terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Encruzilhada

Comecei este blog porque queria um espaço em que eu pudesse escrever por prazer, o que eu não tinha no meu dia-a-dia de advogado. Eu estava traçando meu plano de fuga rumo ao jornalismo, começando a faculdade, e o blog me ajudaria a treinar meu texto e também fazer novos contatos. Como a ideia era antes de tudo diversão, eu decidi que não me forçaria a postar quando não estivesse inspirado, porque não faria sentido ter mais uma atividade burocrática na minha vida. Eu queria que meus textos fossem gostosos - de escrever e de ler. Quando a coisa não estava fluindo, eu deixava o blog de lado e ia me ocupar com outra atividade, até que viesse um novo estalo para escrever. Sem muito compromisso, simples e descomplicado.

Este 2010 foi um ano extenuante para mim. O escritório, a faculdade e meu trabalho de conclusão de curso me sugaram completamente. Essa rotina acabou estreitando meus horizontes: vi menos filmes, provei menos comidas, conheci menos lugares novos, interagi menos fora do meu círculo habitual. Não sobrava muito tempo para nada disso. Agora que as coisas deram uma relativa acalmada, com o fim da faculdade, estou me dando conta do tamanho do meu cansaço. Eu me vejo em meio a uma crise criativa sem precedentes: não consigo escrever nada, travei totalmente. Estou levando o triplo do meu tempo normal para redigir este texto. Nunca me senti tão esgotado antes.

Ao mesmo tempo em que vivo esse cansaço acumulado, sinto que chegou a hora de repensar o blog. Estou escrevendo para quê? Para quem? Nesta época do ano, eu provavelmente teceria alguns comentários sobre a temporada de festas no Rio, e depois voltaria com algumas dicas de comidinhas de verão. Sempre achei uma delícia escrever sobre essas coisas. Mas será que ainda quero manter a mesma fórmula, e falar sobre os mesmos temas? Em 2008 e 2009, fechei o ano no blog com retrospectivas muito pessoais, em que escancarei para o mundo as coisas mais importantes que aconteceram na minha vida, as músicas que me marcaram, as comidinhas, os filmes, as jogações, as minhas metas para o ano seguinte. Será que eu quero continuar expondo a minha vida particular dessa maneira, gratuitamente? Resposta: não sei!

Para embolar ainda mais o meio de campo, neste momento estou correndo atrás de oportunidades como jornalista. E enviando o link do blog para possíveis contatos de trabalho - afinal esta é uma amostra relevante do meu texto, assim como os freelas que eu já fiz. Com isso, passei a ver o blog com olhos ainda mais críticos. Começo a questionar se os textos que eu escrevo não se comunicam com um público restrito demais. A quem interessa este blog? Será que eu não voltei a falar apenas para uma panelinha? Será que eu não deveria ampliar o alcance dos meus textos, diversificando o repertório? Continuo sendo um cara bem resolvido e assumido, não pretendo me esconder em armário algum, mas será que eu não deveria deixar esse meu "olhar gay" de lado, até para que os outros não enxerguem em mim um jornalista limitado? Ou esse olhar é uma marca pessoal e, pelo menos no blog, eu não deveria descaracterizá-lo?

Sei que meu tesão de escrever não terminou. Ao contrário: a tendência é que eu passe a escrever com mais gosto, na medida em que for conseguindo conjugar trabalho e vocação. Acho que preciso apenas descansar mais um pouco, me permitir umas férias, respirar outros ares. E então voltarei renovado. Por isso, o blog vai continuar em pausa por mais um tempinho. Ainda não sei dizer se vou fazer mudanças; talvez elas venham aos poucos, sutis, nada brusco. Mas sei que minha vida será bem diferente em 2011, e isso fatalmente vai se refletir nos meus textos. Vamos ver quais respostas eu irei encontrar para todas essas perguntas que faço agora. Por enquanto, agradeço a vocês, amigos e leitores, pelo carinho, pelo prestígio e pela convivência. Nos vemos por aí!

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Depois da fila, a felicidade

Entre os diversos acontecimentos que estão fazendo deste 2010 um ano importantíssimo para mim, está o tão esperado fim do meu processo de transição do Direito para o Jornalismo. Durante todo este ano, em paralelo com o trabalho no escritório e as aulas na faculdade, estive envolvido com a elaboração de meu trabalho de conclusão de curso (TCC), um documentário sobre mulheres de presidiários, conforme adiantei aqui. Eu e meus colegas Marina, Paula e Filipe saímos de nossa zona de conforto e embarcamos numa aventura de descoberta de um mundo completamente diferente do nosso, em que pudemos conhecer histórias de vida surpreendentes e nos deparamos com a missão de contá-las em pouco mais de meia hora de imagens.

Vocês não imaginam o que essas mulheres têm que passar para poder ficar algumas horinhas semanais ao lado dos maridos. Como a revista deve ser rigorosa, o trâmite de entrada é bastante demorado; para conseguir desfrutar todo o horário da visita, elas são obrigadas a chegar à detenção na tarde da véspera e acampar na calçada, em condições precárias - as necessidades fisiológicas na madrugada são feitas no canteiro central da Marginal Tietê, em meio a ratos, baratas e o risco de atropelamento. Da cadeia para fora, mais dificuldades: solidão, renúncia, a vida afetiva em compasso de espera indefinida, a manutenção da casa, a educação dos filhos... Uma verdadeira provação, que elas abraçam por razões variadas: amor, carência, compaixão, dependência, resignação. Nossa proposta era enxergar o lado delas e tentar descobrir como é estar nessa pele.

Para isso, tivemos que lidar com nossos próprios preconceitos. Quem está de fora tende a reduzir a questão a uma simples escolha pessoal: estão ao lado de "bandidos" porque assim quiseram, portanto não merecem nenhuma consideração. Mas um exame mais cuidadoso vai revelando que entre o preto e o branco há vários tons de cinza. Na medida em que os maridos (em tese) se envolveram em um delito, todas são obrigadas a se posicionar. Algumas realmente desenvolvem uma certa condescendência com o crime (encaram como opção de vida e pronto), mas outras não chegam a apoiar a conduta do amado - e, mesmo assim, são obrigadas a suportar os reflexos disso em suas vidas, inclusive socialmente.

De fato, o estigma que recai sobre essas mulheres é enorme. Muitas escondem sua condição em seus círculos sociais e até dentro das próprias famílias, temendo o preconceito, a rejeição e mesmo a perda do emprego. Conseguir que algumas topassem participar do filme, expondo seus rostos para a câmera, exigiu de nossa equipe um trabalho de convencimento e conquista de confiança que durou meses, incontáveis noites de sexta na porta da cadeia, um trabalho de formiguinha mesmo. Não sem antes levarmos incontáveis "nãos" e outros tantos caôs - elas marcavam, nós nos programávamos, alugávamos equipamento, íamos até os cafundós em trens de subúrbio... e levávamos um cano. Quantos domingos desperdiçados...

Cientes de que estávamos lidando com tamanho tabu, ao escrevermos o roteiro, nós optamos por não entregar de cara essa condição de nossas personagens. O próprio título do documentário é neutro: nossas Mulheres da Fila poderiam estar madrugando na porta de um estádio, esperando para comprar ingressos, por exemplo. Elas são apresentadas sem esse dado para que os espectadores as conheçam e possam criar uma empatia antes de julgá-las. Lá pelo sexto minuto do filme, passamos a encaixar passagens que vão revelando quem elas são e o que as une ali. E vamos construindo um panorama com essas histórias, tentando manter um olhar humano, sensível, lembrando sempre que nosso objeto são as vidas delas, e não os atos dos maridos.

Foi um ano de muitos desafios: o equipamento que tivemos que aprender a manusear na marra, nossa timidez na abordagem inicial, a resistência delas, os canos, as discussões e negociações internas em torno do roteiro, os prazos, a nossa vida paralela que não parou por causa disso e teve que ser conciliada... Não foi fácil, mas geramos nosso filhote e o botamos no mundo. Mulheres da Fila foi avaliado pela banca examinadora hoje à noite. E levou um sonoro dez, com direito a muitos elogios que nos deixaram contentes e orgulhosos. Chegar ao fim de um caminho sofrido e desfrutar desse reconhecimento foi uma grande alegria, que eu peço licença para registrar e dividir com vocês, meus amigos que me acompanham. Não vejo essa vitória como algo de que deva me gabar, mas como um estímulo de que estou no caminho certo e tenho mais é que me jogar mesmo! Mais um passo dado pelo Thiago jornalista!

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Andando no vermelho

Ontem o Facebook, ágora dos nossos tempos, amanheceu enfeitado de vermelho. Muitos usuários colocaram nas fotos de seus perfis o lacinho de fita que simboliza o Dia Mundial da Luta contra a Aids, que se celebra em primeiro de dezembro. Não discuto a importância de uma data simbólica para trazer à tona um assunto que tanto se tenta varrer para baixo do tapete. Mas, se a ocasião é para balanços, tenho lá minhas dúvidas se estamos mesmo caminhando para frente, como gostaríamos de acreditar.

A primeira constatação que sou forçado a fazer é que, depois de anos andando na linha, a lição de casa da prevenção vem sendo cada vez mais negligenciada. O preservativo, que na década passada sempre aparecia com naturalidade, de uns tempos para cá passou a ser um acessório dispensável, mediante critérios pra lá de duvidosos. Hoje tenho muito mais trabalho para impor a camisinha aos meus parceiros do que quando comecei minha vida sexual. Muita gente foi baixando a guarda e relaxando. Só nos últimos cinco anos, quatro amigos meus se contaminaram. Todos na faixa dos 30 e poucos, já com uma boa bagagem de experiências, gente esclarecida e bem informada.

Antes de mais nada, quero frisar que acredito que o que um adulto faz com o próprio corpo é uma decisão individual, e o livre-arbítrio deve ser respeitado - inclusive para quem, após avaliar riscos, custos e benefícios, opta por aderir voluntariamente ao sexo sem proteção. Mas nenhum desses casos se inseria em tal contexto: eles não eram barebackers conscientes, que buscavam aproveitar a vida de forma livre e intensa e então assumiram seu desejo, mas pessoas que cometeram descuidos bobos ou incorreram em julgamentos equivocados. Mais ou menos como pensar que Fusca não atropela, só porque é redondinho e antigo.

Neste momento homofóbico que vivemos, nunca é demais lembrar que nada disso que descrevi no parágrafo anterior é privilégio dos gays. Um dos grupos mais expostos à soroconversão nos dias de hoje é justamente o das mulheres heterossexuais, "de família". Depois de anos casadas e fiéis ao mesmo homem, elas não veem necessidade de usar preservativo, e acabam contaminadas pelo próprio parceiro, que traz a doença para dentro de casa após uma pulada de cerca sem proteção. O que nos faz lembrar que a decisão de suprimir a camisinha em um relacionamento deve ser muito bem pensada. OK, você e seu parceiro se amam. Mas, e se para ele "amor e sexo são coisas bem diferentes"? Quantos não seguem essa cartilha?

Não ignoro que a evolução da medicina ampliou os horizontes dos pacientes com HIV, que hoje têm uma qualidade de vida que seria inimaginável 15 anos atrás. Depois de um começo assustador, meus amigos estão com uma aparência ótima e vivem uma vida feliz, com boas perspectivas e poucas limitações - alguns conseguiram até zerar a carga viral. Mas nem todo mundo tem a mesma sorte. Se o estigma contra os soropositivos é uma crueldade que deve ser combatida, encarar o vírus como uma mera doença crônica é um grande erro, e pode custar caro. Vale dizer que as chances de ter um tratamento eficaz e não desenvolver a doença são muito maiores quando o HIV é detectado cedo - daí a importância de refazer os exames periodicamente. Não precisa ser gay nem promíscuo, basta ter vida sexual ativa. Vamos nos cuidar, povo!

Neste domingo (5/12), os fofíssimos SP Gay Bikers estão promovendo, junto com a Coordenadoria de Assuntos de Diversidade Sexual da Prefeitura de São Paulo, o 1º PASSEIO DO DIA MUNDIAL DE COMBATE À AIDS, no Centro da cidade, em pleno Minhocão. Como o evento é democrático, haverá um trajeto maior para os ciclistas e outro, menor, que também poderá ser percorrido por cadeirantes e pedestres. A saída está programada para as 15h, e quem não tiver bike pode alugar uma. É mais uma maneira saudável e divertida de expressar nossa cidadania.

sábado, 20 de novembro de 2010

Na contramão da história

Juro que tentei fugir do baixo-astral como um avestruz, enterrando a cabeça no meu mundinho particular que anda tão animado. Mas não consegui deixar de me deprimir com essa onda de ofensivas e desgraças contra a população LGBT, todas ocorridas nos últimos sete dias. A que menos me atingiu foi a publicação do manifesto contra a Lei da Homofobia no portal do Mackenzie. Quem conhece a trajetória daquela universidade não poderia mesmo se surpreender; se a instituição desfruta de certo prestígio entre as tão mal cotadas escolas privadas do país, nem por isso devemos dar à sua declaração um poder e uma autoridade que ela simplesmente não tem.

Fiquei mais passado com os brutais ataques homofóbicos no Rio (onde três soldados do Exército agrediram e balearam um civil indefeso no Arpoador, e felizmente serão responsabilizados) e em SP (onde, em plena Avenida Paulista, cinco delinquentes de classe média atacaram três rapazes com requintes de barbárie, incluindo golpes de artes marciais e até lâmpadas fluorescentes). Segundo a Folha de hoje, o segurança que defendeu as vítimas relatou à polícia que uma delas foi encurralada, levou socos e chutes na cara e continuou apanhando mesmo após desfalecer. Ou seja, teria sido assassinada se não fosse a intervenção do vigia - que, ao perguntar aos marginais o motivo de tudo aquilo, ouviu: "Porque ele é viado".

Se não há justificativa capaz de endossar um ódio tão sem sentido (nem mesmo a cegueira da religião, como pretendem as nossas tão mal-intencionadas igrejas), episódios como esses parecem estar inseridos dentro de algo maior. Depois de anos de avanço da tolerância e do respeito à diversidade, sobretudo entre as camadas mais esclarecidas, parece que a sociedade resolveu andar na contramão. Estamos vivendo o crescimento de uma terrível onda conservadora, com um recrudescimento do moralismo, da segregação e do preconceito. Como não lembrar do caso da estudante Geisy, que quase foi linchada e currada pelos colegas, e depois expulsa da universidade onde estudava, apenas porque usava um vestido curto? Semana passada, chegamos ao cúmulo de prender um garoto de 18 anos, por ter dado um inocente beijo (!) em outro, de 13 anos - o que certamente não teria acontecido se o beijo tivesse sido recebido por uma menina. No Twitter, mensagens como "mate um viado queimado" se alastram, agrupadas na hashtag #HomofobiaSIM. E o assassinato bárbaro do garoto Alexandre Ivo, de 14 anos, em São Gonçalo (RJ), que foi esquecido em menos de 15 minutos? Tempos bicudos!

Eu gostaria de entender o que está por trás desse rebote reacionário. Talvez a sociedade esteja tão desorientada (o que dizer dos pais dos agressores da Paulista, que passaram a mão na cabeça de seus filhos?) e tão em crise com seus valores, que esse "encaretamento" acabe sendo visto como uma tábua de salvação para preencher os vazios e as inseguranças. Não sei! Alguém arrisca um palpite nos comentários? O que está acontecendo, afinal?

Se há um lado bom em todos esses absurdos, é que existe uma parcela mais lúcida e esclarecida da sociedade que está se indignando e esboçando uma reação. Bem ou mal, o tema homofobia está sendo discutido na mídia e na sociedade com bem mais freqüência do que há, digamos, cinco anos atrás. O simples fato de a motivação homofóbica dos crimes estar sendo explicitada pela imprensa já revela que existe hoje uma preocupação que não se via. É preciso ficar alerta. Afinal, a ignorância e o ódio só se combatem com união, esclarecimento e informação. Até porque nossos algozes também estão articulados: nas ruas, nos templos e agora, mais do que nunca, em Brasília.

Se você mora em São Paulo e quer ajudar a fazer a diferença, apareça amanhã (domingo) no vão livre do MASP, a partir das 15h. O movimento LGBT paulista vai promover uma manifestação de repúdio e reivindicação de providências para o caso dos agressores da Paulista (que foram liberados no mesmo dia, porque a lei assim permite), com caminhada até o local do crime, próximo à estação Brigadeiro do Metrô. Eu também estarei por lá. Mostrar que não toleramos essa atrocidade é o mínimo que podemos fazer. [UPDATE: Considerando que foi divulgada com pouca intensidade e antecedência, a manifestação foi ótima: cerca de 300 pessoas apareceram na Paulista e deram seu recado, de forma muito positiva e tranquila. Inclusive dois dos três rapazes atacados na Paulista deram as caras por lá. Só faltou o segurança-herói aparecer na porta do prédio pra gente homenageá-lo! O único senão foi a apropriação partidária do ato pelo PT e PSTU, que encabeçaram a parada com suas faixas, como se a iniciativa tivesse sido deles. Mas esse tipo de desonestidade já é praxe].

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Pipoca cor-de-rosa


E cá estou, investindo meu feriado em mais um Festival Mix Brasil de Cinema da Diversidade Sexual. O Mix fez 18 anos, idade em que os homens são obrigados a se alistar no serviço militar, o que inspirou a simpática vinheta acima. Tenho grande carinho pelo festival, que acompanho desde que troquei a esfiha pelo kibe (e lá se vão doze anos!). O fervo já não é mais o mesmo de outros tempos (o povo que freqüenta hoje parece mais velho e cansado), mas o clima ainda é gostoso e dá para encontrar amigos e conhecer gente nova nas filas. A programação, como sempre, é um tiro no escuro: metade dos fimes você aplaude de pé, a outra metade você sofre para chegar ao final (nesta edição do Mix, já saí três vezes da sala antes do fim da exibição).

Dos longas que vi até agora, meus favoritos foram o adorável "Bear City" (história de um rapaz lindinho que procura seu papai urso, cheia de personagens carismáticos) e a comédia "Violeta é Tendência" (os gays norte-americanos sempre foram caricatos demais pro meu gosto, mas o filme é divertido). Dos curtas, adorei "O Bolo", sobre uma doméstica evangélica que acha um bolo de chocolate diferente na geladeira do patrão, e "Eu Não Quero Voltar Sozinho" [trailer abaixo], provavelmente o retrato mais fofo e delicado que eu já vi sobre a descoberta da sexualidade! O festival vai até quinta-feira (18/11), e a programação completa, vocês encontram aqui.

[UPDATE: Acabo de ver Contracorriente, que abriu o festival em sessão fechada e acabou tendo exibição extra. É um drama rasgaaado, história de um triângulo amoroso entre um pescador, sua esposa grávida e um artista forasteiro, com bela fotografia e atuações idem (incluindo uma sósia da "top DJ" Ana Paula como a esposa traída). Vai estrear em circuito em março e recomendo vivamente! Os cariocas poderão ver antes, na sessão especial que o Mix Brasil promoverá no Odeon, dia 26/11, às 21h, junto com os curtas premiados em SP].

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Sauípe 2010: muito Heaven e pouco Hell

Hell & Heaven 2010. Pela segunda vez, o resort Costa do Sauípe, no litoral norte da Bahia, hospeda um festival de música e festa para o público gay. Dois hotéis do complexo são fechados para o evento, divulgado ao longo de doze meses por meio de ações promocionais nas principais capitais e na mídia especializada, atraindo homens de vários estados brasileiros, dispostos a se jogar em festas alucinantes. "Qual é o seu pecado?", provocava o mote do H&H. Depois de anos de estrada em Carnavais, Réveillons e Paradas no eixo SP-Rio-Floripa, o que esperar e como se preparar para um trem desses? O melhor é respirar fundo, cortar os carboidratos, comprar um bom suprimento de camisinhas e já deixar o nome na fila de transplantes de fígado pelo SUS: a jogação tem tudo para ser intensa. Afinal, a fórmula é a mesma de sempre, só que dessa vez enfeitada com uns coqueiros baianos. Certo?

Pois não foi bem assim.

Para começar, o H&H não foi, nem de longe, tão pesado como eu imaginava. Pensei que seria um turbilhão nonstop das 12h de sexta às 12h de domingo, tipo "salve-se quem puder". Mas a programação do evento foi muito bem amarrada, intercalando períodos de festa e de descanso. Todo mundo pôde fazer todas as refeições (comendo apenas o necessário, já que o bufê era medíocre, com exceção do café da manhã) e também dormir, sem comprometer a farra. É lógico que dançar e tomar o sol forte do Nordeste cansam o corpo, mas cheguei em casa muito mais inteiro do que nas minhas voltas do Carnaval no Rio ou Florianópolis. E olha que, antes do Sauípe, eu já estava me jogando em Salvador havia uma semana.

Outra surpresa: as festas cumpriram seu papel, mas não foram os pontos altos do H&H. O que se fazia era simplesmente montar um palco e um telão na área da piscina de um dos hotéis (e, na festa seguinte, na piscina do outro, dando uma ideia de variedade), ligar o som e chamar os DJs. Sem qualquer refinamento (o tal selo argentino só deve ter emprestado o nome), sem aquele clima de grande produção que marca as tardes de Rosane Amaral no Rio e as noites de André Almada em SP. Nem mesmo a festa principal - a noite de sábado, trazendo o headliner Peter Rauhofer - fugiu disso. A produção poderia ter projetado luzes coloridas nos coqueiros, uma ideia simples que teria criado um efeito incrível, mas se limitou a repetir o telão e meia dúzia de luzes sobre as pessoas, que se equilibravam nos desníveis do terreno acidentado para dançar.

Um fator que contribuiu para que as festas não impressionassem tanto: o evento já mantinha um clima festivo o tempo todo. Na chegada ao resort, o público era recebido para o check in com house e tribal; depois, na piscina, mais música; chegando no salão para jantar, lá estava Offer Nissim nos falantes para dar uma animada. Por isso, quando começava uma "festa propriamente dita", não havia um incremento de emoção em relação aos períodos "sem festa": o que acontecia era uma mera mudança de cenário. Se eu senti uma diferença maior na noite de sábado, foi pelo aumento do público (os moradores de Salvador tiveram a opção de comprar o ingresso avulso para essa festa), pelo som do Peter (que deu o clima mais encorpado que a noite pedia), e também pelo fato de que aquele era, afinal, o clímax antes da despedida. (E foi mesmo especial viver o amanhecer daquele cenário, com o marzão crescendo diante dos nossos olhos ao som de um Peter inspirado).

Além disso, a pegação também ficou aquém do que se podia esperar ao se colocar um monte de homens gays, bonitos, isolados num cenário daqueles. Enquanto dava meu giro de reconhecimento pelo resort, eu imaginava o povo indo aprontar na praia de madrugada, se comendo nas moitas e matinhos que enfeitavam as áreas comuns, zanzando freneticamente pelos corredores de um quarto para o outro. Mas não vi nada disso; se chegou a acontecer, então eu estive nos lugares errados, ou na hora errada. Mesmo durante as festas, achei a beijação bem mais contida do que num bom Carnaval - sendo que estávamos no Estado brasileiro onde mais se beija nessas festas, e fiquei lúcido o suficiente para entender o que se passava ao meu redor. (Logo eu, que me fantasiara num quarto de hotel com mais três, fazendo um picante role play nordestino, sendo a rolinha de vários coroné, enfileirados para colocar a pomba no meu boga e me dar uma boa pisa... Só fiquei zen porque já tinha chegado de Salvador pra lá de saciado!)

Mas nem por isso eu deixei de gostar do Hell & Heaven. A experiência valeu a pena e eu certamente repetiria a dose! O espaço do resort é muito bacana, as áreas comuns são grandiosas e, se a praia não é particularmente bonita para os padrões baianos, é mais do que suficiente para encantar mineiros e brasilienses (esses grupos eram maioria; já baianos e pernambucanos, vi bem menos do que esperava). Meu quarto era bastante confortável, e o outro hotel oferecido era ainda melhor. Sei que não temos que buscar o gueto e sim a inserção social, e blá blá blá, mas foi sensacional ter toda a estrutura do Sauípe só para nós, gays. Isso sim eu considero o grande highlight do H&H. No café, nas piscinas, em toda parte, todo mundo tranquilo, integrado, falando a mesma língua, vivendo a mesma onda. Reconheço que no final eu já estava até meio enjoado de ver tanto viado junto, mas o evento teve a medida certa. Talvez eu colocasse um dia a mais para o povo poder curtir o resort (tivemos apenas o sábado inteiro, os outros dois dias foram de trânsito), mas não mais do que isso.

Acima de tudo, preciso reconhecer que o astral do H&H esteve lá em cima o tempo todo. As pessoas pareciam desarmadas, tranquilas. Talvez tenham cansado de seguir à risca a cartilha dos excessos e resolvido simplesmente relaxar e curtir o resort, sem maiores pretensões. O clima era tão leve, mas tão leve, que eu poderia ter gravado um vídeo compacto do evento e mandado para minha mãe. E o evento foi um sucesso: na reta final, todos os quartos acabaram vendidos, e já estão marcadas duas edições em 2011, em maio (Angra dos Reis) e novembro (Sauípe novamente). Se foi um pouco diferente do que eu imaginava, numa próxima já irei com o espírito mais preparado. No aeroporto de Salvador, na fila do check in para SP, eu continuava me surpreendendo com mais e mais homens lindos, que também voltavam no H&H e eu nem tinha visto. Todos com uma cara boa, realizados. Talvez a gente possa se reeducar para não ter que beijar todas as bocas e se atracar com todos os corpos para sentir que aproveitou, se divertiu e foi feliz.

[Foto: Genilson Coutinho/ACapa]

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Salvador: nada ficou no lugar

Sinto desapontá-los, isto dói mais em mim do que em vocês, mas Salvador não presta mais. Agora que o Bar da Ponta fechou as portas, não tenho mais nada para fazer naquele fim de mundo, então beijos e nos vemos no Rio de Janeiro. Claro que estou brincando: mesmo com a perda irreparável do meu xodó (que era tudo de bom, fiquei arrasado), o saldo da minha quinta visita à capital baiana foi bastante positivo. Mas é fato que encontrei uma cidade menos legal, já que várias de suas atrações mais bacanas simplesmente deixaram de existir. O saudoso Bar da Ponta, que Deus o tenha, foi engolido por um empreendimento imobiliário de alto padrão, junto com o bacanudo restaurante Trapiche Adelaide, do qual era anexo. Quem também deixa saudade são as megabarracas que transformavam as praias do Flamengo e Stella Maris em puro fervo. Por conta de uma quizila jurídica com a União, todas elas foram sumariamente demolidas em agosto. Isso mesmo: não existe mais Barraca do Lôro, nem Margueritta, nem Gaúcho, não existem mais drinques servidos em espreguiçadeiras rústicas-chiques, nem corpos malhados dançando house music em deques à beira-mar. O Litoral Norte de Salvador mó-rreu! Já o Porto da Barra felizmente continua o mesmo, com a água deliciosa para nadar, um pôr-do-sol mais aplaudido que o do Arpoador, e aquela mistura única de classes sociais, etnias, estilos e pegadas. E corpos babadeiríssimos ali e acolá. Aliás, sem querer ferir brios ou fomentar bairrismos, a Bahia tem os homens mais bonitos do Nordeste, né? Nos finais de semana, quando a superlotação deixa o Porto da Barra intransitável, o novo plano B da galere é o Buracão, uma prainha escondida no Rio Vermelho que só os moradores do bairro freqüentavam, e agora vem sendo adotado pelos descolados, num clima low profile. Para quem gosta de conforto, uma opção é ir até o Corredor da Vitória e tomar sol no Mahi-Mahi, bar do hotel Sol Victoria Marina que tem um píer que avança sobre a Baía. Você paga uma consumação e passa o dia comendo, bebendo e tomando banho de mar. Parece que o esquema é bem gay friendly. A Barra não tem a fartura de comidinhas pós-praia de Ipanema. Acabei adotando o Ramma, um simpático restaurante natural escondido na Rua Lord Cochrane (como será que os baianos pronunciam isso?). Depois de horas de sol nordestino, o suco de tangerina deles descia que era uma maravilha. Adoro que na Bahia essa fruta dá o ano todo, não tem época certa como aqui em São Paulo. A doceria A Cubana inaugurou uma filial na Pituba, num shoppingzinho na Praça Nossa Senhora da Luz. Isso significa que agora você pode comer o melhor pudim de leite condensado do mundo, sem ser molestado a todo instante pelos pedintes do Elevador Lacerda. Outro endereço que continua firme e forte no topo da minha lista de laricas pecaminosas é a Doces Sonhos, na Vitória. Os bolos de lá são pura felicidade cortada em pedaços. Morri três vezes a cada garfada. A vista da Baía de Todos os Santos transforma qualquer ida ao complexo gastronômico Bahia Marina em um programão. Matei a saudade do japonês Soho, que continua bem gostoso e badalado. Voltei também ao contemporâneo Lafayette - mas os pratos criados por Carla Pernambuco já não têm o mesmo brilho de antes. Acabei não conseguindo ir a nenhum restaurante especializado em frutos do mar. Da próxima, quero provar os camarões ao prosecco com risoto de amêndoas do Mistura, em Itapuã, e as moquecas mutcholocas com frutas e ingredientes naturais do Paraíso Tropical, que funciona dentro de uma chácara distante no Cabula e virou cult. Para um jantar mais informal e barato, aprovei o Mariposa, no Jardim Apipema, atrás da Ondina. Tem um longo menu de sucos, crepes e temakis, numa casa colorida bem praiana, supersimpática. O Pelourinho, que já não era minha área preferida em Salvador, está com um arzinho largado, abandonado. Parece que todo o dinheiro da região foi para o Carmo, onde a inauguração do hotel-boutique Convento do Carmo acabou dando um sopro de vida em todo o entorno. Já o MAM, que estava totalmente ao deus-dará, deu um merecido tapa em seu Jardim de Esculturas, que ainda é meu segundo lugar favorito para ver o pôr-do-sol soteropolitano (o primeiro é a Ponta do Humaitá). Com a morte de bares como Marquês (que fazia as vezes de Ritz baiano), Babalotim e Boomerangue, hoje Salvador não tem nenhum endereço gay friendly onde se possa fazer um esquenta antes de ir dançar. Ou você toma os primeiros drinques onde estiver jantando (a pizzaria Piola já foi uma opção, mas agora o hype passou e ela está às moscas), ou então aciona seus contatos e descola um chill in na casa de algum amigo local. Aliás, num desses esquentas, fui descobrir que as blogueiras Katylene e Cleycianne também são adoradas por lá, e estão colocando suas gírias na boca das bees. Tive a oportunidade de conhecer a bombada San Sebastian em sua última semana no antigo endereço - a casa está de mudança para outro imóvel na mesma rua. Deve existir um "jeito soteropolitano de construir boate": estreito e comprido, com andares e mezaninos, o clube me lembrou muito a primeira Off. A propósito, a Off Club, que reinou sozinha na noite por anos, perdeu o trono e se tornou a boate "do meio". Nos extremos estão a San Sebastian, para onde migrou o pessoal mais bonito, e a Tropical, opção mais popular e bagaceira. Uma pulga me contou que a dona da Off pensa até em se desfazer do negócio. Entre os DJs locais, quem mais chamou minha atenção foi o Bernardo Chez. Além de ser um gentleman e um fofo de marca maior, o loirinho-angelical está fazendo um som bem bacana, criando inclusive seus próprios bootlegs e mashups. Tem tudo para conquistar mais espaço na cena, e não só em Salvador. Na boate, depois de certa hora da noite, elas ficam bem soltinhas, e a beijação rola em esquema drive-thru, tipo assim bem solto. Vai ser bom, não foi? Cansada de quebrar louça? Pois saiba que o percentual de atividade em Salvador beira os 90% - nenhuma outra capital tem tamanho superávit! E ó, tem que levar preservativos GG na nécessaire, viu? Para os adeptos dos vapores vespertinos, a Rios continua sendo o endereço mais indicado. E quem curte um perigón na linha Uomini se refestela no Paredão, no Jardim de Alah - uma falésia que esconde encontros furtivos e sorrateiros na calada da noite. Bateu uma vontadinha de ir (ou voltar) a Salvador? Se fosse você, eu me hospedaria na Barra, para poder ir à praia a pé, e daria uma olhada nas tarifas do Sol Barra, do Grande Hotel da Barra e do Marazul, nessa ordem. Ou então ficaria no Rio Vermelho e decidiria entre o funcional-padronizado-insípido Ibis e o charmoso Catharina Paraguaçu, todos numa faixa de preço viável. As músicas que ilustram este post são "Happiness" (Dave Aude Club Mix), de Alexis Jordan, e "Empire State of Mind" (na versão que o André Garça toca) . Elas deram o tom da minha semana em Salvador e também do fim de semana no Sauípe, no festival Hell & Heaven - que será o assunto do próximo post.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

60 minutos

Otávio chegou ao lugar de sempre, na hora marcada. Raul já esperava por ele. Cumprimentaram-se com um aperto de mão, sem excesso de camaradagem. Alto, forte, maxilar quadrado, barba cerrada, sobrancelhas espessas, braços grossos com veias saltadas, Raul era tudo o que Otávio secretamente desejava ser. Otávio sorriu satisfeito ao pensar que, pela próxima hora, teria aquele belo espécime de macho só para ele.

Partiram logo para a ação. Afinal, não havia tempo a perder com conversas desnecessárias. Não era a primeira, nem a segunda vez; assim, a sintonia entre eles se construiu rapidamente. Otávio viu o quadril de Raul colocando-se por trás do seu e, ao sentir a respiração do moreno em seu cangote, teve um leve arrepio que eriçou os pelos de seus braços. Raul então passou a ditar as regras e conduzir os movimentos, e Otávio, obediente, deixou-se levar. O silêncio dos dois era ocasionalmente quebrado pelas palavras de comando de Raul, correspondidas por gemidos entrecortados que pareciam vir do fundo das entranhas de Otávio.

Aos poucos, o semblante de Otávio no espelho foi ganhando contornos de dor, de desespero. Raul não se abalou. Sabia que seu cliente estava ali para ir até o limite. Quando sentia que já não aguentava mais, Otávio emitia um apelo de misericórdia com o olhar, pedindo que parassem. Mas a trégua que o outro lhe dava não era suficiente para que ele se recompusesse, e logo o suplício recomeçava. Raul não tinha dó da agonia de Otávio, sabia muito bem o que tinha de ser feito, e não ostentava o menor sinal de cansaço. No fundo, era isso que fazia Otávio voltar sempre, pedindo mais.

Ao final daqueles 60 minutos, Otávio estava hecho un desastre, sentindo suas carnes ardendo em brasa e latejando. Não sabia nem como conseguiria voltar andando para casa. Raul já tinha recebido o pagamento combinado, e desapareceu. No dia seguinte, Otávio sentaria com alguma dificuldade. Mas não se queixava. Ele sentia que seu corpo precisava daquilo, ele precisava sofrer nas mãos daquele homem. Em quarenta e oito horas, ele sabia que estava fadado a voltar ao mesmo endereço, pronto para se entregar a mais uma hora de sacrifícios com seu personal trainer.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Rapidinhas gastronômicas

A COCOTA DO BAIRRO Esqueça o que você já ouviu sobre "restaurantes de bairro". Apesar de estar escondido no Ipiranga, fora dos holofotes da badalação, o Nico Pasta & Basta não faria feio se estivesse em plena rua Amauri. O ambiente projetado por Roberto Migotto é belíssimo, com mesas dispostas em torno de um átrio iluminado por uma espécie de clarabóia. O menu, de sotaque italiano, tem massas artesanais como o pappardelle com ragu de filé mignon (tem massa mais apetitosa do que o pappardelle?), além de risotos, polentas e carnes - o stinco de cordeiro com risoto de ervas é sensacional. Ótima sugestão para dar uma cara diferente ao seu almoço de domingo - depois, é só dar um giro pelo Parque da Independência para fazer a digestão.

ONDE A ONÇA BEBE ÁGUA Não é de hoje que a revalorização do Centro paulistano devolveu ao Edifício Copan o status de "cult". Quem tem ajudado a trazer buxixo ao sinuoso edifício de Oscar Niemeyer é o Bar da Dona Onça, que virou queridinho da crítica especializada e dos modernos ao propor releituras de pratos clássicos brasileiros, em clima de boteco estilizado (vide os motivos felinos na roupa dos garçons e no cardápio). Confesso que esperava muuuuito mais do picadinho, mas fiquei boquiaberto com o stinco de leitoa caipira com feijão tropeiro e couve refogada. Como diria meu finado pai, é "batuta"! Isso sim é comida brasileira contemporânea. De sobremesa, o pudim já entra no ranking dos melhores da cidade. Só não vá esperando fazer economia. Os preços da casa estão à altura do seu hype, com pratos de R$40 ou mais, o que significa uma conta que chega fácil a R$100 por cabeça.

MUITO ALÉM DO MIOJO No meu último post sobre comidinhas cariocas, dei a entender que o Brasil não tinha casas especializadas em macarrão oriental. Tem sim: um bom exemplo é o Lamen Kazu, um autêntico noodle bar que fica no Largo da Pólvora (Liberdade) e está sempre cheio. Uma boa pedida para quem quer ir além do sushi e explorar outros terrenos da cozinha japonesa. Outro lugar de que tenho gostado muito é o Sobaria, na Vila Mariana, uma casa dedicada à cozinha do... Mato Grosso do Sul. Isso mesmo: por conta de uma imigração maciça de japoneses da ilha de Okinawa, o sobá tornou-se a comida mais típica de Campo Grande, onde é consumida nas ruas e em todo lugar, inclusive como prato-de-resistência das bees na saída da boate. Feita de trigo sarraceno, a massa vem num reconfortante caldo de shoyu e gengibre, com cebolinha e tiras de lombo e omelete. Uma delícia - por apenas R$20 no Sobaria.

THE AMERICAN WAY Uma boa surpresa deste ano que está acabando foi o 210 Diner, em Higienópolis. Depois do francês Ici Bistrô e do italiano Tappo Trattoria, o chef Benny Novak resolveu abrir uma terceira casa, desta vez para servir especialidades da cozinha dos Estados Unidos. Não espere o clima adolescente de casas como Friday's e Outback: 0 210 é mais low profile, quase minimalista. O cardápio é variado e tem preços diferenciados (ligeiramente menores) no almoço. Entre os hambúrgueres, recomendo o piggie burger, coberto com uma saborosa costelinha de porco desfiada em molho barbecue. Se quiser algo mais leve, não perca a omelete, que põe a do Ritz no chinelo. Você escolhe os ingredientes - a combinação de cogumelos, queijo de cabra e molho pesto é simplesmente fodástica.

ÁRABE NADA CLICHÊ Até curto comer uma esfiha benfeita de vez em quando, ou mesmo fazer um pratinho saudável de kibe cru com tabule. Mas acho restaurante árabe/sírio/libanês um programa meio boring. Não me anima a ideia de gastar nisso o meu orçamento de "comer fora". No entanto, fui ao Saj e adorei. Talvez porque não se pareça com restaurante árabe. A casa fica na Vila Madalena e tem aquele "jeitão Palermo de ser" do bairro, com mesas dispostas em uma espécie de terraço interno com muita luz natural. Por uma janela, é possível ver o trabalho de preparação do pão sírio - que chega à mesa quentinho e macio e é um dos pontos altos. Já que está num lugar diferente, saia do lugar-comum e peça a fraldinha cozida na coalhada. Os cubos da carne desmancham no garfo [quer tentar fazer em casa? a receita está aqui].

PARA COMER COM AS DUAS MÃOS Na esquina da Melo Alves com Alameda Tietê, o bar Balcão vem animando os papos-cabeça do povo culturette há mais de 15 anos. Mas só recentemente fui descobrir que, no simpático balcão que serpenteia por todo o salão e dá o nome à casa, é possível comer alguns dos melhores sanduíches da cidade, num pão ciabatta macio como há muito tempo eu não via. Gostei especialmente do Vegetariano, com cogumelos frescos, tomates secos pra lá de saborosos, pesto, rúcula e mussarela de búfala (ingrediente que não consta da receita original, mas pode ser incluído). Tão bom que voltei para repetir a dose já no dia seguinte.

BÍBLIA ANUAL A revista Veja já publicou a edição 2010-2011 do seu anuário Comer & Beber, em São Paulo e no Rio de Janeiro. Na semana em que saem, os guias são vendidos junto com a revista Veja. Depois, algumas bancas de jornal continuam oferecendo o volume separado por algum tempo. É uma fonte de consulta obrigatória, seja pelos restaurantes (divididos por especialidades), seja pelos bares (separados por região da cidade), seja pelas comidinhas (com todas as guloseimas de que você precisava e não sabia). Outras capitais como Salvador e Curitiba também devem estar para ganhar suas edições [aliás, se algum leitor caridoso quiser me mandar os guias dessas cidades, ficarei agradecido!]. Em tempo: o Rio está vivendo sua terceira Restaurant Week, até o dia 31/10. Os cardápios, você confere aqui.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

A ferro e fogo

Que atire a primeira pedra quem não tem defeitos. Reza a lenda que os blogueiros vivem de vender o próprio peixe, e se esforçam para revelar só aquilo que consideram seu lado bom. Criam uma projeção de si, passam a acreditar nela e depois tratam de vendê-la ao mundo. Pois hoje vou romper com isso e fazer um mea culpa do meu lado negro, sem mais nem menos. Com a sinceridade que poucos teriam em uma entrevista de emprego, na hora em que lhes perguntam "qual o seu maior defeito?". Nessa hora, a parcela clichê da humanidade certamente responderia "sou perfeccionista" - e arrancaria um bocejo do entrevistador. Eu, que não sou dessas, vou mandar na chincha: sou um cara rancoroso. Pois é.

Não sou o rancoroso-perigoso: aquele tipo vingativo, que espera uma oportunidade para fazer o outro provar do próprio veneno, devolvendo-lhe uma maldade igual ou até maior. Eu apenas guardo as coisas que me fazem de ruim. Quando me destratam, são mal-educados comigo, me esnobam. Ou me sacaneiam pelas costas (ainda que sorrindo na minha frente). Guardo aquilo e não esqueço, jamais. Antes era pior, porque eu era capaz de remoer fatos passados por muito tempo - meses, anos! Do nada, eu resgatava lembranças ruins e me punha a ruminá-las novamente. Hoje, isso só costuma acontecer quando eu volto a cruzar com a pessoa (com algumas eu sou obrigado a conviver socialmente, aí não tem jeito). Nessas situações, eu puxo a ficha dela e as ocorrências aparecem, sem direito a prescrição. Fica tudo registrado no prontuário.

Às vezes a coisa nem é tão grave, o outro não chegou a pisar feio na bola. Apenas deixou de retribuir a consideração que sempre teve de mim. Quando é assim, o que eu faço é redimensionar a relação, cancelando as regalias ao dito cujo, até sentir que a coisa está de igual para igual. Esse equilíbrio nas minhas relações pessoais é algo que eu prezo muito. Se eu vejo que estou dando mais do que recebo, trato de nivelar a balança rapidinho, para não sair mais em desvantagem. Quebro todos os galhos pro amigo e ele é incapaz de me dar uma carona de dez minutos porque não está exatamente no caminho dele? Faço várias concessões de bom grado e nunca recebo uma gentileza? Aí eu passo a ser aquela pessoa que só faz o que quer e não move uma palha pelo outro. E se eu me sentir colocado para escanteio, se perceber que sou o único que procura, investe ou se preocupa, pode ter certeza: o sujeito nunca mais vai ouvir falar de mim. Idem se ele é simpático quando precisa de algo, mas faz a egípcia quando está dentro de um grupo.

Sei que devemos dar por prazer (né, ameegas?), não pela expectativa de receber de volta, mas há casos em que o outro nem sequer dá valor ao que você está fazendo. E se há uma coisa de que eu tenho consciência, é o meu próprio valor. Quando não recebo o tratamento que eu sei que mereço, fecho a porta, deixo de apostar ali, canalizo minhas expectativas em outra direção. Afinal, persistir seria jogar o amor-próprio pela janela e desperdiçar uma energia que é, afinal de contas, preciosa. Para me blindar contra as frustrações, essa foi a estratégia que adotei: olho por olho, dente por dente. Se eu não fui capaz de dar um murro na mesa, pelo menos dentro de mim eu sinto que fiz justiça de alguma forma.

É claro que ser assim tem um custo, e ele não é baixo. Quem guarda rancor vive armado e passa a carregar nas costas um verdadeiro baú de tralhas, que vão se acumulando com os muitos desaforos da vida. Rancores fazem mal, deixam o semblante carregado e um resíduo amargo na garganta. Envelhecem o espírito. Por que é tão difícil se livrar deles? Porque existe a voz do orgulho, que pensa que deixar aquilo barato seria uma desonra. Que perdoar o outro não é nobre, muito menos justo, quando foi ele que sacaneou, e nem se preocupou em reparar o mal. No fundo as pessoas sempre têm opção: se elas optaram por pisar na bola, foi porque quiseram, e não se importaram com você. Deixar barato e engolir o sapo é endossar uma atitude errada e dar uma anistia a quem não merece.

Sempre levei a vida desse jeito, até que um recente insight me levou a mudar de atitude. A gente guarda o rancor e acha que, dessa maneira, está fazendo "justiça" e punindo a outra pessoa. Mas não está. Quando eu alimento o rancor, não estou fazendo nenhum mal àquela pessoa, mas apenas a mim mesmo. Quem sofrerá e pagará o pato não é ela, que vive ótima e repousa a cabeça serena no travesseiro, mas eu. E isso não é justo. Nem inteligente. Por isso, tenho feito um esforço extra para ser diferente. Não pelos outros, não para poupá-los, mas por mim mesmo e pelo meu bem-estar. Para me desvencilhar do peso, ficar leve e deixar a cabeça livre para pensar em coisas melhores. Hoje, deixo que a vida se encarregue de ensinar a lição que cada um merece. E estou aprendendo até a devolver o sorriso falso e ser político, quando isso me convém. Se bobear, posso até abraçar e sair junto na foto, feito Lula e Collor. O que não quer dizer que eu tenha esquecido, muito menos perdoado! Afinal, os elefantes nunca esquecem.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Borboletas no estômago

Plínio guardou o notebook na pasta, despediu-se e saiu da reunião com o fornecedor, num bairro afastado da zona oeste. Na mesma calçada onde seu carro estava estacionado, havia um caminhão com a caçamba aberta. Um rapaz alto e forte saltou apressado, atravessou a calçada e entrou num armazém. Plínio ficou admirado com aquelas costas largas, cobertas apenas por um macacão, os braços torneados e cheios de veias que terminavam em mãos grandes, rudes. O rapaz logo voltou em direção ao caminhão, com uma caixa na mão. Plínio quis disfarçar, mas os olhares dos dois se cruzaram, e o outro abriu um sorrisinho maroto. Plínio sentiu as bochechas esquentarem, a boca seca e o estômago revirado por mil borboletas. Foi então que ele teve absoluta certeza de que sua vida nunca mais seria a mesma.

Trocaram umas palavras bem idiotas, dado o estado abobado em que Plínio se encontrava, e o rapaz, Kleber, vinte e seis anos, disse que estaria livre dali a duas horas. Plínio voltou ao local na hora combinada, Kleber entrou no carro e os dois resolveram ir tomar uma cerveja. Plínio foi ficando nervoso com aquele macho de macacão, a mala inchada, uma tensão no ar quando o sinal fechava e eles se entreolhavam. O carro se embrenhou por umas ruas desertas, parou e os dois se atracaram com avidez. Num piscar de olhos, o banco do passageiro estava reclinado, com Plínio de calças arriadas e Kleber por cima dele, impondo sua virilidade em estocadas vigorosas. Gozaram suados, aos trancos.

Plínio pensou que aquele seria mais um entre tantos lanchinhos inesperados. Surpreendeu-se ao receber, no dia seguinte, um torpedo de Kleber. Retribuiu. Marcaram mais uma, dessa vez num motel. Foderam como se não houvesse amanhã, depois foram comer. Plínio sugeriu sushi; Kleber não sabia o que era. Plínio achou melhor simplificar e propôs um hambúrguer. Acabaram num rodízio de pizzas, onde Kleber comeu onze pedaços. Saíram por uns dois meses. Era Plínio quem se esforçava para manter a conversa fluindo. Kleber era uma pessoa realmente simples, mas até isso era um encanto aos olhos de Plínio, que adorava se sentir conduzido por ele na hora do sexo. Entre uma sessão e outra, cinema era o programa preferido. A escolha dos filmes ficava a cargo de Kleber: Plínio preferia assim, pois queria ter certeza de que o outro iria se divertir.

Os amigos começaram a estranhar o sumiço de Plínio e cobrar sua presença nas festas. Plínio hesitou um pouco. Quando Tavinho Bittencourt abriu seus salões para o esquenta oficial da temporada, Plínio decidiu que era hora de saírem do casulo. Plínio já preparava o espírito para enfrentar risinhos e comentários maldosos, mas novamente se surpreendeu: as bichas ficaram interessadíssimas em saber quem era aquele pedaço de carne, de ar tão rústico quanto inocente. Kleber perguntava discretamente a Plínio o que eram todas aquelas bebidas novas. As mais malditas esperavam um descuido de Plínio para dar em cima do moço. Uma que nunca dera confiança a Plínio veio fazer a íntima, louca para tirar uma casquinha, nem que para isso fosse necessário armar um ménage. Plínio e Kleber riram dela, ainda que por motivos diferentes. Kleber via naquelas pessoas meio esquisitas uma simpatia genuína.

E eles também viram alguma coisa em Kleber, pois começaram a procurar Plínio com muito mais freqüência. Um deles acionou contatos e descolou para Kleber um emprego de vendedor numa loja de roupas do shopping - perfeito para quem só tinha o segundo grau. Como a casa de Plínio era ali perto, Kleber começou a dormir lá e acabou se instalando. Isso facilitava também a volta da balada, o ponto alto da nova vida que se apresentava ao rapaz. Uma noite dessas, na boate, Kleber aceitou uma bebida e um comprimido que lhe ofereceram. Ficou passado! Não quis que aquilo terminasse nunca mais. E então descobriu que as noites não precisavam acabar: elas emendavam em afters e chillouts, palavras com que aos poucos foi se familiarizando, pelos novos amigos do Facebook, com quem se comunicava durante as brechas na rotina da loja.

Agora Kleber treinava na mesma academia de Plínio. Seu guarda-roupa já estava todo repaginado, os cabelos ganharam um corte mais atual, e ele começou uma coleção de oclóns de marca. Viraram o ano numa festa private numa cobertura na Avenida Atlântica e fizeram um animado cruzeiro gay, pouco antes do Carnaval em Florianópolis. Mas antes, Kleber depilou todos os pelos do corpo, pois isso valorizaria seu físico, segundo lhe diziam. Os dois namorados saíam bastante. Depois que ganhou o cartão vip da boate, Kleber não perdia uma. Já Plínio, que tinha vivido esse momento dez anos antes, nem sempre dava conta. Quando isso acontecia, não havia problema: sempre havia uma alma caridosa que poderia buscar Kleber em casa e depois o deixá-lo de volta. "Pode ficar tranquilo que ele está em boas mãos!", garantiam a Plínio. Todos gostavam demais do casal - unanimidade entre as bunitas e modelo a ser seguido.

E assim se passaram alguns meses. Até que, numa manhã nublada de segunda, Plínio estava atrasado para uma reunião importante e escolheu a via expressa. Mas o motor começou a engasgar, e enguiçou. Irritado, Plínio acionou o socorro da seguradora. Em vinte minutos, o guincho encostou na frente do carro de Plínio e parou. A porta se abriu, e dele desceu um homem moreno, alto, jeito de poucos amigos, boca carnuda envolta por um cavanhaque. Cara de marginal, diria a mãe de Plínio. O uniforme deixava aparecer um corpo naturalmente forte, uma tatuagem que escapava da manga e cobria o bíceps direito, e um pacote bastante volumoso. Plínio quis disfarçar, mas os olhares dos dois se cruzaram, e o outro abriu um sorrisinho maroto. Plínio sentiu as bochechas esquentarem, a boca seca e o estômago revirado por mil borboletas. Foi então que ele teve absoluta certeza de que sua vida nunca mais seria a mesma.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Efeito cardume

Depois de uma semana massacrante, resolvi aproveitar o sol do último domingo para curtir São Paulo de uma das minhas formas preferidas: sobre duas rodas. Mas desta vez não fui sozinho. Fui ao encontro dos SP Gay Bikers, que se reúnem todo domingo (quando não chove) numa frutaria no final da Paulista, de onde saem por diferentes regiões da cidade [mais detalhes no blog deles]. Eu já sabia da existência do grupo havia um tempão, tanto por matérias publicadas nos portais de informação LGBT como por um amigo que era frequentador, mas nunca tinha pintado a oportunidade certa para ir conhecê-lo. O horário era meio puxado (para estar às 10h no ponto de encontro, com tranquilidade, eu teria que sair de minha casa na Vila Olímpia perto das 9 da manhã, num domingo, o que era inviável depois de um sábado de balada). Como estou numa fase mais focada nas obrigações e menos nas jogações, não foi tão difícil chegar lá na hora marcada.

Antes de mais nada, os SPGB são "gente como a gente". Em dois sentidos. Primeiro: o perfil dos frequentadores não é tão "temático" como o nome do grupo pode fazer alguns imaginarem. Ninguém pedala montado, nem vestido com camisetas e acessórios com as cores do arco-íris, como se estivesse indo à parada gay. Segundo: não são atletas, com caríssimas magrelas de corrida olímpica, mas ciclistas amadores, no sentido da palavra. Gente comum mesmo. Alguns mais empolgados usam roupas próprias para o esporte, mas a maioria só vai de capacete (o uso do equipamento é a única condição exigida para pedalar com o grupo). O tipo de gente que tem uma vida normal, rala durante a semana e aproveita o domingão para se exercitar. Uns até fazem outras atividades físicas, mas não é um grupo em que corpos sarados estejam em evidência.

Um dos organizadores me contou que, na época em que os portais divulgavam as atividades do SPGB, o grupo recebia um número maior de curiosos. Enquanto alguns estavam realmente interessados em andar de bicicleta, outros pareciam ter ido apenas para ver se descolavam outro tipo de diversão, se é que vocês me entendem. Algumas matérias, como a que foi publicada na revista Junior, endossavam essa fantasia, alimentando o fetiche em torno dos ciclistas como machos esportistas. Bem, as pessoas que frequentam o SPGB parecem ser muito dispostas, imagino que todas gostem de sexo e muitas estejam em busca até de algo mais sério (no fundo, todo mundo está, não é o que dizem?), mas certamente o propósito fundamental de estar ali não é fazer pegação.

A ideia principal, isso sim, é conhecer gente nova e fazer amizades, de um jeito saudável. E isso rola de forma muito gostosa e espontânea. O pessoal do SPGB é muito simpático, receptivo e acessível. Cheguei ali sem lenço nem documento, eu e meu capacete multicolorido, e não tive dificuldades para interagir. O mais interessante é que dá pra bater muito papo durante o passeio, e não apenas nas paradas. Por ser uma manhã de domingo, o trânsito de carros é bem mais tranquilo, então em vários trechos do percurso os ciclistas pedalam em filas de dois. Você vai naturalmente emparelhando ora com um, ora com outro, e na metade do caminho já conversou com praticamente todo mundo. Tudo num clima super leve. Tem gente mais velha e mais nova, gente que sai e que não sai, homens e mulheres. Uma ótima maneira de sair um pouco das panelinhas de sempre e tomar novos ares.

Outra coisa muito bacana, que senti na pele, foi o que eles chamam de "efeito cardume". O fato de estar pedalando dentro de um grupo faz toda a diferença: uns protegem os outros, os carros dão passagem e respeitam, abre-se a possibilidade de ocupar muito mais espaços, com segurança. Ganha-se visibilidade e legitimidade, enfim. Não dá para deixar de fazer um paralelo com a questão dos direitos LGBT. Separados, somos poucos e somos engolidos pela multidão; juntos, nós podemos muito mais.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Belisquetes (cariocas) do momento

Fico admirado como o Rio de Janeiro - ou melhor, a Zona Sul - está se tornando especialista em inventar modismos gastronômicos. Não falo aqui de restaurantes, mas daqueles lugares pequenos, informais e descolados que se concentram em uma única comidinha e, sabendo vender o peixe, viram mania instantânea. Foi assim com as temakerias (que surgiram em São Paulo, mas viraram pop aqui, com a Koni Store) e com as casas de frozen yogurt (o número de imitações da Yogoberry em Ipanema já está beirando o ridículo), dois formatos que viraram febre Brasil afora. Mas outras ideias interessantes vêm pipocando pelo Leblon, como o bar de tapas Venga! (que eu já resenhei aqui), a kebaberia Yalla! (que não despertou minha curiosidade, mesmo sendo cria do tradicionalíssimo árabe Amir) e a Vezpa, que vende pizzas em pedaços com uma cara ótima, cheirinho de manjericão incluído.

No último feriado, fui para o Rio (pela 61ª vez na vida!) e, como não deu praia, tive que me contentar com as novidades gastronômicas. Primeiro fui ao Soba, que vem a ser um noodle bar, ou seja, uma casa especializada naquele macarrão oriental que serve de base ao Miojo e ao yakissoba. Eu já tinha visto um desses Barcelona (o Udon, fantástico) e torcia para ninguém levar o conceito para o Brasil antes que eu resolvesse abrir meu próprio negócio. Pedi o Osaka, que leva salmão, shiitake, nirá, gengibre e um toque de molho teriaki, e a-do-rei. Não consigo lembrar de outra comidinha de R$18 que seja tão bacana. Ótima pedida para aquele fim de semana em que você não pode gastar muito dinheiro. Além dos noodles, o cardápio tem pratos à base de gohan (aquele arroz japonês meio grudentinho) e umas entradinhas tipo dim sum. Supersimpático.

Minha segunda experiência foi o Go Wok, que se anuncia como "o primeiro restaurante casual thai do Brasil". Na verdade é uma portinha minúscula, espremida entre o Néctar e o Tô Nem Aí, em plena Farme de Amoedo. Funciona assim: você escolhe uma carne (bovina, frango, camarão, lula ou opção veggie), uma base (entre quatro tipos de macarrão e dois de arroz), um molho tailandês (ostras, tamarindo, teriaki, curry com leite de coco, chilli) e três ingredientes (shiitake, ovo, amendoim, etc.). Eles salteiam tudo na wok e te entregam num potinho de plástico com cara de Cup Noodles, pra você comer no exíguo terraço da casa, ou ir andando. É barato, não é rápido (para ser um fast food, a comida demora pra kct) e... bem, não fui muito feliz na minha escolha. O que veio de camarão e shiitake no pote inteiro não era suficiente para duas colheradas, o resto era arroz puro. Talvez se tivesse pedido com frango e uma base de noodles, eu teria pelo menos conseguido chegar ao fim do prato (joguei fora antes da metade).

Agora, gostei mesmo foi da Prima Bruschetteria, que nem é tão nova assim, mas eu não tinha ido conhecer. Outra ideia óbvia que ninguém teve antes: um lugar só de bruschettas (bem, se pão italiano não é a sua praia, tem uns 2 ou 3 risotos também). São vinte e tantas opções, algumas incríveis, como a de camarões, tomate italiano e pesto (perfeita!) e as invenções da semana, escritas numa lousa (comi uma de creme de gorgonzola, maçãs caramelizadas e nozes que era uma cô-de-lô, tomara que entre no meno fixo!). O lugar é uma graça, com pegada de bar e motivos quadriculados nas paredes, nas mesas e nas boinas dos garçons. E o sucesso estrondoso se repete quase todas as noites, quando uma multidão toma conta da calçada e come em pé ali mesmo, tomando uma taça de vinho, sem esquentar a cabeça (viva a informalidade carioca). Mas dá para fugir da muvuca, indo em horários alternativos (eles abrem às 10h, com bruschettas especiais de café-da-manhã) e até pagando menos (há combos promocionais no almoço e no lanche da tarde).

domingo, 12 de setembro de 2010

Recado aos amigos e leitores

Não, eu não desisti do blog, muito menos perdi o prazer em escrever. Está tudo bem comigo - aliás, estou vivendo uma fase ótima. O que não quer dizer que esteja sendo fácil. Muita coisa acontecendo na minha vida profissional, acadêmica, amorosa, tudo ao mesmo tempo, e nessas horas o blog inevitavelmente sai perdendo. E olha que assunto não falta: na minha pasta de rascunhos tem uma fila de textos esperando para serem desenvolvidos e postados. Mas eu não consigo fazer isso nas coxas, nem sob pressão, acho que a ideia do blog nem é essa. Por isso, enquanto eu não consigo retomar o ritmo normal, peço que tenham paciência e não deixem de aparecer de vez em quando. Eu sei que o blog não pode parar, e vou fazer uma forcinha para voltar a postar duas vezes por semana. Beijos a todos!

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Restaurant Week: seleção de cardápios (jantar)

E aqui a segunda parte do roteiro. Uma coisa que chama a atenção nesta edição da SPRW: nunca houve tantas opções para vegetarianos nos cardápios. Parece que as casas estão acordando para as necessidades de quem não come carne - um grupo ainda pequeno, mas que não para de crescer.

FILLIPA (r. Joaquim Antunes, Pinheiros) Entradas: Torradinha de queijo brie e compota de tomates ou Palmito grelhado com azeite de ervas Pratos: Thai Curry de Salmão (Curry vermelho com cubos de salmão, aspargos frescos, leite de coco e especiarias) ou Medalhão de Filet ao molho mostarda com shitake grelhado e batata röesti ou Califórnia curry indiano de vegetais e tofu, com arroz de shitake e chutney de abóbora Sobremesas: Sorvete de coco fresco e laranja ou Bolo Molhado de coco fresco e chocolate belga

CASINHA DE MONET (r. Fradique Coutinho, Pinheiros) Entradas: Mix de folhas guarnecido com brunoise de maçã verde, alho-poró à Juliana, creme de leite, maionese, uvas passas e crocante de bacon ou Anéis de lula salteados em azeite e alho e regados com molho de mostarda e creme de leite Pratos: Camarões médios, salteados em azeite e alho, com molho de creme de leite e limão siciliano reduzido, acompanhado de risoto de aspargos verdes ou Tournedo de filé mignon grelhado, com molho demi glace, arroz piemontese e batata gratin ou Risoto de shitake, shimeji e tofu Sobremesas: Brownie de chocolate com calda de damasco, servido com sorvete de iogurte e damascos e calda de aceto balsâmico ou Crepes recheados com creme de cardamomo e calda de frutas vermelhas

L'AMITIÉ (Itaim) Entradas: Steak Tartare (Filet mignon cru cortado na ponta da faca acompanhado de folhas verdes) ou Crêpe Financière (Crêpe recheado com molho de creme de leite, champignon e cubos de frango) Pratos: Boeuf Bourguignon (Carne cozida em molho de vinho tinto, champignon, cebola caramelada e bacon acompanhado de arroz branco) ou Poisson à La Courge (Anchova Negra grelhada com purê de abobora e molho de amêndoas) Sobremesas: Pêche Melba (Sorvete de creme, caldas de frutas vermelhas, pêssego e chantilly) ou Les Profiteroles (Dueto de profiteroles com calda de chocolate e lascas de amêndoas)

APRIORI (Brooklin) Entradas: Pescada amarela ao creme de açafrão e purê de batatas com ervas ou Salada morna de folhas verdes com pêra, shimeji, azeite extra virgem, aceto balsâmico e mel Pratos: Tagliatelle com filé mignon em cubos ao creme de cogumelos ao vinho branco ou Risoto de alho-poró, pupunha e pipoca de arroz selvagem Sobremesas: Aveludado de chocolate [já comi e é divino!] ou Mousse de limão siciliano com gotas de suspiro

BISTRÔ NA FARIA LIMA (Itaim) Entradas: Salada de brie (brie derretido na baguete com gergelim acompanhado de trouxinhas de folhas) ou Salada do chef (salmão temperado acompanhado de manga, tomate cereja e palmito) Pratos: Salmão grelhado ao molho de tangerina com purê de wasabi e salada de pepino ou Medalhões dois molhos com risoto de aspargos (molho de uva, molho mostarda dijon) ou Ravióli de shitake e alho-poró ao molho de açafrão Sobremesas: Torta de banana com sorvete ou Brigadeiro do Chef

HITAM (Vila Mariana) Entradas: Trio de cestinhas crocantes (Shitake com alho-poró, camarão com abóbora, palmito pupunha) ou Rolinho Primavera Estilo Tailandês (Frango, vegetais, vermicheli e hortelã, com molho doce picante) Pratos: Camarão Thai levemente picante (curry verde com alho-poró, tomate cereja e cenoura) ou Frango Bangalore (com leite de coco, berinjela e cebola caramelizada) ou Arroz Thai Veggie (curry, abobrinha, palmito pupunha, uva e damasco, com ghee e queijo minas padrão ao toque de leite de coco) Sobremesas: Samosa doce (com banana e nutella) ou Frozen Yogurt com pedacinhos de fruta e calda de frutas vermelhas

LA PIADINA (Vila Olímpia) Entradas: Bolinhas de mussarela de búfala embrulhadas com finas fatias de speck e cobertas com suave molho agridoce ou Salada Caprese sobre rúcula selvagem com mussarela de búfala, tomates e manjericões frescos Pratos: Lombo de porco ao creme de limão siciliano e especiarias acompanhado de risoto ao parmesão com azeite de tartufo branco ou Gnocchi artesanal ao molho de 4 queijos e ervas aromáticas ou Posta de atum fresco grelhado com azeite extra virgem, acompanhada de Fettuccine Alfredo ao sabor de tartufo branco Sobremesas: Tiramisù artesanal com mascarpone italiano, morango, chocolate branco e maraschino ou Piadina recheada com Nutella™ e fatias de morango frescos

SANTA GULA (Vila Madalena) Entradas: Ceviche de Salmão sobre Folhas Escuras ou Creme de Abóbora com Carne Seca ou Bolinho de Risoto de Camarão Pratos: Conchiglione de Camarão ou Involtine de Filé com Queijo Gruyère ao Vinho do Porto com Risoto de Presunto Cru e Abacaxi ou Palmito Cremoso sobre Arroz Negro enriquecido ou Cassoulet de Polvo Sobremesas: Pannacota com calda de Nespresso ou Fondue de Chocolate com bolinho de chuva

PÉ DE MANGA (Vila Madalena) O mesmo cardápio do almoço [descrito no post anterior]

TANGER (Vila Madalena) Entradas: Bolinho de batata com queijo pamesão e cordeiro desfiado ou Sopa de lentilhas, arroz e grão de bico com legumes e especiarias Pratos: Couscous marroquino acompanhado de camarões, lulas em anel, mariscos, ao molho de tomates frescos e pimentões vermelhos ou Ossobuco de paleta de cordeiro ao molho de tomates frescos e vinho tinto, com couscous marroquino ou Couscous marroquino com legumes, grão de bico, amêndoas e frutas secas Sobremesas: Pudim de castanhas com sorvete de creme ou Makrout (Massa de semolina recheada com tâmaras e nozes, frita e passada no mel) ou Corne de gazelle (Massa caseira recheada com marzipã e essência de flor-de-laranjeira, assada e polvilhada com açúcar glacê)

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Restaurant Week: seleção de cardápios (almoço)

Ontem foi dada a largada para mais uma São Paulo Restaurant Week. Estudei os cardápios das mais de 200 casas participantes e fiz minha seleção pessoal, que passo a dividir com vocês, em dois posts (almoço e jantar). O preço dos menus é de R$29 no almoço e R$ 39 no jantar, mais bebidas, gorjeta, estacionamento e R$1 de doação para a Ação Criança.

PÉ DE MANGA (Vila Madalena; o menu é o mesmo no almoço e jantar) Entradas: Salada de Mix de Folhas, Manga, Queijo Coalho, Tomate Cereja e Castanha do Pará ao Molho de Laranja ou Bruschettas de Brie com Geléia de Damasco Pratos: Risoto de Camarão com Molho Bisque ou Medalhão de Filet Mignon com Purê de Ervas Finas ao Molho Madeira Sobremesas: Rolls Recheados de Nutella e Sorvete de Creme com calda de Maracujá ou Sorvete de Iogurte com Suspiros e Calda de Frutas Vermelhas

BEEF & CHIPS (Joaquim Floriano, Itaim) Entradas: Carpaccio Alla Toscana (com folhas de rúcula, alcaparras, lascas de parmesão e molho especial) ou Ensalata Du Chef (Mix de folhas, gomos de laranja, azeitona preta, tomate, palmito, hortelã, cenoura ralada e pesto de erva doce) Pratos: Bife ancho argentino com molho de cogumelos, acompanhado de risoto de nozes e queijo gorgonzola ou Filet de abadejo grelhado ao molho limone, com musseline de batata baroa, ervilha torta e lâminas de amêndoas) Sobremesas: Sopa de Brigadeiro quente, servida com bolinhas crocantes e pedaços de morangos ou Creme Bavarian (Pudim de baunilha coberto com baba de moça)

PJ CLARKE'S (Mário Ferraz, Itaim) Entradas: Quiche de alho-poró e queijo (com mix de folhas) ou Sopa do dia Pratos: LAMBurger (Hambúrguer de cordeiro + queijo cottage + pesto de manjericão + purê de batatas) ou Corn And Crisp (Sobrecoxa desossada empanada e frita, em farinha especial PJ e Corn flakes + milho doce grelhado + vagem na manteiga e molho BBQ) Sobremesas: Lime Pie (Torta de limão taiti coberta com chantilly) ou Pudim de Leite do PJ Clarke’s [já comi e é incrível mesmo!]

BISTRÔ CREPE DE PARIS (Rua Augusta) Entradas: Salada Verão (Folhas verdes, tomate, pepino Japonês, cenoura) ou Salada Ceasar (Alface Americana, frango desfiado, parmesão, crouton) Pratos: Entrecote com Batata frita ao Molho de Mostarda de Dijon à l'ancienne ou Filet de Saint Pierre grelhado no azeite com Risoto de Alho poró ou Fricassé de Frango com fetuccine ou Crêpe Mônaco (Filet mignon ao molho rôti, champignon e salsa) ou Lasanha Vegetariana ou Crêpe St Tropez (Espinafre, tomate concassê e cream cheese) Sobremesas: Crêpe de doce de leite com côco ou Crème Brulée ou Fruta da Estação

LE POÈME (R. Joaquim Antunes, Pinheiros) Entradas: Salada de Brie (mix de alfaces, Brie, presunto de Parma ao molho de mel) ou Salada de Avocado (mix de folhas verdes, abacate, manga ao molho citron) Pratos: Lasanha Vegetariana (de legumes grelhados com parmesão ao molho de queijos) ou Pescada amarela ao molho de uvas verdes com arroz de amêndoas ou Portfolio Crocante (filé mignon recheado com fondue de Roquefort, crosta de pão caseiro com risoto de peras) Sobremesas: Creme Brulée ou Delícia de Chocolate (torta mousse de chocolate com sorvete de creme)

LA PASTA GIALLA (vários endereços) Entradas: Mix de folhas com tomate cereja marinado e crocante de parmesão ou Mix de folhas julienne com ricota temperada e croutons ao azeite Pratos: Gnocchi Due (ao pesto e ao molho de tomate) ou Filet de frango ao creme de queijo gratinado com spaghetti na manteiga, sálvia e tomate fresco Sobremesas: Torta mousse de chocolate 1/2 amargo ou Crepe de doce de leite e banana com farofa de nozes

DUI (Alameda Franca) Entradas: Salada de folhas verdes, tomate cereja, palmito pupunha e vinaigrette de mostarda e mel ou creme do dia Pratos: Penne ao molho de queijo Saint Agur, nozes, pêras e rúcula ou Picata de carne flambada na cachaça com quinua e cebolas caramelizadas Sobremesas: Tartare de abacaxi com manjericão, tapioca brulée e baba de moça ou Brownie de chocolate belga com castanha do Pará e sorvete de doce de banana

LE FRENCH BAZAR (Pinheiros) Entradas: Salada Juliene com frutos do mar ou Polenta cremosa ao roquefort gratinado Pratos: Boeuf Bourguignone ou Truta em emulsão de limão siciliano e manjericão, com batata caramelada ao alho-poró Sobremesas: Torta mousse de chocolate com banana e chantilly de cupuaçu ou Compota de morango e especiarias ao zabaione de vinho do porto

COSMOPOLITAN LOUNGE (R. Bela Cintra) Entradas: Croquete de carne ao molho de laranja ou Mix verde com mussarela e batata assada ao azeite de alecrim Pratos: Penne ao molho de hortelã ou Premium steak burguer ao molho de queijo cremoso e arroz primavera Sobremesas: Arroz doce com frutas secas ou Suspiro recheado com sorvete de chocolate e calda de maracujá

VITRÔ (Moema) Entrada: Mozzarella Bufalina com Tomate Confit, Pesto e Crostini Pratos: Fraldinha Assada no Vinho com Gratin Cremoso de Batata ou Tagliatelle de Tomate com Espinafre, Abobrinha e Erva Doce Confit com Pecorino Ralado Sobremesa: Brownie Vitrô (Sorvete de Chocolate , Farofa, Calda de Chocolate, Cubinhos de Brownie e Creme Batido)

BISTRÔ NA FARIA LIMA (Itaim) Entradas: Salada Bistrô (mix de folhas com tomate cereja, castanha do Pará e molho de mostarda djon com lascas de parmesão) ou Sopa de cebola Pratos: Triângulo de mussarela ao molho de tomates frescos e manjericão ou Iscas de filé mignon ao roti com risoto de ervas ou Filé de peixe com crosta de azeitona chilena, creme de espinafre e batatas com alecrim Sobremesas: Pudim caseiro ou Frutas da estação

No próximo post, minha seleção de jantares.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Jogações à vista


Curte uma boa jogação? Prepare o corpo e o bolso, pois este segundo semestre de 2010 está beeem animado, com uma série de bons shows pela frente e muitos, muitos festivais. O site rraurl.com fez um guia indispensável com informações e line ups detalhados. Tem muita coisa boa, e não só na música eletrônica, e não só em São Paulo.

Entre os shows, eu até gostaria de ver o AIR, sou apaixonado pelo duo francês, mas a apresentação deles no festival da Natura, em outubro, terá apenas 60 minutos. Talvez valha mais a pena ir vê-los em Belo Horizonte ou no Rio de Janeiro, caso eles se apresentem sozinhos nessas cidades. Eu também consideraria ver Hot Chip, Mika e Smashing Pumpkins no festival Planeta Terra, em novembro, e o Scissor Sisters, no Clash.

No capítulo de DJs, nada me comoveu tanto quanto o festival SWU, que vai rolar durante três dias de outubro (no feriado) na Fazenda Maeda, em Itu (SP). Um dos dias vai reunir Nick Warren, Sander Kleinenberg, Sharam (Deep Dish), Markus Schulz, Roger Sanchez e Life is a Loop, um line up que não fica devendo nada às boas edições do Creamfields de Buenos Aires. Outro festival que promete é o Ultra Music Festival, com Fatboy Slim, Groove Armada, Moby, Kaskade, Above & Beyond e Carl Cox. Mas esse eu vou perder, pois estarei curtindo o Hell & Heaven, na Costa do Sauípe (BA).

Isso sem falar nas festas menores. Aqui em São Paulo, está rolando o Prestonight Week, espécie de Restaurant Week das baladas: você compra uma pulseira e pode entrar livremente em mais de cem casas, durante o finde ou a semana inteira. Eu não encararia essa, mas estou bastante tentado a terminar logo este post, tomar um banho e ir ao D-Edge, ver o japonês Satoshi Tomiie, outro DJ que eu adoro. Quer dizer, isso se eu conseguir espantar o cansaço acumulado. Alguém tem um supositório de wasabi?

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Definido em palavras

Um feto com a mão na boca. Chorão. Mamã, papá, quer sopa. Babão. Risonho. Menino. Azul claro. Eu gosto da mamãe. Vovô vê a uva. Autodidata. Quatro-olhos. Gordo, baleia, saco de areia. Bochechas rosadas, cachos dourados. A cara da mãe, com os sapatos enormes do pai. Introspectivo. Primeiro aluno. Criança solitária na hora do recreio. Diferente.

Dentro de casa, sentado na janela. Escondido. Canetinhas para colorir. Eremita. Inadequado. Timidez, mãos para trás. Desengonçado. Pré-adolescente. Acne e bermudas de flanela. Matinê. Nerd revelado – para o mundo. Maria-vai-com-as-outras. Ansioso por pertencer. Sonhador. Passageiro da balsa. Travessia, sem olhar para trás.

Maioridade. Vestibulando. Conquista. Respeito. Cabeça raspada, rito de iniciação. Debutante. Homem, apresentado ao mundo dos adultos. Altivo. Aventureiro. Acadêmico. Estagiário. Curioso. Súbito sexo. Intrépido, clandestino. Secreto. Fugitivo, esgueirando-se por entre as sombras. Masculino e feminino, nada define.

Compromissado. Juramento. Advogado. Inscrito, portador, associado, regulamentado. Padronizado. Sóbrio. Mogno, mármore e carpete. Anulado. Prolixo e rebuscado. Prisioneiro. Um homem em crise. No meio do nada.

Reviravolta. Acidente. Ruptura e recomeço. Contador zerado. Tiozinho da Sukita. Velhos sonhos em novas companhias. Frescor. Vontade de ir com sede ao pote. Brilho nos olhos. Ousado. Futuro, à frente, adiante. Radiante. Oxigênio. Resgatado – com vida.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Rapidinhas comestíveis

CADA PÃOZINHO É UM FLASH Um leitor que está vindo a São Paulo pela primeira vez quer conferir nossas típicas superpadarias e me pediu algumas dicas. Bem, quem é de fora não deve deixar de visitar a mais emblemática delas, a vistosa Bella Paulista, quase uma atração turística da cidade. Sem falar que cada mergulho é um flash: o fervo gay é tão intenso que você nem precisa ir à boate depois. Pena que o padrão deles seja meio irregular - os doces e sorvetes são ótimos, mas os sanduíches freqüentemente chegam com o queijo esturricado. Ainda nos Jardins, outras opções são a Galeria dos Pães, pioneira no formato 24 horas, a St. Etienne, boa para tomar café da manhã, e a Benjamin Abrahão. Em Higienópolis, tem também a Villa Bahia, irmã mais comportada da Bella Paulista, e a Dona Deôla, que eu tenho achado cada vez mais simpática. Padaria é como pizzaria: todo paulistano adota uma para chamar de sua.

EU AINDA MORRO DISSO Enquanto o vício de algumas pessoas dá cadeia, o meu dá pneus. Estou falando de brigadeiros. Não consigo recusá-los, nem parar de comê-los enquanto a bandeja não estiver vazia. Já pensou uma doceira que se dedica exclusivamente a eles, com direito a versões diferenciadas, tipo brigadeiro branco com pistache ou nutella com avelã? Pois bem, São Paulo já tem... três: Maria Brigadeiro, Brigadíssimo e Brigaderia. Eu não tenho estrutura para isso! Outra tentação difícil de resistir são as cupcakes, aqueles bolinhos-bebê confeitados que nasceram nos EUA e viraram modismo guti-guti por aqui. Os melhores ainda são os da Wondercakes (o que é aquele de chocolate com morango? matador!), mas a Cupcakeria entrou na briga com tudo.

FIQUEI FROZEN Sobremesa bem mais leve e praticamente livre de culpas (uma porção pequena tem cerca de 100kCal e zero gordura), o frozen yogurt foi a febre do verão passado, mas continua firme e forte, mesmo com o frio. Aqui em São Paulo, a rede carioca Yogoberry teve que engolir o incômodo de ter uma concorrente de nome idêntico, a coreana Yogurberry (que não me convenceu). Minha preferida não era nenhuma delas, mas a YogoLove, também do Rio, menos azedinha e com textura próxima à do chantilly. Agora a rede de fast food italiano Subito abriu sua primeira YogoSub, no Conjunto Nacional, e chamou minha atenção por dois motivos. Primeiro: o frozen natural deles junta o sabor do Yogoberry e a textura do YogoLove. Segundo: há outros sabores bem criativos, como banana (que eu adorei) e lemon pie.

À PROCURA DA BATIDA PERFEITA Ironia do destino, Introspective vive pensando em comida, mas não sabe nem quebrar um ovo. Acho charmoso homem que sabe cozinhar, minha supermãe já cansou de oferecer umas aulas, mas quem disse que eu me animo? Melhor não. Para não dizer que sou uma negação completa, desenvolvi a receita da vitamina perfeita, e vou dividi-la com vocês. É só bater no mixer 2 bananas nanicas, 5 morangos graúdos (se forem pequenos, usem uns 6 ou 7), uma dose (um scoop cheio) de um bom whey protein sabor baunilha (o da Elite tem um gosto ótimo), 5 gotas de adoçante e completar com leite de soja Ades sabor frapê de coco (o pulo do gato está nesse detalhe). Cai superbem antes da academia.

É NOZES E falando em leite de soja (a sétima maravilha para quem tem intolerância à lactose, ou simplesmente o desejo de um dia ter uma barriga-tanquinho escândalo), a Ades lançou um novo sabor em série limitada: frapê de nozes. É meio enjoativo para tomar puro, mas fica perfeito misturado a uma xícara de café, quando o expediente ainda está na metade e você precisa daquele chica-chica-bum que dê fôlego extra para continuar.

BOM , BONITO & BARATO I Fiquem ligados: São Paulo terá mais uma edição da Restaurant Week a partir do dia 30/8. Desta vez serão 210 restaurantes participantes, e o preço do menu de almoço, composto por entrada, prato e sobremesa, subiu de R$27 para R$29 (o do jantar continua sendo R$39). Em ambos os casos, pede-se a doação de R$1, que será encaminhada à fundação Ação Criança. O site do festival já disponibilizou os cardápios e eu dei uma boa olhada. Para almoçar, gostei mais do Le French Bazar (recomendadíssimo!), do Beef & Chips, do L'Amitié, do Le Poème e do Pé de Manga; para jantar, minha lista inclui o Fillipa (que sempre vale a pena!), o Santa Gula, o Bistrô Faria Lima, o Casinha de Monet, o L'Amitié e o Thai Gardens.

BOM, BONITO & BARATO II Como nem todo mundo gosta do clima do SPRW (com casas lotadas e, em alguns casos, porções avarentas), vou dar três dicas com boa relação custo-benefício fora do festival. A primeira é o almoço executivo do P.J. Clarke's, restaurante americano do Itaim que faz a cheesecake mais incrível da cidade. Por R$31, você recebe salada ou sopa, o prato do dia e mais um doce ou fruta. O prato das sextas-feiras - medalhão com molho béarnaise - é uma delícia e, pasmem, o pudim de leite consegue a proeza de bater a cheesecake. O pequeno francês Poivre Restaurant, aberto na Vila Olímpia pelo dono do saudoso Pimentel, tem preços abaixo da média, com ótimos pratos entre R$30 e R$35. Outra sugestão barateira, esta ainda não testada, é o tailandês Nama Baru, na Pompeia, que faz curries de filé ou frango sempre abaixo dos R$30. Essa culinária costuma custar bem mais caro por aí.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Morte e prazer

Como já contei para vocês aqui, em matéria de filmes e seriados, não sou muito chegado em super-heróis, gnomos ou vampiros. Gosto daqueles que falam sobre relações humanas: Beleza Americana, As Invasões Bárbaras, C.R.A.Z.Y., O Albergue Espanhol, Amélie Poulain, Desperate Housewives... quanto mais "vida real", quanto mais eu puder me identificar, melhor. E sem violência gratuita, por favor. Dos gêneros que não me interessam, eu costumo passar longe, mas às vezes acabo vendo alguma coisa, involuntariamente, enquanto corro na esteira da academia. Nesse caldeirão entra diumtudo, desde filmes de ação, terror, guerra e suspense, até seriados policiais. E foi justamente vendo um seriado policial na esteira da academia que me veio o estalo para o post de hoje. Na tela, um serial killer russo dopava uma mocinha e a prendia numa cama, semiacordada entre a vida e a morte, meio lúcida mas indefesa, para violentá-la e matá-la lentamente.

O que chama minha atenção nesse tipo de entretenimento é a maneira como a morte é explorada. Nada de tiros, que são rápidos e imediatos: morte que se preza é aquela de "causa mecânica", que provoca sofrimento e faz a vítima nos brindar uma expressão de dor e desespero (com ou sem gritos, aí já é uma questão do estilo de cada "obra"). É uma morte que se estende por algum tempo, para que sua agonia seja contemplada e saboreada pela audiência. Um exemplo bastante ilustrativo é Premonição, um grande sucesso de bilheteria que já teve três continuações, e se resume a um desfile contínuo de mortes por acidentes macabros. Duas pessoas são tragadas por uma escada rolante de shopping center, outra morre afogada dentro do carro num lava-rápido, e por aí vai, até a película acabar [se você não conhece e ficou curioso, tem uma amostra bem desagradável do volume 4 aqui].

Alguns podem argumentar que, no gênero do terror, a presença (ou mesmo a simples iminência) da morte não é gratuita, mas o próprio combustível do suspense que sustenta o filme. OK, vamos pensar então nos seriados policiais do tipo CSI, que se multiplicam pelos canais de TV a cabo. Sem os mesmos ecos sobrenaturais dos filmes de terror, as mortes, geralmente causadas por assassinos seriais, não provocam tantos gritos. No início de cada episódio, é lançado um mistério, e os mocinhos-investigadores vão gastar a sola do sapato atrás de pistas e informações que possam levar ao culpado. Na medida em que suspeitos, testemunhas e afins vão dizendo o que sabem, e as peças do quebra-cabeça passam a se encaixar, as cenas dos assassinatos em flashback vão se repetindo, e repetindo, e repetindo.

As soluções da trama são precárias: os agentes têm a sorte de ir direto nas pistas certas, a tecnologia faz verdadeiros milagres, e tudo se desvenda sem maiores problemas. Fica evidente, portanto, que a "graça" (?) dos tais seriados não está na construção e desmantelamento dos enigmas, e sim na exibição das cenas de morte em si - os pontos altos de cada episódio. Dentre os diversos métodos possíveis, o estrangulamento é um dos mais adequados: a vítima se vê num crescente desespero, que contrasta com o semblante frio e impassível de seu algoz, enquanto sua vida vai se esvaindo. Se antes de morrer ela for torturada, melhor. O ritual de execução se desenrola num crescendo (prazer?), que culmina com o esgotamento da resistência, o instante da morte - o clímax. Que será repetido em vários ângulos a cada reconstituição do crime pelos investigadores. É um orgasmo com direito a replay.

Ver alguém gritando e virando os olhos enquanto é esmagado, as marcas da violência em um cadáver estendido no IML, a frieza do homicida operando a morte, tudo isso deveria ser agoniante e repulsivo. Mas, por algum motivo, filmes e seriados que exploram e celebram a morte fazem enorme sucesso. Não é possível que todos os fãs desses gêneros sejam psicopatas incubados que precisavam só de um empurrãozinho para sair por aí cometendo atrocidades. A hipótese que me parece mais razoável é que deve existir, em alguma salinha do inconsciente de pessoas "normais", um lado negro que extrai prazer da morte e do sofrimento alheio. Um sadismo camuflado, que não extrapola às vias de fato, mas se realiza com cenas de mortes e desgraças. Os produtores desses filmes e séries devem entender isso melhor do que eu. Pergunto: de onde virá esse fascínio tão mórbido?