terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Um balanço muito pessoal

De vez em quando, alguns leitores que me encontram pessoalmente dizem que gostariam de ler textos mais pessoais aqui. Costumo responder que não faço um blog na linha "meu querido diário", e que quem lê meus posts já está conhecendo um pouco do que sou, porque coloco muito de mim naquilo que escrevo. De qualquer maneira, acho que o post de hoje - o último do ano - vai agradar a esses leitores. É tempo de retrospectivas e, em vez de fazer um apanhado com ares jornalísticos, resolvi fazer um balanço bem pessoal, relembrando algumas coisas que foram marcantes na minha vida, neste ano cheio de acontecimentos bacanas.

EM 2008, EU... completei 30 anos de idade. Ganhei uma bicicleta do jeito que eu queria. E me presenteei com uma viagem muito especial à Europa. Comecei a raspar a cabeça com máquina zero. Bati a marca dos 100 mil acessos no blog. Passei um carnaval ensolarado em Floripa. Fui convidado para gravar quatro podcasts na Folha de S.Paulo. Peguei a barca para Niterói. Aliás, fui apenas quatro vezes para o Rio e consegui ficar seis meses sem pisar lá. Fiz quatro trabalhos para a revista DOM. Compus um samba-enredo parodiando a vinda de D. João VI ao Brasil. Brindei com champagne, com Absolut 10, com prosecco, com tequila (!) e até com jaegermeister. Tive um fim de semana micado em Porto Alegre. Fui entrevistado para o jornal Tribuna do Brasil, de Brasília. Entrevistei Malvino Salvador, Felipe Lira, Miro Moreira e André Almada. Acompanhei um amigão em sua primeira viagem a Buenos Aires e fiz as honras da casa. Conheci a suíte superluxo-megablaster do Motel Vip's. Gozei pela boca no Due Cuochi, no Sal Gastronomia, no Nam Thai, no Carlota, no Ruella e na doceria Brigadeiro. Ah, e também no Broccolino, na Usina de Massas, no Tokyo Eat, no Good Morning Vietnam, no La Crema Canela... Chorei copiosamente vendo Piaf. Aprendi a falar altas sacanagens em francês. Fiz a pegação do ano no Lab.oratory de Berlim. Conheci Vitória e adorei o carinho dos capixabas. Fiquei encantado com Historias de Chueca. Decidi parar de me machucar, e então não me machuquei mais. Comprei uma coleção de boinas incríveis. Fui entrevistado por três horas para uma tese de doutorado. Fui especial para algumas pessoas. Algumas pessoas foram especiais para mim. Continuo sendo o meu melhor amigo. Ri por último e ri melhor. E dei vários passos para me tornar aquilo que eu sempre quis ser.

20 SONS QUE BOMBARAM NO MEU iPOD. Amy Winehouse, "Back to Black". Axwell, "I Found You" (Axwells Remode). Rihanna, "Don't Stop The Music" (remixes do Freemasons e Peter Rauhofer). Freaks, "The Creeps (You're Giving Me)" (Vandalism Mix). Hot Chip, "Ready for The Floor". Olivia Newton-John, "Xanadu". Amy Winehouse, "Rehab" (Soulcast Mix). Tristan Garner, "Stomp That Shit" (Promo Dub). Goldfrapp, "A and E" (Hercules & Love Affair Remix). Madonna, "4 Minutes" (Bob Sinclar Space Funk Mix). Hercules & Love Affair, "Blind" (Frankie Knuckles Mix). Dangerous Muse, "The Rejection" (Disco Mix). Red Hot Chili Peppers, "Snow (Hey Oh)". Fischerspooner, "Never Win" (Mirwais Alternate Mix). Sébastien Tellier, "Divine". Roisin Murphy, "Overpowered" (Seamus Haji Remix). Amy Winehouse, "He Can Only Hold Her". Julieta Venegas, "Me Voy". The Ting Tings, "That's Not My Name". E o álbum Confessions on a Dancefloor inteirinho, da Madonna - o melhor disco de 2008 ;)

10 FILMES QUE MAIS ME AGRADARAM. Piaf. Fuera de Carta. Juno. Irina Palm. Baby Love. Mamma Mia. Meu Nome Não É Johnny. Morte No Funeral. Desejo e Reparação. Estômago.

5 JOGAÇÕES QUE VÃO FICAR NA MINHA MEMÓRIA. A manhã-tarde inesquecível no Berghain-Panorama, em Berlim. A GiraSol da véspera da Parada Gay, no Clube de Regatas Tietê, em São Paulo. O afterhours Souvenir, na semana do Circuit Festival, em Barcelona. A festa da Matinée na The Week, em Florianópolis. A dobradinha festival Creamfields + after no Caix, em Buenos Aires.

3 COISAS PARA ESPERAR EM 2009. Administrar melhor o meu tempo. Continuar crescendo. Viver bem e com prazer.

Aos amigos e leitores, declarados e anônimos, envio meu carinho e meus votos sinceros de um 2009 fantástico, acima de todas as expectativas. Até janeiro!

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Rio de Janeiro à vista


Mais um réveillon se aproxima e a chance de matar a saudade do Rio e de pessoas de que eu gosto me deixa feliz. Gosto de ir logo depois do Natal e ficar dez dias por lá mas, desta vez, vou passar a virada com minha família, que está precisando de mim, e viajar só no dia primeiro. Em três dias e meio, não vai dar para fazer tanta coisa, mas espero aproveitar o meu tempo com qualidade.

Na quinta, chego a tempo para a pool party da Rosane Amaral, a festa gay mais esperada dessa temporada (isso é fato). Os ingressos já se esgotaram e não comprei o meu, tomara que eu não tenha problemas na hora. Para a noite de sexta, tenho várias opções. Posso apostar na Combo, noite fixa mais bacana da "cena moderna" (esses rótulos...), no fofo Lounge 69. Ou talvez ir conhecer o Apple Mixxx, novo clube gay da cidade (mas que é super fora de mão! Barrinha, pra mim, só a de cereal). Ou ainda ver como ficou o Galeria depois da reforma.

Isso tudo se eu não resolver descansar (possivelmente estarei podre, ainda mais se o povo resolver emendar a quinta na E.njoy, num tal de Namastê) para aproveitar a praia no sábado. Aliás, confesso que estou mais animado para curtir o Rio diurno do que as jogações. Tanto é que nem estou me importando tanto com as festas que vou perder. Até estou curioso com a Maxima, no dia 30; pena que a Leopoldina foi misteriosamente gongada e a festa foi transferida para o Scala...

No capítulo comidinhas, andei vendo que, nesses seis meses em que estive longe, apareceu um monte de novidades para eu conferir. Só de japas, são três: o Boodah, em frente ao Galeria, o Popfish, temakeria dos donos do Sushi Leblon, e o Nao, restaurante que o chef do elogiado Shin Miura abriu no Fashion Mall (onde agora tem também um Sawasdee, o tailandês gostoso de Búzios). Tem também o Líquido, na Praça N. Sra. da Paz, que serve comida saudável e uns crepes indianos, o Lorenzo, um charmoso bistrô no Jardim Botânico, e uma pizzaria linda chamada Stravaganze, em Ipanema. Isso sem falar no Ásia e no Térèze, ambos em Santa Teresa. E nos que já estavam na minha fila de espera...

Claro que terei que escolher algumas coisas e abrir mão de outras. Mas o mais importante será encontrar os amigos cariocas e me divertir. E, se não for pedir demais, que venham uns dias de sol no ano novo, pra tudo ficar ainda melhor. Quem sabe dessa vez eu não consigo finalmente conhecer a Vista Chinesa, que ele prometeu me mostrar. Ver o Coqueirão invadido definitivamente pelas bees que iam pra Farme, e também dar uma olhada nos novos quiosques de Copacabana (até levei um susto quando a Junior recomendou o Rainbow, vamos ver se ele deu uma levantada). Planos demais para apenas três dias e meio. Mas às vezes o melhor a fazer é deixar a vida nos levar...

[Foto: Piscina do Hotel Fasano, clicada por Ricardo Freire]

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Urrul, o cinema é nosso!

O surgimento das novas mídias trouxe mudanças fantásticas ao universo da comunicação. Entre as novidades, uma das mais importantes é a participação do público no processo de produção e gestão de conteúdos. Se antes éramos meros receptores estáticos, agora só é passivo quem quer (ueba!). Podemos começar um blog, produzir conteúdos especializados sobre um certo assunto e emitir opiniões de forma independente. Formar uma banda de rock e distribuir nossa música sem intermédio de uma gravadora. Produzir um vídeo e fazê-lo ser visto por milhões de pessoas. Ou mesmo socializar nosso conhecimento participando da redação de uma grande enciclopédia comunitária. Agora, mais uma possibilidade se abre: a de escolher os filmes que queremos ver - não em casa, mas no próprio cinema.

Quem está por trás da novidade é a MovieMobz, uma comunidade virtual que coordena a mobilização de cinéfilos e faz a ponte entre eles e as salas de exibição. A idéia é tão simples, que a gente até se surpreende que ninguém pensou nela antes. Você se cadastra, cria seu perfil, escolhe o filme que quer ver e também o cinema de sua preferência. Isso começa uma mobilização, à qual aderem outras pessoas, entre membros da comunidade e amigos que você convidar. O site gerencia o processo e faz a sessão acontecer (veja como funciona, passo a passo). É a filosofia do "cinema por demanda": a programação das salas, antes imposta pelos distribuidores, passa a ser definida pelo próprio público, que decide o que quer assistir, quando e onde.

E o que assistir? As opções são muitas. Pode ser aquele blockbuster que você não teve tempo de ver e já saiu de cartaz. Ou uma dessas produções gringas bacanas que, por razões comerciais, nem chegaram a entrar no circuitão brasileiro. Ou mesmo aquela fita gay que só passou uma única vez na Mostra ou no Mix e você não conseguiu conferir, porque o horário era inviável ou a sessão lotou. Pode até ser um clássico do cinema - basta que o filme tenha uma versão digitalizada (aos poucos, a comunidade irá formando um acervo digital, que poderá ser exibido ao público). Você escolhe, começa a mobilização e a comunidade cuida do resto.

O consumidor realiza o desejo de ver o filme escolhido no conforto de um cinema e também ganha a chance de conhecer pessoas que têm as mesmas afinidades, tanto na comunidade como na própria sala de exibição - já que todos estão ali unidos pelo interesse por aquele filme. Os cinemas lucram com a possibilidade de adequar sua programação ao desejo de seus consumidores, o que aumenta a taxa de ocupação das salas e gera fidelização. E quem faz filmes também se beneficia, porque passa a ter um canal de contato direto com seus públicos.

O MovieMobz começou em julho deste ano, no Rio de Janeiro, e hoje promove sessões em 122 salas de exibição de 18 cidades brasileiras. Hoje, por exemplo, a comunidade está promovendo uma sessão do filme Juno - um dos filmes mais fofos que passaram esse ano, trailer aqui - no Espaço Unibanco da Rua Augusta, às 22h. A sessão é aberta ao público e o preço é mais do que camarada: R$6, com direito a meia-entrada. Há vários outros filmes com sessões marcadas no site. Iniciativas bacanas como essa precisam ser incentivadas, portanto vamos prestigiar.

sábado, 20 de dezembro de 2008

São Paulo é um grande show da Madonna

Dezembro é sempre uma época atribulada por conta da TPN, a tal tensão pré-natalina. Com o ano letivo terminando, empresas e escritórios correm para terminar o que precisa ser concluído antes do recesso. Depois vêm os inevitáveis almoços e happy-hours de confraternização (pesadelo de 4 entre 5 bees que precisam fazer a linha no trabalho). E a imposição cultural do consumismo desenfreado leva todo mundo a se descabelar em shopping centers atrás dos presentes de Natal. Todo ano é assim (o que varia é a quantidade de pessoas que a gente decide presentear).

Neste ano, porém, São Paulo parece estar tomada por um estado de euforia e vigília maior. Não sei o que está acontecendo, mas o trânsito está muito pior, tem muito mais gente na rua. Ontem à noite, as largas calçadas da Paulista estavam tão abarrotadas de gente conferindo a decoração natalina da avenida (ela, o Trianon, o Parque do Ibirapuera e a Ponte Estaiada estão incríveis) que, por alguns momentos, parecia que eu estava andando em Nova York. Todo mundo está agitado, tudo tem fila, tudo está lotado - e não apenas as zonas comerciais, onde isso era de se esperar. A impressão que se tem é que São Paulo é um grande show da Madonna, mas na hora da dispersão - quando o povo se liga que a tia não vai fazer bis e começa a se movimentar em todas as direções possíveis ao mesmo tempo.

Aliás, os shows dela devem estar ajudando a engrossar a muvuca por estas bandas. Especula-se que a injeção de dinheiro dos visitantes atinja milhões de reais. Apesar disso, ainda tem ingresso sobrando - e muito. Fiquei com pena dos fãs que passaram noites acampados na fila da bilheteria ou viveram momentos de pânico com os tropeços do sistema da Tickets4Fun pela internet. Enquanto os mais histéricos pagaram 720 reais ou até mais para a pista vip (que ele mandou avisar que é tudo nesta vida), agora que os ingressos encalharam os cambistas, desesperados, tentam minimizar os prejuízos queimando as entradas a 50, 60 reais - a reportagem da Folha de S.Paulo conseguiu comprar pista vip a pífios R$ 30. Por esse valor, até eu iria ao show, e sem reclamar do repertório.

Agora que Madonna está encerrando a turnê mundial, será que ela vai aproveitar e se jogar por aqui, nesta cidade que tem uma das melhores noites do mundo? Não imagino a diva chegando de surpresa na The Week (se nem o André Almada as bibas deixam em paz, imaginem ela... não teria 5 minutos de diversão), mas nunca se sabe. Talvez armem uma festa fechada para ela em algum lugar. Nem sei se eu teria alguma coisa a dizer a Madonna, mas gostaria de tirar uma casquinha de algum dos dançarinos. Com ou sem eles, vou me jogar hoje - é a última chance de ver todo mundo antes da dispersão do fim do ano, quando muitos vão passar o Natal com a família em outras cidades.

E depois que baixar a TPN aqui em São Paulo, sei que o corre-corre e a 'função' vão apenas mudar de endereço... mais um réveillon carioca está chegando, com pencas de amigos queridos para ver, festas para conferir (ou não) e a impossível vontade de estar em vários lugares ao mesmo tempo. Ainda tenho pique e interesse em tudo, mas a cada ano vou ficando mais tranqüilo, mais seletivo e menos ansioso. Nossos momentos de lazer têm que ser fonte de prazer, não de cobranças, mas só agora estou finalmente assimilando isso. Ainda bem.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Historias de Chueca, nosso livro de cabeceira

Além de usar este espaço para falar dos meus passeios, das comidinhas que eu experimento por aí, de música, das festas e do mundo gay, resolvi passar a fazer comentários também sobre alguns dos livros que eu leio. E já começo com uma boa indicação: um livro absolutamente delicioso que eu trouxe da Espanha, chamado Historias de Chueca.

O livro é narrado em primeira pessoa por Alejandro, jornalista que deixa o pequeno pueblo em que nasceu para trabalhar e viver sua homossexualidade em Madrid. Logo na primeira noite, enquanto espera mesa para jantar na Chueca, o fervido bairro gay da cidade, ele acaba conhecendo Miguel, outro interiorano recém-chegado para tentar a sorte na capital. Eles se tornam amigos inseparáveis, praticamente irmãos, ainda que passem a enveredar por caminhos diferentes. Começam a treinar na academia mais gay do pedaço e Miguel logo descobre o mundo encantado das musculocas (versão espanhola das nossas barbies), em que se joga de cabeça, passando por todas as transformações necessárias.

A partir daí, é na odisséia pessoal de Miguel, acompanhada de perto pelo narrador Alejandro, que o livro irá se desenrolar. Enquanto eles fazem suas descobertas e tomam partido no novo mundo que lhes é apresentado, diversas pessoas vão cruzando seu caminho, num rico desfile de personagens. Entre as histórias e "causos", vemos aquilo que o universo gay tem de mais característico: a constante pressão para ser um maricón 10, a tirania do corpo perfeito, a ostentação material e o jogo das aparências, as festas e chillouts regados a sexo e drogas, o submundo dos michês e suas regras próprias, o apoio e o colo das fiéis amigas fag hags, o ciclo de arranjar namorado no inverno e livrar-se dele para galinhar no verão, as férias de hedonismo no balneário gay (Sitges ou Ibiza, mas poderia ser Ipanema), o fascínio em torno dos atores pornô, os galãs da TV que vivem no armário e aprontam horrores por trás das câmeras, os ocasionais lampejos de vazio existencial em meio à superficialidade... nada fica de fora desse verdadeiro compêndio antropológico.

O mais legal é que o autor, Abel Arana, não se porta como um chato que vê tudo de fora, com ares de recriminação; embora o protagonista das experiências mais insólitas seja Miguel, Ale não deixa de participar ativamente do mundo que descreve, e também aproveita cada experiência. O texto é inteligente e divertido, com momentos de humor finíssimo e outros de um pastelão que é típico dos espanhóis. Às vezes, parece singelo como uma crônica de Walcyr Carrasco na Vejinha, mas um olhar mais atento consegue captar uma alfinetada elegante, um sutil respingo de deboche e ironia, sempre na dose certa, sem ser over. No final de cada capítulo, o narrador resume suas conclusões em tópicos, com um tom professoral que se revela impagável (afinal, por mais que aquelas lições sejam reais, não dá para tratar aquilo como um assunto sério).

Quem tem um conhecimento intermediário da língua espanhola (portunhol aqui não resolve!) já consegue tirar proveito da leitura com a ajuda de um bom dicionário. Os que já estiveram na Espanha terão mais facilidade em visualizar os cenários retratados. Incomoda um pouco a freqüente citação, em comparações ou piadas, de cantoras e atrizes espanholas que não fazem parte do nosso universo (Abel Arana trabalhou como produtor musical de várias dessas divas). Mas isso não chega a atrapalhar os grandes momentos cômicos do livro, que são muitos e, mais ainda, são universais. Quem freqüenta o meio gay do eixo Rio-São Paulo sentirá uma identificação imediata. Nossa geração The Week está inteirinha retratada ali, com tudo que ela tem de caricato, de cômico e de trágico. Um riquíssimo raio X do que é ser gay numa metrópole globalizada, nos dias de hoje. Se Queer As Folk é o seu seriado, Historias de Chueca deveria ser o seu livro de cabeceira. Quando aquele seu amigo que foi ser chapero em Barcelona vier posar de "bunita" no Carnaval, peça para ele te trazer um exemplar.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

A fênix de Santa Teresa

Minha primeira visita ao Rio de Janeiro aconteceu às vésperas da virada do ano 2000, o tão falado "Réveillon do Milênio", que mereceu comemorações extraordinárias na orla de Copacabana e em vários outros lugares do mundo. Na época, a pista da Le Boy, líder da noite gay da cidade, era embalada pelo remix de "Bills Bills Bills", do finado Destiny's Child; a cultura barbie estava em latência e havia muito menos drogas disponíveis. Meus cicerones foram dois amigos arquitetos, um paulista e um português. Longe de ir correndo para o açougue da Farme, eles estavam mais interessados em fazer um tour urbanístico pelo Centro da cidade.

O caminho natural de toda biba principiante seria garimpar alguma biboca na Nossa Senhora de Copacabana, mas meus amigos decidiram que ficaríamos hospedados em um bairro pitoresco, freqüentado por intelectuais e com um astral peculiar: Santa Teresa. O lugar tinha seu charme, parecia uma "Vila Madalena alpina", com ladeiras íngremes de paralelepípedos, casarões antigos, muito verde e o tal bondinho. Mas eu também queria flanar por Ipanema e ir à praia, o que transformou nossos traslados diários em uma verdadeira via-crúcis: bondinho até a Carioca (no terceiro dia, isso não tinha mais a menor graça), depois metrô até (a novíssima estação) Cardeal Arcoverde e ônibus até a Prudente. Zzzzz.

Nossa morada carioca era o Hotel Santa Teresa, um casarão de 1850 que havia sido a antiga sede de uma fazenda, a uns 200m do Largo dos Guimarães. O preço do pacote de réveillon estava bastante camarada. Como a construção era antiga, os quartos eram espaçosos, mas havia uma sensação de total abandono. Tudo rangia, tudo urgia por um toque de tinta, algum adorno que desse vida àquele gigantesco casarão de bisavó. Ao mesmo tempo, a área externa era muito agradável, com piscina e uma vista panorâmica sensacional, para a zona norte (um ângulo diferente do que estamos acostumados a ver no Cristo, no Pão de Açúcar, nas Paineiras). E o pôr-do-sol era lindo. Eu via ali um enorme potencial sendo muito mal-aproveitado, desperdiçado mesmo. Com um "banho de loja" criterioso, que não desvirtuasse a essência do lugar, o Santa Teresa poderia se tornar um endereço bem bacana.

Nove anos depois, parece que alguém finalmente leu meus pensamentos. O Santa Teresa passou por uma senhora repaginada e ficou quase irreconhecível, com cara de hotel-boutique. Ao mesmo tempo, seu charme rústico-colonial parece ter sido preservado, com o uso de matérias-primas naturais e recicladas, criando um resultado bastante sóbrio e brasileiro. A piscina ficou linda, há um lounge ao ar livre (com o estranho nome de Bar dos Descasados), e até um spa aberto ao público. Como estou há seis meses sem dar as caras no Rio, tudo o que vi foi pelo site do hotel e pela entusiasmada resenha da Alexandra Forbes, uma dessas espertinhas que conseguiram transformar em ganha-pão o prazer de ser bon vivant. Achei tudo de muito bom gosto e fiquei mais curioso em conferir quando li sobre o Térèze, o restaurante do hotel, que faz a linha brasileira-contemporânea. As fotos da Alexandra me deixaram com água na boca!

Santa Teresa sempre teve uma vocação bicho-grilo muito bem-resolvida. Mas o bairro tem fôlego para ir além. Fiquei feliz com a notícia da reinauguração do hotel, acho que ele tem tudo para conquistar uma fatia de turistas que já ficou trocentas vezes em Ipanema e quer sair do lugar-comum, ver outros ares. Não duvido que os estrangeiros se encantem com ele, e que logo surja um novo movimento de valorização do bairro, com mais lugares novos e charmosos abrindo nesse embalo. O lado ruim é que esse hype certamente inflacionará os preços da região (que, até então, de salgado só tinha o restaurante Aprazível). Mas sempre haverá os lugares mais tradicionais, como o Bar do Arnaudo, para quem quiser algo mais roots e honesto. E é essa mistura que deixa a cena toda mais interessante.

Como terei apenas quatro dias no Rio, uma porção de gente para rever e pelo menos duas festas que pretendo conferir, talvez a minha ida a Santa fique para a próxima visita. Eu me conheço e sei que não vou querer abrir mão de ferver com os amigos e curtir o buxixo de Ipanema. Mas, se o tempo estiver fechado (vamos bater na madeira, toc toc toc, mas, se o verão passado foi abençoado, o retrasado foi um desastre), um pulinho em Santa Teresa será uma ótima opção para um dia sem praia. [Fotos: divulgação/Hotel Santa Teresa e Alexandra Forbes]

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

As Cinzas de Glorinha

A festa acabou, o circo passou. O som foi desligado. As passistas tiraram os saltos. O gelo no isopor derreteu. Os garotões sumiram na dispersão. A bebida, mesmo quente, acabou. A maquiagem escorreu. O cabelo desmanchou. As lantejoulas ficaram pelo caminho. O plantonista tomou um café com leite e foi para o jornal redigir a notícia. Os seguranças afrouxaram as gravatas e foram tomar sua cachaça (com exceção de um, que foi para um puxadinho próximo com uma rapariga).

A festa acabou, o circo passou. A luz se apagou. O canto se calou. A onda baixou. A chapa esfriou. Quem tinha para onde ir, foi. Quem não tinha, saiu vagando feito vira-lata. Até o bêbado interrompeu seu sono profundo, levantou-se e tomou seu rumo. Um papel de Eskibon se arrastou solitário, em círculos, pelo chão. As glórias, as pétalas de rosa e as lembranças do que foi vivido ali foram sendo varridas pelos garis, em direção ao esquecimento eterno do bueiro. A festa acabou, o circo passou. A nuvem desceu. Não é um bom dia para comprar flores, nem chocolates.

Debruçada no parapeito de sua janela, enquanto a tenda é desmontada na praça, lá embaixo, Glorinha apenas observa, com os olhos dispersos no horizonte. Resignada, ela assiste calada ao desmanche do que poderia ter sido, mas não foi. Mais uma vez, aquele não era para ter sido o seu Carnaval. Procurava nas estrelas a resposta que não tinha dentro de si. Quando terá chegado a sua hora, afinal? Quando enfim chegará o dia e a vez de Glorinha?

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

10 álbuns cem por cento bacanas

Em um trecho do post anterior, escrevi que Confessions of a Dancefloor, da Madonna, é um disco bom do começo ao fim, coisa rara no mercado - o mais comum é encontrar álbuns irregulares, que se apóiam em um, dois ou no máximo três singles bons, mas não conseguem manter o nível de inspiração nas outras faixas.

Claro que isso não inclui as coletâneas, que reúnem o crème de la crême do repertório de um artista (ou pelo menos as músicas mais conhecidas): qualquer grupinho razoável, depois de alguns anos de carreira, consegue encher um "greatest hits". Difícil mesmo é produzir um álbum de estúdio inteirinho bom, que não dê vontade de dar skip em nenhuma faixa (pior era quando tínhamos que dar fast forward na fita e calcular no olhômetro se a música fraquinha já tinha passado...)

É difícil, mas não impossível. Fiz uma lista de discos que considero bacanas do início ao fim. Em alguns deles, as faixas mais legais nem são as que fizeram sucesso. Outros (Pet Shop Boys, Madonna, Zero 7) não contêm as minhas faixas preferidas, mas são os álbuns mais uniformes, coesos e bem-resolvidos. Foi apenas esse o critério para o álbum entrar nessa lista. Uma porção de grupos que eu adoro, como Queen, Depeche Mode e Beatles, não aparecem aqui, porque, mesmo tendo criado grandes canções, não chegaram a gravar um álbum que fosse 100% incrível.

1) R.E.M., Automatic For The People, 1992
Depois de ganharem projeção mundial com Out of Time, que continha os hits "Losing My Religion" e "Shiny Happy People", Michael Stipe e seus colegas gravaram um álbum mais intimista, com belos arranjos de cordas. Sem hits grudentos, esta obra-prima é perfeita para uma tarde de inverno. ADORO: "Find The River", "Nightswimming", "Drive" e "Everybody Hurts".

2) Air, Moon Safari, 1998 [foto]
Primeiro álbum dessa dupla francesa que eu amo (antes, eles gravaram um EP), Moon Safari é um clássico da eletrônica, misturando batidas calminhas, vocoders a rodo e um irresistível ar retrô. O maior hit deles, "Sexy Boy", está aqui. Seis anos depois, eles lançaram outro disco que também considero muito bom, Talkie Walkie. ADORO: "Ce Matin Là", "Talisman", "Remember" e "Kelly, Watch The Stars".

3) UB40, Rat in The Kitchen, 1986
Conhecidos nas cervejadas universitárias do planeta por "Red Red Wine", os ingleses do UB40 incorporaram sofisticação instrumental a um gênero pobre e rudimentar como o reggae. Rat In The Kitchen é uma festa com muitos saxofones, backing vocals teatrais e bom humor, mesmo quando as letras têm um tom de crítica social. ADORO: "Don't Blame Me", "The Elevator" e "Sing Our Own Song".

4) Marisa Monte, Memórias, Crônicas e Declarações de Amor, 2000
Ela passa a impressão de ser um tanto presunçosa, como Gal. E vamos combinar que os Tribalistas eram um pé no saco. Mas este disco tem letras lindas, arranjos delicados e fala de amor sem ser meloso. Evoca um fim de tarde bem gostoso no Rio de Janeiro. Nem precisava ter "Amor I Love You". ADORO: "Sou Seu Sabiá", "Gotas de Luar", "Gentileza" e "O Que Me Importa".

5) Paralamas do Sucesso, Nove Luas, 1996
Depois de uma fase experimental e chata, foi com esse álbum que os simpáticos Paralamas fizeram as pazes com o sucesso. As músicas são alegres e mantém o padrão de letras inteligentes e instrumental requintado do trio. Mas Nove Luas é o trabalho mais uniforme da discografia deles. As faixas que eu destaquei são lindas. ADORO: "Sempre Te Quis", "Um Pequeno Imprevisto" e "Busca Vida".

6) Amy Winehouse, Back To Black, 2006
Não deixa de ser uma surpresa que uma garota que foi beber na fonte das divas soul dos anos 60 tenha se tornado o maior fenômeno fonográfico do mundo em 2007. Mas Amy tem uma voz pungente, fala sobre amor e perdas com toda a propriedade do mundo, e os desatinos de sua vida pessoal só ajudam a reforçar o mito. Torcemos para que ela segure a onda e dure. ADORO: "Back to Black", "Tears Dry On Their Own", "Love is a Losing Game" e "He Can Only Hold Her".

7) Pet Shop Boys, Behaviour, 1990
Enquanto o álbum anterior, Introspective, dialogava diretamente com as pistas, este veio numa direção bem mais melancólica, trazendo algumas das faixas mais bonitas da carreira da dupla. "So Hard" e "Being Boring" foram hits, mas as faixas de que mais gosto em Behaviour são justamente as que não se tornaram conhecidas. Um belo disco, de cabo a rabo. ADORO: "My October Symphony" e "Jealousy".

8) Madonna, Confessions on The Dancefloor, 2005
Depois dos onze parágrafos do post anterior, não vou mais me alongar nesse assunto. Madonna vem intercalando discos bons e uós: Music (bem bom), American Life (uó!), Confessions (tudo!) e Hard Candy (parem de babar ovo, o disco é fraquinho, vai). Mesmo que sua próxima cria seja inspirada (nunca se sabe qual direção ela seguirá), não consigo imaginar que venha outro álbum tão coeso quanto este. ADORO: "Get Together", "Future Lovers", "Sorry", "Forbidden Love" e "Jump".

9) Nirvana, Nevermind, 1991
Com o célebre disco do bebê nadando pelado, o perturbado Kurt Cobain liderou o estouro do "grunge" de Seattle. Músicas cruas, que vão direto ao ponto, sem grandes virtuosismos instrumentais, e algum nonsense nas letras fizeram de Nevermind um clássico. Que fica ainda melhor quando vemos o lixo repetitivo que o rock americano se tornou. ADORO: "Come As You Are", "Stay Away" e, especialmente, "On A Plain".

10) Zero 7, When It Falls, 2004
Calminhos e melódicos, misturam downtempo, trip hop, folk e acid jazz. O resultado é difícil de qualificar ("chillout erudito"?), mas melhor do que encontrar um rótulo é simplesmente curtir. Os hits do Zero 7 ("Destiny" e "Give It Away") estão no disco anterior, Simple Things. Mas este aqui tem um resultado mais homogêneo, especialmente se for ouvido de trás pra frente, ou seja, invertendo a ordem das faixas. ADORO: "Passing By" e "When It Falls".

ALGUNS OUTROS DISCOS QUE EU CURTO... Foo Fighters, There is Nothing Left To Lose, 2000; Ana Carolina, Ana Carolina, 1999; Cranberries, To The Faithful Departed, 1996; Pearl Jam, Pearl Jam, 1992; Cássia Eller, Com Você... Meu Mundo Ficaria Completo, 1999; Barão Vermelho, Puro Êxtase, 1998; Blur, Parklife, 1994; Jewel, Spirit, 1999; INXS, Kick, 1987; The Breeders, Last Splash, 1994; Legião Urbana, As Quatro Estações, 1989; Oasis, (What's The Story) Morning Glory, 1995; No Doubt, Tragic Kingdom, 1997; Aerosmith, Nine Lives, 1997; Van Halen, Balance, 1995; Extreme, III Sides to Every Story, 1992. E muitos outros, mas aí eu sempre pulo algumas músicas.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Confissão tardia (ou: Tony, você tinha razão)

Gosto da Madonna e tenho um conhecimento razoável da trajetória dela, mas estou longe de ser um fã descontrolado, daqueles que acampam em fila de bilheteria, colecionam recortes de revista e se descabelam em saguão de hotel. Por isso, eu jamais poderia imaginar que, apenas quatro dias depois de ter falado sobre ela no blog, eu voltaria a escrever sobre o mesmo assunto. Mas serei obrigado a fazê-lo: aconteceu algo inesperado no fim de semana.

Como não sou maníaco por ordem e limpeza, não arrumo meu quarto todos os dias - espero até a bagunça me incomodar, ou eu não conseguir achar algo de que esteja precisando. No sábado passado, resolvi parar de protelar e me lancei numa corajosa faxina, daquelas que levam horas. Quando escuto música em casa, sou incapaz de ouvir um CD inteiro: escuto algumas faixas e saio trocando. Também não tenho saco de programar playlists longas de MP3 (como planejar o que eu terei vontade de ouvir daqui a 40 minutos?). Mas não dá para interromper uma boa faxina para mexer no som a toda hora, então resolvi colocar um CD do início e deixar rolar.

Quando Madonna lançou o single "Hung Up", no final de 2005, achei o refrão bem chatinho (apesar de gostar da faixa sampleada do ABBA) e não me animei a ir atrás do álbum. Aí veio a faixa de trabalho seguinte, "Sorry", que os Pet Shop Boys deram uma sutil maquiada e eu adorei. Baixei a música e resolvi o problema. No começo de 2007, fui visitar um grande amigo e o CD Confessions on a Dancefloor estava tocando. A faixa "Get Together" chamou minha atenção, mas eu estava mais interessado na nossa animada troca de confidências que na música ambiente, então nem reparei direito no resto do disco.

No ano seguinte (este), Madonna resolveu se cercar dos produtores hypadinhos do momento e lançou um álbum novo. Obcecada em parecer urbana, antenada, street girl, ela acabou soando como qualquer cantorazinha da hora, menos ela mesma. Os singles me deram uma preguiça gigante (curti apenas o remix do Bob Sinclair para "4 Minutes") e condenei Hard Candy ao mesmo desprezo mortal que eu nutro pelo American Life (2003). Veio a turnê, o anúncio das datas no Brasil, o quiproquó dos ingressos... E eu nem tchuns. Até que, há algumas semanas atrás, uma força desconhecida me levou a pedir para o meu amigão madonnamaníaco me fazer uma cópia... não do Hard Candy, mas do Confessions.

E adivinhem quando eu finalmente fui ouvir Confessions? Sim, durante a faxina de sábado. Três anos depois, já superado o bode da superexposição, "Hung Up" não soou tão chatinha. "Get Together" me levou na mesma viagem virtual pelo Elevado do Joá que eu descrevi aqui. Aí começaram as faixas que eu ainda não conhecia... e alguma coisa bateu dentro de mim (ui!). Achei "Future Lovers" incrível, ainda mais eletrônica que "Get Together" (como é que não ganhou as pistas?), aumentei o volume na hora para sentir aquela batida gostosa. Fiquei surpreso com "I Love New York": Madonna flertando com o rock (!) e criando um refrão absolutamente bobo e bom de cantar, na melhor linha "a-la-la-ô".

Com "Forbidden Love", o disco me ganhou de vez. É meio lenta, mas também levemente dançante, fofinha - já me vi na pista numa festa gay gigante, naquele momento em que o DJ dá uma baixada no set e coloca algo fofo, pra gente que está fofíssimo abraçar e beijar bastante. E de repente o disco emenda a introdução de "Jump", aquele baixo funkeado delicioso, rebolativo, meio Scissor Sisters em "Comfortably Numb", meio Queen em "Another One Bites The Dust", e abri um sorriso... a melodia de fundo desenvolve num crescendo de expectativa, otimismo, felicidade. "Jump" tocava por aí e eu achava sem graça, agora vejo tudo com outros olhos, parece que estou na mesma onda. Fui eu que mudei?

Dali pra frente, foi uma surpresa atrás da outra: todas as faixas têm luz própria, é um disco prazeroso de se ouvir de cabo a rabo (exceção à regra do álbum irregular puxado por dois ou três singles). Até "Isaac", um vôo bastante arriscado, com trechos de uma cantiga religiosa em hebraico, tem um resultado harmonioso. Até a faixa-bônus ("Fighting Spirits") me convenceu, o que também é raríssimo. Fui obrigado a reconhecer, mais de um ano depois, que Tony estava certo: Confessions é mesmo o melhor álbum da carreira de Madonna (e não Music, como eu escrevi no ranking, que obviamente já corrigi). O disco é simplesmente sensacional.

O resultado disso é que Confessions embalou não só a minha faxina (que eu interrompi depois de três horas, porque o dia estava bonito demais lá fora), mas todas as minhas sessões de música de sábado até hoje. Estou encantado com o álbum, que curto mais a cada nova audição. Liguei pro meu amigo, ele se divertiu com o meu surto e disse que eu tinha que ver o DVD da turnê. Marcamos ontem na casa dele e foi outro embasbacamento: a Confessions Tour foi incríííííível! Muito mais bacana do que a Sticky & Sweet que bate às nossas portas (como eu posso comparar? porque a S&S já está inteira no YouTube, oras).

A primeira razão é óbvia. As duas turnês estão baseadas no repertório dos discos que promovem; se Confessions é superior a Hard Candy, os shows também serão, pelo menos do ponto de vista musical. Em termos de mise-en-scène, a turnê anterior foi igualmente megalomaníaca, com números de grande plasticidade visual, bailarinos roubando a cena com danças absurdas, palco giratório, blá blá blá. Mas achei tudo mais bonito: os figurinos, o repertório em si, ela cantando "Live To Tell" pendurada numa cruz, o perfume S&M do começo do bloco "hípico", a emocionante versão de "Paradise (Not For Me)" em dueto com o cantor de "Isaac"...

Aliás, as novas roupagens para as músicas antigas são uma atração à parte. Conseguiram transformar aquela coisa insossa e insuportável chamada "Erotica" num coquetel de house e disco saboroso e chique, enquanto "La Isla Bonita" ficou acelerada, rebolativa, escrachada, quaquá, divina. Até repensei minha resistência inicial e hoje acho que Madonna tem mais é que dar uma oxigenada nos clássicos mesmo. Pelo que vi da Sticky... na internet, ela cagou "Vogue" e "Like a Prayer", mas deixou "Into The Groove" bacanérrima (as projeções do Keith Haring casaram perfeitamente) e surpreendeu novamente ao transformar a linda "Borderline" (uma das minhas preferidas) num rock com cara de comercial de cigarros Hollywood de 1984.

Mas o saldo da Sticky & Sweet ainda é negativo demais para me fazer ir ver o show, I'm sorry. Tem muita bobagem no setlist e pouca coisa que seja do meu gosto. Tá, não vou mais ficar chochando, vai quem quer e pronto. Quisera eu ter tido a chance de ver a Confessions Tour!!! Pelo menos a turnê não veio para a América Latina, então não fui eu que fiz carão para ela. Mas, se eu soubesse que o disco era tão bom, talvez até tivesse me animado a dar um pulinho rápido em Londres, Paris ou NY, por cinco dias que fosse, para viver esse espetáculo mágico (em que até "Hung Up" ficou grandiosa, como gran finale). Não foi possível, mas não tem problema: vou viver isso no meu momento, que é agora. Enquanto todos vocês estão fazendo força pra engolir Hard Candy a tempo de cantar as letras no Morumbi ou no Maracanã, eu continuo aqui com o Confessions no repeat, firme e forte e sem vontade de parar, em CD e DVD. E digo mais: possivelmente, é ele que vai dar a cara do meu verão.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Algumas dicas de Vitória e Vila Velha

Minha passagem pelo Espírito Santo foi curta e a pesquisa prévia que eu gosto de fazer antes de viajar foi bastante corrida. A chuva atrapalhou o passeio e me impediu de ver muita coisa. Por isso, eu não teria como fazer um mini-guia nos moldes do de Curitiba, por exemplo. Vou apenas compilar o que eu vi e descobri, sem nenhuma pretensão de ser completo, assim eu mesmo poderei consultar o texto quando chegar a hora de voltar a Vitória, onde meus novos amigos capixabas já estão esperando a minha visita (com muito sol, espero!).

PASSEAR
Cheia de verde e toda recortada pelo mar, Vitória é uma cidade agradável. A melhor combinação desses dois ingredientes, você vê na Praça dos Namorados, espécie de "Aterro do Flamengo" que envolve os prédios da Praia do Canto, e nas ilhas do Frade e do Boi, com casas de alto padrão e prainhas tranqüilas. O centro histórico está nas imediações da Cidade Alta, com um casario antigo que lembra Salvador - dá para visitar a Catedral Metropolitana e o Palácio Anchieta. O Parque da Pedra da Cebola é simpático para um piquenique. No capítulo praias, o calçadão de Camburi é bom para correr ou pedalar, mas para entrar na água o melhor é ir para Vila Velha, do outro lado da Terceira Ponte. A Praia da Costa e Itapoã (metades de uma mesma orla) são as mais bonitas, enquanto Itaparica tem um pequeno trecho gay. Ainda em Vila Velha, não dá para perder o Convento da Penha, no alto de um morro de onde se vê a Terceira Ponte e Vitória. Aliás, se você gosta de vistas panorâmicas, outra dica é o Parque da Fonte Grande, que tem a melhor vista da cidade (infelizmente, não pude ir por causa do mau tempo).

COMER
Comece o dia na Monte Líbano, na Praia do Canto, uma incrementada padaria de dois andares com farto bufê de café-da-manhã e bons sanduíches no cardápio. Tive um orgasmo com o café gelato (café, leite, leite condensado, ovomaltine, sorvete, chantilly e cobertura de chocolate). Para saborear frutos do mar e uma boa moqueca capixaba, o Pirão, o Caranguejo do Gil e o Partido Alto (que usa o logotipo da novela de mesmo nome, que passava em 1984) são tradicionais. Outras opções são o Caranguejo do Assis, sucesso absoluto em Vila Velha, e os vários restaurantes da Ilha das Caieiras, onde você almoça com vista para o manguezal. A Praia do Canto tem alguns lugares charmosinhos, como o Salsa da Praia, no shopping Day by Day, e o Quattro Fratelli, com público na linha "leitoras de Marie Claire" e um ótimo linguado recheado com damasco e bacon ao molho de queijo brie. Para um lanche saudável, o Bully's tem um extenso menu com saladas, sanduíches, wraps, omeletes, vitaminas e pratos quentes (mas vá sem pressa, porque o serviço é em ritmo de ostra em coma). Os pastéis de camarão e de siri do Bar do Ceará, em Jucutuquara, são populares e têm recheio generoso. Entre os restaurantes mais caros, o júri da revista Veja premiou o Aleixo, mas meus amigos preferem o La Cave e O Mercador. Se a idéia é ver e ser visto, nenhum lugar é melhor que o Café Tabaco da Rua Joaquim Lírio, que tem fervo a qualquer hora e mesas numa varandinha agradável, com um quê de Zona Sul carioca. Mas o que realmente deixou saudade foi o japonês Sakê. Pedi um Sakê Maki Especial [foto] e um combinado Mix Show 45 (cuenda o nome pintoso!) e mal posso esperar para repetir a dose.

AGITAR
Assim como em várias outras capitais brasileiras, se você quiser ver homem bonito de verdade, terá que circular na noite hétero. Os "filés" de Vitória estão todos flanando pelo chamado Triângulo das Bermudas (ou simplesmente Triângulo), zona de bares alinhados nas ruas João da Cruz e Joaquim Lírio, na Praia do Canto. O Saidera faz o estilo do Tô Nem Aí da Farme: salão aberto para a rua, onde você pode pegar uma mesa alta perto da calçada e assistir ao vaivém de camarote. A bombação maior parece ser no Escritório, que até numa quarta-feira chuvosa estava lotado. Já o buxixo noturno dito "alternativo" da cidade acontece na despojada Rua da Lama, trecho da Rua Anísio Fernandes Coelho, no Jardim da Penha. Pelo que o povo descrevia, fui esperando encontrar algo entre a Lapa carioca, o Rio Vermelho soteropolitano e o Baixo Augusta, e por isso me desiludi um pouco. É um quarteirão com uns três botecos com mesas na calçada (o principal é o Abertura) e freqüência variada (incluindo GLS), mas não vi ali nada de especial. Tive uma impressão melhor da Move, a boate gay da cidade, que fica na Mata da Praia. Com dois andares, lembra a Refugiu's de Porto Alegre (sem a área externa) e tem sound system potente, tribal menos bagaceiro do que eu esperava e alguns caras bem gatinhos (fui na sexta, quando lota menos e dizem que a freqüência é melhor). Por fim, a cena eletrônica se movimenta em torno de raves esporádicas (especialmente de trance), com divulgação direcionada, no mesmo esquema discreto e semi-independente de sempre.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

4 minutes de empolgação

Assim que começou o alvoroço em torno da vinda de Madonna para o Brasil, o preço escorchante dos ingressos e a falta de seriedade e profissionalismo da produtora Tickets 4 Fun logo me demoveram da idéia de ir ver o show. Peguei preguiça imediata do assunto - e, por tabela, dos muitos blogs que insistiam em regurgitá-lo todo santo dia, em clima histérico.

Mas hoje comprei a revista Época e fui bombardeado pela apelativa capa da Época São Paulo, que girava em torno da iminente chegada da popstar e prometia falar "tudo sobre o espetáculo que você vai ver". Aproveitei uma fila interminável no fórum e li a reportagem. O texto começa fazendo um panorama do impacto que os shows estão tendo na cidade, desde a novela dramática dos ingressos até as projeções de quanto dinheiro os turistas (cerca de 20% do público) deverão injetar na economia local. Depois, radiografa os números da turnê e faz uma descrição detalhada da sucessão de quadros e blocos que compõem a apresentação. Termina com a conclusão de que "é pouco provável que ela volte a encarar uma turnê mundial com essas proporções".

Essa conclusão parece ter sido feita para arrebanhar os fãs menos fervorosos que ainda estão em cima do muro - e ajudar a deslanchar a venda dos ingressos, que depois do furor inicial deu uma estacionada (corrijam-me se eu estiver errado, mas, a essa altura, quem pretende ver a cantora já comprou sua entrada). Deu certo: cheguei a pensar em ir ao show, sensibilizado justamente pelo argumento de que seria uma oportunidade histórica, ver Madonna no auge da parábola e ainda por cima na minha casa (é tão raro certos artistas lembrarem que o Brasil existe!). Fiquei ainda mais tentado quando vi os corpos perfeitos dos bailarinos, que apareciam em algumas fotos da reportagem.

Toda essa euforia, porém, não durou mais do que quatro minutos. Vi que metade do espetáculo é dedicada às músicas sem-graça do álbum Hard Candy e alguns dos poucos clássicos estão irreconhecíveis (misturar "Vogue" com "4 Minutes"?!), e dei uma broxada. Depois, liguei para um amigo que vai ao show e ele me disse que, só de pensar na função toda (congestionamento, multidão, caos), ele já estava desanimado - e eu também fiquei. Pra terminar, eu e outro amigo concluímos que todo mundo está pagando uma nota mas vai ver uma pulguinha loira láááá longe e o show pelo telão (isso mesmo na gigantesca pista vip, que de "vip" não tem nada). Ou seja: não ia dar nem para ver qual o dançarino mais gostoso. Telão por telão, prefiro esperar o DVD, que com certeza vai captar ângulos bem mais generosos de Madonna e sua trupe. E ainda dá para pular as músicas ruins.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Os encantos da Teresina do Sudeste

Quando surgiu a oportunidade de conhecer Vitória por conta de uma viagem de trabalho, eu não sabia o que esperar. Ofuscada pelos dois maiores centros urbanos do país, a capital do Espírito Santo é uma espécie de Teresina do Sudeste, que raras vezes desperta de seu sono profundo, renegada ao esquecimento coletivo. Mesmo as praias do litoral capixaba não recebem a mesma atenção de vizinhas ilustres como Búzios e Trancoso. Para não chegar lá totalmente perdido, tive que recorrer aos universitários: leitores do blog e amigos de amigos que moram lá. Ainda assim, aterrissei no minúsculo aeroporto da cidade sem saber muita coisa sobre ela.

E tive uma surpresa: Vitória é superfofa. Limpa e aparentemente tranqüila (para quem está acostumado com SP, Rio e Salvador), a cidade é toda recortada pelo oceano e tem alguns trechos bastante fotogênicos, incluindo um mini-Aterro-do-Flamengo, com parques, quadras e lazer à beira-mar. Ligadas a ele estão as ilhas do Frade e do Boi, com casas belíssimas e prainhas tranqüilas - tipo uma mistura de Urca com Horto. Mesmo com o novo calçadão, a Praia de Camburi [foto superior], a maior de Vitória, não é lá grande coisa (pense em Amaralina, na Pituba e em São Vicente). Mas é só pegar a mini-ponte-Rio-Niterói que você chega em Vila Velha, que não é tão graciosa como cidade, mas tem praias bem legais, como Itapoã e a Praia da Costa [foto inferior], além do Convento da Penha, que fica no alto de um morro com vista absurda da capital.

Quanto aos capixabas, acho difícil sair ditando regras e conceitos sobre um povo depois de apenas quatro dias de convívio. Eu recebi alguns comentários, em tom de advertência, dizendo que eles eram "provincianos" e "pouco antenados". Reconheço que vi pessoas que se encaixavam nisso... tanto quanto eu vejo aqui em São Paulo. Naturalmente, existem privilegiados e marginalizados, gente refinada e gente ogra, lá e cá. Diferença maior eu senti no trânsito (eles são meio estabanados ao volante) e, especialmente, na qualidade dos serviços - o atendimento é lento como na Bahia e indelicado como no Rio de Janeiro, mas com um bônus de despreparo por conta da falta de hábito de lidar com gente de fora. Por outro lado, as pessoas com quem eu convivi mais de perto não tinham nada de provincianas - muito pelo contrário, tinham a cabeça aberta para enxergar além e o costume de usufruir do melhor que o resto do Brasil tem a oferecer.

Aliás, essa viagem foi mais uma prova de que há alternativas para viver bem fora do eixo São Paulo-Rio, com todas as facilidades que urbanóides exigentes consideram essenciais. Vitória tem seu bairro charmoso, seus endereços da boa mesa, sua academia mega com freqüência top e aparelhos de última geração, seus bofes lindos tomando cerveja nos bares, filiais das mesmas marcas que se usa aqui... e, ao mesmo tempo, tem um pique de cidade menor, onde dá para viver com mais qualidade de vida. Com alguns minutos de viagem, você escapa para as serras ou para Guarapari, um balneário de primeira linha. Com um pouco mais de estrada, você pode ferver no sul da Bahia ou no Rio. E sempre dá para descolar um vôo barato e dar pinta em São Paulo, como muitos deles fazem. Prestar um bom concurso público, levar uma vida confortável por lá e ter acesso fácil ao que interessa das outras cidades pode ser um ótimo negócio para quem não precisa mais estar aqui o tempo inteiro, mas também não quer se afastar totalmente.

Meus quatro dias só deixaram a desejar porque o tempo conspirou contra mim até o fim. Choveu - muito - todos os dias, ao ponto de eu quase perder minha audiência, porque a cidade estava alagada e eu não conseguia nem achar um táxi (existem poucos por lá, um drama), muito menos chegar ao fórum. Muita coisa bacana teve que ficar para a próxima. Não subi no Morro da Fonte Grande, não voltei com calma à parte histórica (aliás, a Cidade Alta parece o Bairro Nazaré em Salvador), não fui comer moqueca na Ilha das Caieiras, não aproveitei as praias (as fotos que ilustram este post foram raros momentos de trégua das chuvas), não conheci Guarapari... mas pelo menos engrandeci meu círculo social com ótimas amizades. Tive a sorte de conhecer pessoas maravilhosas, extremamente hospitaleiras, e só por causa delas eu já voltarei ao Espírito Santo. Em tempos de crise, nada como redescobrir nosso próprio país.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo


Assim que o trabalho der uma trégua aqui, vou registrar aqui minhas impressões sobre o Espírito Santo. Por enquanto, fiquem com uma foto que tirei no fim da tarde de sábado na Praia da Costa, em Vila Velha. Quero deixar aqui meu carinho e meus agradecimentos à Mel, ao Roberto, ao Gui, ao Fabrício, ao Max, ao Roger, ao Mario, ao Felipe, ao Breno, ao Bruno Romanelo... e à Tchynna, é claro! Obrigadíssimo pela receptividade, pelas dicas e por tudo de bom que fizemos juntos. Definitivamente, o Espírito Santo entrou no meu mapa!

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Idéias e planos para um futuro incerto

Fazer um curso de oratória. Voltar a desenhar. Saltar de pára-quedas mais uma vez. Deixar meu francês igual ao meu espanhol, meu espanhol igual ao meu inglês e meu inglês igual ao meu português. Voltar a San Francisco com minha mãe. Fazer alongamento até conseguir pegar meus pés com as pernas esticadas (nem que isso leve vinte anos). Providenciar um template novo para este blog. Fazer um curso de pilotagem e direção defensiva. Conhecer a Vista Chinesa. Transcender o sushi e ir mais fundo na culinária japonesa, começando pelo sukiyaki. Passar um feriado numa fazenda, andar a cavalo e tomar banho de rio pelado. Armar uma exposição com algumas das minhas fotografias. Começar um plano de previdência privada. Praticar algum tipo de trabalho voluntário. Tirar férias longas no Ceará. Fazer uma retrospectiva escrita de tudo o que eu vivi nesses 30 anos. Puxar muito ferro até meu corpo ficar como eu sempre quis. Depois de cinco anos curtindo o resultado, abstrair de vez a musculação e passar a fazer só pilates e ioga. Ir ao teatro todo mês. Aprender a trocar pneu. Conferir se Búzios é mesmo a minha cara, como meus amigos dizem. Pintar alguns quadros, just for fun. Investir mais em restaurantes que façam pratos gostosos com legumes que eu não como. Encontrar uma arte marcial com que eu me dê bem. Conhecer a Grécia. Achar algum livro facinho de economia que me faça entender por que diabos a emissão de moeda gera inflação. Manter minha decisão de ser um pouco menos crítico. Voltar a nadar com freqüência. Pegar do zero a série Sex And The City. Assistir também as caixas de Queer As Folk, Absolutely Fabulous e Desperate Housewives. Conhecer Maceió. Aprender a cozinhar (pelo menos alguma coisa). Fazer o Curso Abril de Jornalismo. Botar aparelho nos dentes. Voltar a Boipeba com um namorado. Poder voltar a me dar o luxo de ler livros apenas por prazer e não mais por obrigação. Descer um rio fazendo rafting. Fazer terapia do choro assistindo a Dançando no Escuro. Dar um rolê de bicicleta por Petrópolis. Comprar um apartamento e decorá-lo do meu jeito. Aprender a fazer uma boa massagem. Jogar fora todos os meus livros e cadernos de Direito. Conseguir me encontrar profissionalmente.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Banquete no museu

Nosso querido Museu de Arte de São Paulo, um dos ícones da cidade, já viveu dias melhores. O furto de um Picasso e de um Portinari de seu acervo, em invasão ocorrida em dezembro passado [ambos os quadros foram recuperados, algumas semanas depois], reacendeu o debate em torno da situação jurídica do museu: há quem defenda que ele passe a ser administrado pelo poder público, e assim possa receber recursos do erário. Problemas de gestão à parte, além de ser um ótimo programa cultural, o MASP esconde uma surpresa em seu subsolo: um dos melhores almoços da região da Avenida Paulista.

O espaço onde funcionava o antigo Restaurante do MASP foi entregue em fevereiro ao pessoal do UNI, conhecida casa do Itaim Bibi que faz um dos bons bufês da cidade. Se o amplo refeitório com ares modernistas continua intacto (e nem precisava de retoques), o mesmo não pode ser dito da cozinha, que ganhou um senhor upgrade em termos de qualidade. Fiquei muito bem impressionado com o que vi e comi.

Para começar, uma estação de saladas bastante vistosa, com folhas variadas, queijos e algumas frescurinhas frias, como terrines, galantines, musselines e outras ines de plantão. Nos pratos quentes de hoje, delicadas postas de saint-pierre que desmanchavam na boca, com leve molhinho de pimenta rosa à parte, uma macia maminha fatiada com ervas finas e uma sobrecoxa de frango em crosta de aveia deliciosa, com molho de frutas em separado. Para acompanhar, batatas recheadas com queijo cremoso, bolinhos de arroz, creme de espinafre, legumes ao vapor e outras guarnições. Tudo bem apresentado e saboroso. Como cheguei às 11h50, pude desvirginar todas as travessas em que me servi.

A mesa de sobremesas é uma atração à parte, com todas as tentações doces já catalogadas em língua portuguesa. Entre os mais de 20 tipos de guloseimas, um interessante bolo trufado, uma levíssima torta de limão, um brigadeirão pastoso e doce na medida certa, merengue de morango, pavê de banana, dois tipos de pudim, crepes de chocolate e mais algumas opções diet, para quem realmente tiver força de vontade.

Tudo isso pelo preço único de R$24,20 (R$26 aos sábados e domingos), que me parece muito honesto, considerando o nível e a variedade da cozinha, em uma região que é bastante cara. As bebidas são cobradas à parte, não há taxa de serviço e aniversariantes não pagam. O UNI no Masp funciona inclusive às segundas, quando o museu não abre. Uma ótima pedida para quem estiver na Av. Paulista e quiser fugir das praças de alimentação.

domingo, 23 de novembro de 2008

Depois de dar dicas, chegou a hora de pedi-las

Estou indo para Vitória na semana que vem, a trabalho. Ficarei por lá de quinta a domingo. Não conheço a cidade e, na minha coleção antiga de revistas de turismo, não existe uma única reportagem sobre a capital capixaba. Sei que poderei contar com o auxílio de um amigo blogueiro, mas não quero abusar da gentileza dele. Por isso, se vocês tiverem alguma dica para me dar (comidinhas, passeios, fervos etc.), será muito bem-vinda. Se meus dias forem proveitosos, quem sabe eu não me anime a postar um mini-guia aqui quando voltar...

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Balanço portenho tardio

Tudo conspirava contra essa minha viagem a Buenos Aires. A crise econômica mundial desregulou as taxas de câmbio: no auge do pânico coletivo, o peso argentino, que minha mãe comprou a R$0,52 em julho, chegou a picos de R$0,87. Tony voltou de lá dizendo que tudo estava custando os olhos da cara, não havia mais vida noturna, enfim, o horror. No escritório, caiu sobre minha cabeça uma chuva de pepinos e problemas (ainda não inteiramente solucionados). Meu avô foi parar na UTI, com septicemia, e meu companheiro de viagem ameaçou desistir, porque no mesmo finde estava marcada uma festa com a "top DJ" Ana Paula, sua favorita. Para dar o arremate na uruca, esta seria (e foi) minha visita número 13. Ufa.

Felizmente, tudo deu mais do que certo. Nossa escapada portenha correu às mil maravilhas. Pegamos quatro dias lindíssimos de primavera, o céu de brigadeiro contrastando com o roxo dos jacarandás-mimosos [foto] e um clima mais do que agradável para curtir os lugares cool de Palermo, como o Olsen, onde tivemos um almocinho supimpa no sábado. Tudo está mais caro sim: os menus dos restaurantes foram remarcados e o valor das corridas de táxi praticamente dobrou (antes era quase ridículo). Mesmo assim, os preços novos continuam mais convidativos do que os nossos. Dá para fazer boas compras, ainda que não se possa mais falar em orgia consumista. Levei bastante dinheiro em pesos (consegui comprá-los a R$0,70) e a fatura dolarizada do meu cartão de crédito virá bem magrinha.

Fiz minha ronda habitual e fui vendo o que havia mudado de julho de 2007 para cá. Fui conhecer a filial portenha do Axel, o famoso hotel gay de Barcelona: o deck lembra a matriz, mas a piscina é bem maior (e eles estão fazendo pool party todo domingo). O hotel está isolado numa área meio morta de San Telmo (onde, aliás, o tímido renascimento ainda está longe de ser uma movida). Em Palermo, a buena onda continua, mas uma das minhas lojas favoritas, a Bokura, fechou as portas. Na mesma calle Gurruchaga, a Nike Soho agora só vende artigos vintage, preguiça total. No Parque 3 de Febrero, a prefeitura fez o favor de interditar todo o Rosedal para obras de restauração, então não pude mostrar ao Xande um de meus cantinhos favoritos. No capítulo baladas, o Palacio Alsina está mesmo fechado; o site fala em reformas, mas corre por aí o boato de que o novo boliche será hétero. Quem torce o nariz para o público mixed do Pacha tem que se contentar com o Amerika.

Mas minha agenda noturna em Buenos Aires estava tomada com o Creamfields, a principal razão da viagem. A edição deste ano foi uma boa surpresa. Em contraste com a selvageria adolescente de 2004, neste ano o público me pareceu bem mais tranqüilo e civilizado. A adoração coletiva pela música eletrônica continua, o povo ainda vibra e grita nas viradas, mas as tendas gigantescas do Autódromo agora dão espaço para todo mundo dançar sem atropelos. Na Cream Arena, onde finquei os pés, meu darling Martín García manteve o bom padrão, mas quem realmente arrebentou foi Steve Lawler - ele fez um set absurdo, impecável, que sozinho já valeu a viagem. A produção do festival me pareceu mais pobre e o Autódromo é longe pra dedéu, mas beleza: com boas companhias na mesma onda que eu, la pasé bárbaro.

Surpresa maior eu tive quando cheguei no Caix, onde nas manhãs de domingo o after Fiction segue firme como a melhor balada fixa de Buenos Aires. Eles deram um merecido upgrade no fervo, que agora rola em uma área maior, atrás do sobradinho quadrado de antigamente. O novo espaço tem uma pista mais ampla e um delicioso terraço que contorna o Rio da Prata, onde também dá para dançar (tem várias caixas de som). O lugar parece perfeito para uma festa de réveillon, sem perder a vocação underground. Duas janelas ao redor da cabine do DJ mostram o belo visual de fora para quem esqueceu de trazer o oclón e prefere fritar lá dentro. Aldo Haydar estava muito mais cómodo em seu próprio habitat (aliás, é com aquele lugar que o som dele combina, embora eu ache louvável a iniciativa da The Week de trazê-lo de vez em quando). E a freqüência é a mesma de sempre: diversificada, desencanada, divertida. A manhã passa rápido e, quando você vê, já passa da uma da tarde e é hora de ir embora.

Tudo isso ajudou a viagem a ser divina - meu acompanhante novato se encantou com Buenos Aires e já pensa em voltar nos próximos seis meses. Mas o melhor, para mim, ainda é simplesmente flanar por lá e ver que a empatia e a identificação que sinto pela cidade continuam intocadas. Gosto de Buenos Aires de graça - mesmo sem festival, sem bafão. Gosto do humor irônico deles diante das adversidades e amo o castellano portenho. Não deixo de adorar outros lugares do mundo que visito, mas é na capital argentina que eu realmente me sinto à vontade: ao longo dos anos, fui criando uma relação de cumplicidade, de familiaridade, como se ali também fosse a minha casa. Aliás, é um dos poucos lugares do mundo onde eu poderia morar para sempre (o outro é Madrid). Que bom que posso continuar indo para lá, comendo os Sorrentinos Tony do Broccolino, andando de táxi pela Avda. Del Libertador, curtindo minha própria companhia na Plaza San Martín, fazendo contrabando de sorvete da Persicco para o Brasil... Acho que ficarei nesse pingue-pongue entre São Paulo, Rio e Buenos Aires pelo resto da minha vida.

sábado, 15 de novembro de 2008

Finalmente, a nossa maratona de cinema

Como se não bastasse tudo o que eu já estou tendo que conciliar e encaixar nesses loucos dias de equilibrista na corda bamba, agora começou mais um Festival Mix Brasil, e eu vou ter que dar um jeito de escapar das incansáveis obrigações para assistir a alguma coisa. Tenho um carinho enorme pelo Mix, que há muitos anos é uma das datas fixas mais esperadas do meu calendário pessoal. É uma chance única de ver longas e curtas sensacionais (e alguns bem ruinzinhos também), que jamais teriam espaço no circuito oficial, mesmo em se tratando de uma cidade tão ávida por bens culturais ligados à diversidade sexual como São Paulo.

Todo ano, faço minha listinha e vou encaixando na minha rotina como dá. Gosto especialmente das comédias gays, que costumam ser leves, bem-resolvidas e inteligentes (embora algumas ainda resvalem em clichês bastante surrados), mas também me interesso por alguns títulos mais melancólicos (um traço que eu sempre carreguei em mim) e pelos documentários - de questões familiares da vidinha gay urbana até realidades absolutamente distantes de nós, o festival é uma janela aberta para o mundo, e abre a cabeça de quem embarca nele.

E tem todo o fervo em volta, claro. Sempre digo pros amigos não-iniciados que o Mix é um dos eventos onde mais se conhece gente bacana. Carinhas com quem você esbarraria na noite e também pessoas muito interessantes que você simplesmente não vê por aí e te fazem perguntar: "mas onde será que eles se escondem?". Nascem ótimos papos, amizades renovadoras e, às vezes, outros teretetês. Sou contra a idéia de sair de casa com a idéia fixa de "arranjar alguém", mas, que o Mix é um celeiro cheio de bons partidos, disso não tenho dúvida.

Comecei a vasculhar a programação agora e já vi que terei muito trabalho. Aqui vão os links de alguns filmes deste fim-de-semana que chamaram minha atenção: Fuera de Carta (que já passou na Mostra), 30 é o novo 20, Devotee, Good Boys, Xaviera Hollander, Roxxxane, Sexo dos Anormais, Another Gay Sequel II e Too Hot in Tel-Aviv. Entre os curtas, os da mostra Competitiva parecem promissores (um deles parte dos contos do Caio Fernando Abreu, outro é protagonizado por Ney Matogrosso e um terceiro promete aquela dose de pastelão que eu sempre achei bem-vinda) e os da Sexy Boys, sempre divertidinhos, desta vez têm argumentos menos bobos do que os das últimas edições do festival.

Tem gente que questiona se ainda existe um motivo para termos uma mostra de cinema gay, a começar pela própria diretora do Mix, Suzy Capó (que eu não conheço pessoalmente, mas com quem sempre simpatizei). Isso foi, inclusive, o objeto de um debate no MIS anteontem. Da minha parte, acho que os propósitos do festival continuam válidos. Iniciativas interessadas no tal pink money pipocam aqui e ali, mas os grandes investidores, los dueños de la bufunfa, ainda são bastante resistentes a aplicar seus tostões e ter sua imagem associada à cultura "GLS". Prova disso são as próprias dificuldades financeiras que o festival ainda enfrenta, aos dezesseis anos de idade. E outra: se existe sentido em uma mostra de cinema brasileiro, italiano, francês ou judaico, por que não um festival que agregue obras do mundo todo que tenham como denominador comum a expressão livre e plural das sexualidades?

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Satisfação

Já tem amigo me ligando e perguntando por quê eu parei com o blog. Não parei, não: passei os últimos quatro dias em Buenos Aires, os anteriores correndo com trabalho e preparativos, e estes seguintes correndo com mais trabalho, faculdade e algumas tramóias sórdidas (alheias, of course) que fariam Agatha Christie ressuscitar. Tenho um monte de posts na cabeça, mas eles terão que esperar. Afinal, se eu não salvar minha pele primeiro, não sobrará Introspective nenhum para contar história aqui.

domingo, 2 de novembro de 2008

Rapidinhas do fim-de-semana

TIPO MATRIX. O finde começou animado, com a apresentação do Fuerza Bruta, sexta-feira no Parque Villa-Lobos. Esqueça os espetáculos de dança tradicionais, que pedem uma contemplação estática e à distância. Aqui, você fica em pé dentro de um galpão escuro e as coisas acontecem ao seu redor - a idéia é justamente provocar a interação do público. Os dançarinos, argentinos e umas graças, fazem acrobacias aéreas presos em cabos, atravessam muros que explodem e nadam em uma piscina transparente colocada acima do público, em uma vibrante viagem de 50 minutos que mistura dança, artes plásticas, circo, música eletrônica e uma pitada de Matrix. Dica: para tirar o máximo da experiência, tome um ou dois drinques pouco antes de entrar (eu me joguei nos apple martinis, que estavam ótimos).

VOLTA ÀS ORIGENS. Com a banalização dos rodízios de comida japonesa, começaram a pipocar pela cidade lugares aventureiros, de gosto duvidoso, e no final a gente acaba nem se chocando quando oferecem "sushi" de rúcula e tomate seco. Por isso, é bom descobrir que ainda há restaurantes sérios que fazem bons festivais, sem viajar na maionese. Depois de um sábado de muito trabalho, fui espairecer na Praça Benedito Calixto e voltei ao Sushi-Yá, quebrando um jejum de uns quatro anos. E me deparei com um festival excelente: o básico sem firulas (nigirizushis, uramakis, no máximo uns hot rolls e olhe lá), mas muito saboroso, feito com o capricho e a honestidade que hoje em dia infelizmente não se acham em qualquer rodízio. Nada como lembrar que um bom salmon skin não tem gosto de scotch brite (nem assolan)! O festival, servido em barquinhas que bóiam em uma canaleta que corre o balcão (tipo um kaiten-zushi analógico), oferece peixes que vão muito além da habitual trinca salmão-atum-robalo; você paga R$ 27,50 (2ª a 6ª, 12h-13h45) e R$33 (diariamente, 18h-21h30), e pode consumir 10 pratinhos, mais 1 temaki, dois gyozas e 5 fatias de sashimi, ou então apenas 15 pratinhos. É suficiente, e sai mais barato do que o rodízio ilimitado (R$45).

TODO MUNDO NA RUA. Num final de semana sem festas especiais (além da Fórmula 1) e com um tempinho bem marromeno, o mundinho paulistano está vivendo uma inusitada animação (será que foi o dia do pagamento?). O lounge do Fuerza Bruta estava um fervo só, a bombação na pracinha não dava sinais de cansaço às 20h30 e a The Week estava tão abarrotada que até os mictórios tinham fila. Parecia uma daquelas festas da semana da Parada. Não cheguei a botar os pés na pista, intransitável; preferi ficar lá fora o tempo todo, pulando de rodinha em rodinha e encontrando pessoas de todos os naipes, estirpes e quilates. Ouvi boas bobagens, dei muitas risadas, recebi o carinho de alguns leitores do blog e me atualizei sobre os bafos. Agora já posso dar outra sumida em paz...

PINGOS NOS IS. A revista Veja de hoje traz nas páginas amarelas uma interessante entrevista com o sociólogo Demétrio Magnoli. Ele explica o significado que os conceitos de "direita" e "esquerda" têm na atualidade e faz uma leitura lúcida sobre os valores das esquerdas na América Latina e a trajetória recente do PT. Com idéias expostas e defendidas de forma bastante clara, seu depoimento é uma fonte a mais para que cada um possa desenvolver suas próprias convicções e pontos de vista.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Devo ser um cara "do contra", porque...

... detesto Coca Light (tem gosto de remédio). Idem para a Coca Zero (só mudaram o remédio). Vi o tal vídeo do "atoron perigon" em nove versões - e não achei graça em nenhuma. A última coisa que eu faria depois de ver aquelas propagandas chatérrimas do Unibanco no cinema é abrir uma conta lá. Cerveja pra mim tem gosto de cera de ouvido. Não fico arrasado quando o Brasil perde a Copa. Acho o DJ Offer Nissim o truque dos truques. Aliás, tenho pouca paciência para house tribal (se for do estilo pool-party-da-laje, pior ainda). Não tenho a menor vontade de comprar um iPhone (razões não faltam). Sneakermaníacos que me perdõem, mas esses tênis desenterrados dos anos 80 já são feios de doer. Coloridos, então... Acho quase todas essas novas bandinhas hype de uma pobreza atroz. Não pago pau para nenhum galã global (quer dizer, não pagava, até que chegou o Malvino Salvador). Não tenho o menor interesse por Star Wars. Nem O Senhor dos Anéis. Nem Harry Potter. Nem o último da Britney, ou o próximo da Mariah. Não gostei da nova loja da Diesel. Acho que a MTV brasileira se transformou em uma emissora acéfala que jura que é moderna. Não vejo graça alguma no Marcos Mion. Aliás, não conheço nenhum programa de humor da TV que me agrade. Me recuso a passar recibo de trouxa e pagar R$720 para ver a Madonna. Acho a Osklen e a Reserva pra lá de overrated. Me arrependi de ter comprado um iPod: o som é baixo e depender do iTunes pra tudo é uó. Para mim, a azeitona é uma barata que nasceu vegetal (sirva bem longe do meu prato). Não acho cool quem mendiga para ser vip. Não tenho gostado de nenhum oclón que as lojas vendem por aí (gosto mesmo é de óculos máscara). Tentei ler Cem Anos de Solidão e não agüentei ler nem 40 páginas, de tão chato. Não vou comprar nenhum jeans branco nesse verão. Nunca me interessei em acompanhar o Big Brother Brasil. Prefiro mil vezes um bom cecê do que um perfume ruim. Nada me parece mais pavoroso do que videokê.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Buenas noches Cinderella

Apesar de já ter estourado minha cota de viagens deste ano, resolvi fazer uma extravagância pelo meu amigão que não conhece Buenos Aires e vou me jogar no Creamfields semana que vem (mais informações sobre o festival, você vê neste post). Enquanto fazia minha habitual pesquisa pré-viagem, qual não foi minha surpresa ao descobrir que o golpe do "boa noite cinderela" chegou com tudo à Argentina.

A droga usada nos golpes é conhecida como burundanga, tem sido manipulada com facilidade em laboratórios clandestinos em Buenos Aires e costuma ser dada às vítimas nas baladas (lá chamadas de boliches). O que se segue não é o roubo da vítima, como no Brasil, mas o estupro - por quem ofereceu a bebida e por seus comparsas, que agem em grupos de 3 ou 4. Os efeitos da droga chegam a durar até dois dias. A matéria (em espanhol) que trata do assunto, você pode conferir aqui, aqui e aqui; informações (em inglês) sobre a droga, aqui. Não pensem que isso só acontece com meninas: consta que um rapaz brasileiro de 20 anos também sofreu o golpe, e acordou em seu quarto de hotel em Bariloche com indícios de ter sido estuprado.

Papai e mamãe sempre nos dizem para não aceitar nada de estranhos. Mas, nas festas e afters da vida, não é nada raro as pessoas relevarem isso e tomarem golinhos disso e daquilo de pessoas que elas mal conhecem. Como dizem os portenhos, Ojo!

domingo, 19 de outubro de 2008

Uma luz para os pais desorientados

Para quem é bem resolvido, conta com a compreensão dos entes queridos e tem autonomia para levar a vida que quiser, sem prestar contas aos outros o tempo todo, ser gay ou lésbica não é nenhum estorvo. A sociedade ainda tem um longo caminho a percorrer em direção à aceitação da diversidade, mas nós driblamos o preconceito construindo um círculo social com pessoas tolerantes e amigas e passando a maior parte de nosso tempo dentro dele. Isso dá o conforto emocional de que precisamos e, de certa forma, nos blinda contra a homofobia. De repente, não sentimos mais na carne o tal "peso de ser diferente", já que na nossa bolha gay-friendly isso não é um problema.

Engana-se, porém, quem pensa que esse bem-estar vem da noite para o dia. A descoberta e aceitação da própria condição sexual pode ser um processo doloroso, especialmente quando se vive em um ambiente familiar pouco receptivo (o que é bastante comum). Muitos LGBTs se vêem desamparados quando os pais, completamente desorientados com a revelação, passam a reprimi-los, tornando as coisas ainda mais difíceis para todos os envolvidos.

Para o adolescente homo, o acesso fácil ao meio gay (que perdeu o estigma de clandestinidade de 20 anos atrás) e a overdose de referências trazida pela internet logo se encarregam de mostrar o caminho. Ao constatar que não está sozinho e receber exemplos positivos de seus semelhantes, ele se sente encorajado a assumir a própria identidade e descobre que, apesar dos pesares, é perfeitamente possível se encontrar e ser feliz sem ter que negar sua condição. Já os pais custam a assimilar a novidade, sobretudo porque têm mais dificuldade em encontrar pessoas com quem possam se abrir, elaborar e digerir o assunto.

Foi pensando nisso que a professora e escritora Edith Modesto [foto], mãe de um rapaz gay, fundou o Grupo de Pais de Homossexuais, em 1999. O GPH começou com quatro mães e hoje já tem 200 associados, entre pais e mães de todo o Brasil. Esses quase dez anos de experiências, Edith compilou no livro Mãe sempre sabe? Mitos e verdades sobre pais e seus filhos homossexuais (Editora Record), lançado ontem em São Paulo. No coquetel de lançamento, tive o prazer de encontrar Edith e conhecer um pouco mais da história de sua ONG, que tem feito um trabalho belíssimo e já ajudou muitas famílias a vencer o inevitável estranhamento inicial e se reaproximar. Do GPH, exclusivo para pais, nasceu o Projeto Purpurina, que é voltado para os próprios adolescentes que também procuravam o grupo.

Edith já teve a oportunidade de divulgar as atividades de seu grupo em espaços nobres da mídia, como os programas de Jô Soares e Marília Gabriela e o jornal O Estado de S. Paulo. Inteiramente voluntário e sustentado por doações, o GPH conta com apoios pontuais da Prefeitura de São Paulo, mas ainda tem outros desafios pela frente. O maior deles é conseguir o empréstimo de um imóvel que possa ser usado como "casa de passagem": um lugar onde adolescentes massacrados pelos seus pais após o outing ou mesmo expulsos de casa possam passar um tempo, enquanto as coisas se acalmam. Enquanto torço para que isso aconteça logo, aproveito para divulgar aqui o GPH e convidar todos vocês a conhecer o site do grupo.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Quer passear comigo pelas ruas de Praga?

De todos os tipos de texto que eu redijo, os guias de viagem estão entre os que mais gosto de escrever. Durante essa última viagem à Europa, vira e mexe eu me pegava fazendo anotações e pensando em como poderia transformar meus achados e impressões em matérias de turismo. Voltei com um bloquinho cheio de rabiscos e, aos poucos, esses garranchos vão ganhando o mundo, sob a forma de textos mais coerentes.

A convite da revista DOM, preparei um roteiro caprichado de Praga, a cidade mais visitada do Leste Europeu. Entre passeios, comidinhas e fervos, tudo o que você precisa saber está lá, num texto recheado de endereços e dicas, que vão desde o outlet da Diesel até o almoço no terraço com a vista mais incrível da cidade. A matéria foi incluída na edição 8 (outubro/2008) da revista, que já está nas bancas.

[Foto: entardecer na Ponte Carlos, cartão-postal de Praga]