brincalhão. Ele sempre me passou a imagem de alguém meio arrogante (até mesmo pela posição de destaque que ocupa, e também quando comparou seu telespectador médio ao Homer Simpson) e que se leva a sério demais. Além disso, sua imagem se confunde com a imagem da própria emissora, com todos os juízos de valor e implicações ideológicas que possam estar contidos nisso, o que torna ainda mais complicado "isolar" o William do William Bonner. Cada um tem suas próprias convicções mas, convenhamos, não há como se ficar neutro diante do que a Rede Globo representa para o país.

Mas a reflexão que eu lanço aqui é de outra natureza. O que realmente me intrigou foi ver um apresentador de telejornal tendo com seus fãs o tipo de relação que se esperaria de um Cauã Reymond ou uma Ivete Sangalo. Em relação a artistas, é muito mais natural que exista esse tipo de troca - com admiração, assédio e até cumplicidade. Não estou dizendo que isso é "errado", ou que Bonner deveria se manter dentro da mesma redoma de sobriedade e distância que seus colegas de profissão. Mas o "novo status pop" do apresentador do JN não deixa de ser um bom exemplo da grande avidez voyeurística que os brasileiros nutrem pelas pessoas que aparecem na televisão, de quem desejam se aproximar a todo custo. Em que outro país o âncora do telejornal sofreria tamanha tietagem?

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Furor uterino


Que furor uterino esse em torno de Do Começo ao Fim, né? Vários amigos meus não veem a hora de o filme entrar logo em cartaz e, a julgar por tamanha expectativa, provavelmente temos pela frente um sucesso de bilheteria, pelo menos dentro da nossa bolha gay. Mesmo fora do mundinho, este é um filme que dificilmente vai passar em branco: tem dois protagonistas lindos, atores globais no elenco e, mais importante, um tema central bem delicado (mas que parece ter sido tratado com sobriedade). Promete uma acalorada repercussão em diversos níveis e searas.

Não vou me deter em maiores especulações depois de ter visto apenas o trailer, mas confesso que eu também estou curiosíssimo. O filme só vai estrear no circuito em 27/11, mas algumas pessoas poderão vê-lo antes disso. O Mix Brasil fará uma exibição fechada para convidados em 12/11, na abertura do festival de cinema em SP, e seguidores do filme no Twitter e Facebook também serão agraciados com sessões exclusivas. Enquanto isso, que tal participar da (difícil) escolha do cartaz oficial? Saiba mais detalhes entrando aqui.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Faroeste sem caboclos

Gostei da maioria dos filmes de Quentin Tarantino que vi, mas não lembro de ter saído do cinema tão satisfeito quanto ontem. Bastardos Inglórios é excelente. O filme reescreve a história da Segunda Guerra Mundial de uma forma muito peculiar: com uma inusitada revanche dos judeus. Brad Pitt lidera um grupo de soldados norte-americanos (os Bastardos Inglórios do título) que decide contra-atacar o III Reich. Eles formam uma espécie de "tropa de elite judia" que sai pela França exterminando nazistas, sempre com requintes de crueldade. É a deixa perfeita para o diretor dar o show de violência estilizada que é sua marca pessoal.

Não que o filme seja pesado. Divididas em capítulos, as produções de Tarantino têm algo de games ou histórias em quadrinhos: acompanhamos a saga dos heróis, torcemos por eles, mas sabemos que coisas horríveis virão pela frente, e gostamos disso. Existe um clima de tensão constante, já que reviravoltas sanguinolentas podem acontecer a qualquer momento (a seqüência do jogo de cartas na taverna é um bom exemplo). Além disso, boa parte do público acaba tendo uma certa empatia com o desejo de vingança dos judeus sanguinários, e vibra ao ver os nazistas se dando mal, com o crânio estraçalhado por um taco de beisebol e o couro cabeludo arrancado. O fã de Tarantino ama muito tudo isso, e sabe que dele não poderia esperar outra coisa. No fundo, a violência do cineasta não agride porque é de mentirinha, exala fantasia, é puro cinema. E vem recheada de bom humor. Bastardos Inglórios é um faroeste do século 21.

As cenas são longas, colocando à prova todo o talento do elenco. O material de divulgação do filme dá a entender que Brad Pitt é a estrela, mas não é. O galã e chamariz de bilheteria está correto como o caricato líder dos Bastardos (com direito a um sotaque sulista que fica entre o engraçado e o irritante), mas quem dá um show é o austríaco Christoph Waltz. Ele arrasa como o coronel nazista Hanz Landa - um vilão astuto, cínico e muito erudito (fluente em quatro idiomas!), que extrai um profundo prazer da própria perversidade. Com sutileza e muita personalidade, Waltz já garfou o prêmio de Melhor Ator no Festival de Cannes e, se bobear, acaba levando um Oscar.

Como se não bastasse, o filme tem pelo menos dois colírios. Mélanie Laurent é uma francesa linda de doer, tipo bonequinha - é como se a Carla Camurati rejuvenescesse quinze anos e pegasse emprestado o cabelo da Uma Thurman. Já o troféu Delícia Cremosa vai para Till Schweiger, que interpreta um dos Bastardos caçadores de nazistas. Pense em um Val Kilmer germânico, loiro e viril, com olhos azuis muito ameaçadores, quase um psicopata. Já me imaginei em um calabouço qualquer de Berlim, levando uma boa dura dele e achando tudo lindo. Pena que ele morre na metade da história.

Com fotografia, som, figurino e direção de arte impecáveis, Bastardos Inglórios consegue a proeza de se sobressair em meio a tantos outros filmes notáveis da carreira de Quentin Tarantino. Um programão que agrada desde o cinéfilo mais atento até o freqüentador dos Cinemarks da vida, que está apenas em busca de um pouco de entretenimento. Até mesmo porque ele é cheio de referências cinematográficas subliminares, mas o espectador não precisa entender nenhuma delas para se divertir.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Entre tapas e beliscos

Quando fui conhecer o Venga!, primeiro bar de tapas do Rio de Janeiro, aberto recentemente, a pergunta que fiz foi: "Como é que ninguém aqui pensou nisso antes?" Afinal, esse delicioso hábito espanhol - encher uma mesa com pequenas porções de petiscos variados, e passar uma tarde preguiçosa de verão beliscando e jogando conversa fora - tem tudo a ver com a terra dos Jobis e Bracarenses, que traz a cultura de botequim em seu DNA.

Mas estamos na Dias Ferreira, corredor gastronômico do Leblon onde paparazzi se engalfinham para fotografar celebridades globais, e um prato de salada chega a custar o equivalente a US$45 por quilo (no Celeiro, provavelmente o quilo mais caro do país). Assim, não bastaria que o Venga! fosse mais um pé-sujo despojado e com bons acepipes, como tantos outros da cidade. A casa soube criar um ambiente vistoso e aconchegante (apesar de apertado, algo inevitável numa região onde o espaço é tão caro), com umas poucas mesas altas na parte da frente e mais algumas cadeiras ao longo de um balcão.

Vamos às tapas, então. As porções são pequenas, justamente para que se possam provar vários tipos de iguaria. As croquetas são vendidas por unidade - a camarão é boa, mas é a de jamón serrano e queijo emmenthal que rouba a cena. Aliás, para quem é adorador dos presuntos espanhóis, o menu inclui o célebre Pata Negra, tido como o melhor do mundo (a um preço correspondente). Eu e meu amigo pedimos também uma porção de calamari (finos aros de lula empanados), um par de bombas (bolinhos de batata recheados de filé picante), uma porção de patatas bravas (levemente condimentadas, com um dip de maionese) e um par de pintxos (primos espanhóis das bruschettas) de presunto cru com queijo manchego (de leite de ovelha).

O que gostamos de verdade foi dos pintxos e das croquetas de jamón. Achamos as patatas bravas meio sem graça, e as tais bombas dá para encontrar em qualquer padaria que tenha uma boa estufa de salgadinhos. Mas vimos outras tapas que pareciam interessantes, como pintxos de tartar de salmão e uma porção de pulpos (pedacinhos de polvo temperados) que a mesa ao lado comia com gosto. Só não provamos porque a conta já estava ficando salgada.

Aliás, o lado inconveniente da história está justamente na dinâmica das pequenas quantidades. Como os preços individuais não chegam a assustar, uma porção puxa a outra, e perde-se facilmente a noção da conta. Nossa brincadeira espanhola acabou saindo por uns R$90, sem bebidas alcóolicas - e ficou uma certa sensação de que gastamos o dinheiro de um jantar apenas para comer um punhado de salgadinhos.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Mochilando no Rio

O Rio de Janeiro sempre foi o primeiro cartão de visitas do Brasil para o mundo. Essa visibilidade internacional é muito bem-vinda, mas tem um efeito colateral: os preços da hospedagem, feitos para gringos, são salgados para bolsos brasileiros. A impressão que dá é que os hotéis da Zona Sul formaram um cartel para segurar as diárias lá em cima, e qualquer intruso que tente furar o cerco é banido. O grupo francês Accor, dono das competitivas bandeiras Ibis e Formule 1, teve que instalar seus hotéis bem longe dali: perto do Santos Dumont e na Praça Tiradentes, no Centro. Lugares bons para quem vem trabalhar, mas não para passear.

Para quem tem amigos na cidade, muitas vezes um sofá-cama ou colchonete básico pode resolver o problema. Mas ficar na casa dos outros exige tato e sensibilidade. Por um lado, é preciso não ocupar espaço demais e respeitar a liberdade dos donos da casa; por outro, não dá para ser aquele hóspede que fica tão solto e à vontade que mal dá as caras e só aparece para dormir. Além disso, a disponibilidade dos anfitriões pode não coincidir com a data em que você decidiu viajar; dizer/ouvir um 'não' faz parte e não pode ser constrangedor para nenhuma das partes.

A dois dias da minha última escapada carioca (que terminou ontem), a amiga que iria me receber avisou que tinha resolvido viajar, e meus outros amigos já tinham hóspedes. Como eu já tinha comprado as passagens, o jeito era procurar um hotel. Mas quatro fatores tornavam a ideia ainda mais cara. Eu estava indo sozinho; num feriado; reservando em cima da hora; e a lufada de autoestima do Rio 2016 parecia ter gerado uma espécie de ágio pré-olímpico nos preços. Acabei resolvendo ficar num albergue.

Quem anda distraidamente pelo Rio não imagina que a cidade tenha tantos hostels. Só entre Copacabana e Ipanema, são quase quarenta (tem uma ótima lista aqui). A maioria funciona em sobrados adaptados, muitos deles dentro de vilas, o que os torna ainda mais discretos (só na Barão da Torre, por exemplo, uma única vila tem nada menos que seis albergues). Existe também a opção de ficar em outros bairros, como Botafogo e Santa Teresa. Como eu já estava economizando no conforto, investi na localização e escolhi Ipanema. Todos os outros bairros têm seus prós e contras, mas Ipanema ainda é o mais gostoso e conveniente para o turista, que pode fazer praticamente tudo a pé.

A opção mais barata para o viajante é pegar uma cama em um dormitório coletivo. Conforme o lugar, dormem de 4 a 10 pessoas no mesmo quarto. Nesse esquema, gasta-se cerca de R$40 por dia (com café da manhã e roupa de cama incluídos; as toalhas costumam ser cobradas à parte). Para quem viaja acompanhado, compensa pegar um quarto duplo, com diárias entre R$120 e R$150: você tem a privacidade de um hotel, pela metade do preço. O que não impede que você também socialize com os outros hóspedes do albergue (aliás, um dos baratos da experiência é justamente a chance de conhecer gente nova, de vários lugares do mundo e de meios diferentes do seu).

Para escolher entre tantos hostels, o jeito é visitar as páginas na internet e fazer uma peneira. Fiquei no Rio Hostel Ipanema, um sobrado de vila na rua Caning. A casa não é muito grande, mas soube aproveitar o espaço, com soluções criativas. A laje foi transformada num agradável terraço, com redes, almofadas e um lounge praiano improvisado; ali, é servido um honesto café da manhã, com pães e frios (havia uma sanduicheira à disposição), frutas, sucos e bolo. O banho era ótimo (aliás, chuveiro a gás é uma das coisas de que mais gosto no Rio!). Os hóspedes tinham entre 20 e trinta e poucos anos e eram umas graças: simpáticos e falantes, mas ao mesmo tempo sabiam respeitar o sossego alheio.

Minha escolha se revelou ainda mais acertada quando, por curiosidade, fui visitar um outro albergue, o Terrasse Hostel. A localização era privilegiada (Farme com Prudente, em frente ao Devassa e ao lado do Cafeína e Colher de Pau), mas as instalações... quanta diferença! Os aposentos eram escuros e apertados. Um deles tinha cheiro de mofo; outro, todo forrado de madeira, com teto baixo e oito camas, era a perfeita tradução de um navio negreiro; e um terceiro não tinha sequer janelas. A cara dos hóspedes também não apetecia. Enfim, um muquifo.

Moral da história: é preciso ter olho crítico para separar o joio do trigo e fugir das roubadas. Se o site der muito mais destaque para as belezas da cidade do que para o próprio albergue, desconfie: é mau sinal. Com um pouco de paciência, porém, dá para garimpar tesouros como o jeitosinho Bamboo, que fica numa travessa tranqüila da Rua Santa Clara (Copa), ao pé de uma montanha, e o Ipanema Beach House, que tem uma área externa com piscina, algo raro no bairro. Duas alternativas para se hospedar de forma independente sem sucumbir aos preços dos grandes hotéis.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Conclusões

Diante da surpreendente repercussão do post anterior, resolvi me manifestar novamente, até para dar um fecho a toda essa discussão. Assim, passo a fazer minhas últimas considerações e, com elas, dou o assunto por encerrado. Este post anterior e o anterior não receberão mais comentários: os 101 deixados já são mais do que suficientes. Obrigado a todos pelo interesse e até a próxima.

1) Fiquei surpreso com a comoção de algumas pessoas próximas ao Duda, que se mostraram chocadas com as minhas palavras – porque ele é novato, bem-intencionado e tal. De repente, eu virei o algoz que pegou pesado com o rapaz, e ainda fui responsabilizado por comentários que outras pessoas fizeram (!).Ora, tudo o que fiz foi relatar o que vi e vivi na porta da festa, da forma mais honesta possível, sem um pingo de má fé, nem ataques gratuitos. E outra: que melindre é esse, o menino não pode ser criticado?! Quem se relaciona com o público (produtores, artistas e até blogueiros) vai receber críticas sempre. Se o Duda for esperto, não vai levar isso pro lado pessoal e ainda vai tirar do episódio algo de válido, para aprimorar o seu trabalho. Não torço contra ninguém, e faço votos para que o Café Com Vodka contorne as falhas e dê conta do sucesso repentino.

2) Eu sei muito bem que dar tratamento diferenciado a algumas pessoas – e a entrada facilitada se insere nesse tipo de cortesia – é uma prática comum no mundo inteiro, e não tenho nenhum problema com isso. (O Vítor, por exemplo, ilustrou seu comentário com exemplos bastante coerentes). Ninguém da fila vai morrer porque meia dúzia de pessoas entrou na frente. O grande problema do Café Com Vodka foi que eles deixavam entrar levas de cinco, oito, doze pessoas, sucessivamente, enquanto a fila ficava completamente abandonada, à deriva, sem jamais dar um passo à frente, em uma situação que se prolongou indefinidamente. Isso não é atitude de lugar sério e profissional, sorry.

3) Aos adeptos do discurso de que “no Exterior também é assim”, vale lembrar que no Berghain-Panorama – um dos clubes mais concorridos do mundo, que fica em Berlim – todos sem exceção esperam pacientemente pela sua vez na fila, ainda que isso possa levar bem mais de uma hora. E os que se acham espertos e tentam furar a fila são barrados na porta e exemplarmente expulsos, na frente de todo mundo.

4) O que muitos leitores não puderam ou não quiseram ver é que o episódio do Sonique era um gancho para uma reflexão muito maior – que pelo visto foi bastante incômoda para alguns, dado o número de respostas agressivas e desaforadas que recebi. No mínimo, essas pessoas se olharam no espelho, não gostaram do que viram e prefeririam que ninguém tivesse parado para pensar nessas questões, não é mesmo?

5) Se minha intenção era saber dos leitores se furar fila se tornou uma prática aceitável, a verdade é que o post cumpriu seu papel, já que os comentários acabaram respondendo às minhas indagações. E uma grande parte endossou essa prática, considerando-a adequada em qualquer situação. Para essas pessoas, eu tinha mais é que passar na frente dos outros mesmo. Como não fiz isso, eu me tornei culpado pelo que passei ali (!) e, mais ainda, fiz o papel de “otário”. O que nos leva a uma conclusão interessante: educação, civilidade e respeito ao próximo são tidos como valores de otário. Anotaram? (O negócio é cada um por si: se o balcão do bar estiver cheio, é só dar um chute na canela de alguma bicha – a mais franzina, evidentemente – que o problema logo se resolve).

6) Aos eventuais desavisados, esclareço que eu deixei de furar a fila por opção – não por “falta de opção”. Não se trata de mágoa-de-cabocla ou chororô de quem “adoraria ser VIP, mas não é e não se conforma com isso”. Eu tinha meios para passar a perna nos demais e poderia ter lançado mão deles, mas não me acho melhor (nem pior!) do que as outras pessoas que estavam esperando por sua vez. E para falar com o Duda ali mesmo, na hora (o que muitos disseram que teria sido o correto), eu seria obrigado a furar a fila primeiro, já que ele obviamente não estava na calçada do clube.

7) Falando em melhor ou pior, é curioso como existem pessoas que se realmente consideram melhores do que as outras. Alguns anônimos (sempre eles) tiveram a capacidade de escrever coisas tão surreais que não dá nem para levar a sério (eu me absterei de transcrevê-las, para não dar um ibope que eles não merecem). Essas bichas iludidas juram mesmo que são diferenciadas, de uma casta superior – e não é todo mundo que pode ou merece freqüentar os mesmos espaços que elas. Só queria saber quem foi que colocou isso nessas cabecinhas ocas – que provavelmente não têm berço algum, a julgar pela péssima educação que tiveram. Aliás, um recado para o dono do Palio 95: você veio anunciar no lugar errado. É que todas aqui são riquíssimas, poderosíssimas, bem-relacionadas e lindíssimas, ou seja, “muita areia” para o seu carrinho. Mas cuidado: se bobear, alguma delas vai comprar seu Palio na surdina, e ainda pagar com um cheque sem fundos...

8) No fim das contas, eu agi conforme minha consciência e não me arrependo. Foi até bom saber que ninguém leva isso a sério: quando eu me deparar com uma grande fila, e por alguma razão importante eu não puder esperar, não me sentirei o último dos seres se alguém facilitar minha entrada. Mas ainda prefiro não fazer isso e, no caso de noites problemáticas (como o próprio Café Com Vodka), chegar cedíssimo e encontrar a festa vazia ainda é um mal menor. Acima de tudo, o que sei é que não pretendo viver esse episódio nunca mais. Acho que 20 minutos de fila é um limite razoável. Mais do que isso, você acaba perdendo o bom humor e estragando uma noite que poderia ser melhor passada em outro lugar.