domingo, 23 de outubro de 2011

Fumaça boa e fumaça ruim

Eu e meus colegas do Estadão passamos a semana no interior do Rio Grande do Sul. Um dos patrocinadores do nosso curso é uma multinacional do ramo fumageiro e mantém ali seu parque industrial, que fomos visitar. Tivemos a oportunidade de conhecer de perto todas as etapas do processo de produção de cigarros e pudemos conversar com representantes dos diversos elos da cadeia, desde a família de agricultores de olhos azuis que mantém uma plantação de fumo até os sindicatos e associações que cuidam dos interesses do setor.

Como era de se esperar, fomos bombardeados com argumentos em defesa do cigarro e de sua indústria. Chamaram nossa atenção para a função social da atividade, que dá trabalho e garante a subsistência de milhares de pessoas. Garante a compra do tabaco produzido, remunera muito bem e dá um bom padrão de vida aos agricultores. Propicia a inserção social, exigindo que eles e seus filhos frequentem a escola. Coíbe o trabalho infantil. Zela pelo meio-ambiente e estimula a produção sustentável. Direciona seu produto apenas a adultos, maiores de 18 anos. Gera uma receita tributária formidável para os cofres do País. Tudo isso, nós ouvimos da boca daqueles orgulhosos defensores do tabaco (a maior parte deles não fumante, mas ok, abafa o caso).

Tento não ser maniqueísta em relação ao tema. Não ignoro que existe uma boa parcela de demagogia naquele discurso pronto, que tem preocupações muito mais econômicas do que sociais. Mas também reconheço que ninguém é obrigado a aderir ao cigarro - quem começou a fumar o fez porque quis, sabendo do perigo do vício, sobretudo de 30 anos para cá, quando já havia informação suficiente nesse sentido. São escolhas que não me cabe julgar. Além disso, ao proibir o fumo em lugares públicos fechados, a nova legislação tende a reduzir os malefícios à esfera individual, protegendo a saúde daqueles que fazem parte do convívio do fumante.

O que me intrigou foi outra coisa. Todos os argumentos do segundo parágrafo, usados para mostrar por A+B que o cigarro era socialmente defensável, também poderiam ser perfeitamente aplicados à exploração do cultivo da maconha - da geração de empregos à coleta de impostos. No entanto, a maconha ainda é proibida. Questão de saúde? Ora, a letalidade do cigarro é bem maior, e isso não detém o governo, para quem a arrecadação fiscal justifica até os gastos com a saúde dos fumantes. Por que a mesma lógica não vale para a maconha, inclusive com a possibilidade de empregar as receitas obtidas com a tributação em políticas públicas de saúde? Dois pesos e duas medidas? Por uma questão de coerência, ou se legaliza a maconha, ou se proíbe o cigarro. Esse é um exemplo claro de como decisões políticas podem ser pouco racionais e absolutamente incongruentes.

13 comentários:

Fábio Carvalho disse...

Olá Thiago,
Concordo com seus argumentos no parágrafo final, e também acho que cada um faz com seu corpo e sua saúde o que bem entender.
Mas da mesma forma que todos os belos argumentos da indústria do fumo, listados no parágrafo 2, poderiam ser usados para não apenas a maconha, mas também para a indústria alimentícia, ou qualquer outro setor produtivo primário!
O que me parece é que todos os "belos" benefícios para a cadeira produtiva, e as pessoas nela envolvidas, que a indústria oferece e faz questão de alardear, é apenas maquiagem, uma desculpa bonita, para uma indústria que causa mal à saúde de muito mais gente do que beneficia na produção.
Estes produtores de olhos azuis poderiam estar plantando alimentos, ao invés de usar o solo para plantar tabaco. Ou maconha, se fosse legalizada. Ou pasto. Ou criar galinha. Ou plantar flores.
Excelente post, meu amigo! Acho que senti um claro viés de condução jornalística da matéria.
bjos

Daniel disse...

Exatamente por isso que eu sou favorável à liberação e regularização de TODAS as drogas. A liberação do alcool e do tabaco na nossa sociedade atual é meramente herança cultural.

Aliás, sei bem qual empresa vc visitou. Já me candidatei a vaga de estagiário na mesma empresa e assisti a apresentação em powerpoint com essa mesma lavagem cerebral. Um tanto desnecessária no meu caso porque eu não sou contra o cigarro.

Lucas T. disse...

Copy & Paste palavras do @Daniel, com exceção da parte do estágio na Souza Cruz. #prontofalei

Como fumante (de qualquer coisa) acho ridículo proibir. Decisões puramente políticas podem ser extremamente prejudiciais, e o ranço da sociedade com a maconha só não é maior do que os políticos, policiais e membros do judiciário que se beneficiam da proibição das drogas.

Thiago Lasco disse...

Só uma coisa, Lucas e Daniel, a visita não foi à Souza Cruz, e sim a uma empresa concorrente dela!

Daniel disse...

Erramos, mas parece que todas plantam no Sul. Deve ser o clima da região.

Gui disse...

A diferença é que o cigarro não causa uma alteração do estado mental da pessoa, assim como as outras drogas.

Por isso, acho que a anologia correta é: se o álcool é liberado, por que não o resto?

Lucas T. disse...

Sou gaúcho e nem sabia que a concorrência também atuava por aqui. #vergonha

Lobo disse...

É um ótimo ponto. Eu sou a favor de liberar tudo, com exceção das drogas voláteis. Afinal, cada um faz o que quer consigo, mas quando isso começa a ultrapassar a barreira e afetar a saúde do outro o problema muda totalmente de figura.

Quer coisa mais desagradável que você estar andando numa rua lotada e a pessoa na sua frente deixando um rastro de fumaça, sem você nem ter como ultrapassá-la? Conheci uma pessoa que mais saudável impossível, mas morreu de câncer de pulmão decorrente de fumo passivo, e olha, é no mínimo revoltante.

Julián disse...

Excelente artículo Thi; aquí en Colombia seguimos preguntándonos lo mismo. El patético presidente que teniamos quería tratar de "enfermos" a los consumidores de marihuana y penalizar el consumo y el porte de dosis mínimas de marihuana. Si realmete fuera tan católico, tan conservador y se preocupara por nuestra salud etc etc hubiera prohibido las dosis mínimas de colesterol, de contaminación ambiental, de cigarrillo, etc etc. El discurso de la prohibición de las drogas no se sigue dando en terminos de leyes sino de moral y convicciones individuales y religiosas.

Thiago disse...

Concordo com o Gui, é contraditório liberarem o álcool e não liberarem a maconha (não que eu seja a favor da disseminação, muito pelo contrário). Acho que a questão da legalização da maconha entra mais em questões não tanto políticas ou econômicas, mas sim bioquímicas do organismo.

S.A.M disse...

Essa questão deveria ser levantada, mas no Brasil dos neo-aiatolás do congresso, vai ficar tudo como está se depender da população.

Uma pena.

Luciano disse...

Thiago,
Você assistiu Obrigado Por Fumar (Thank You For Smoking, 2005)? Roteiro espertíssimo, filme muito bem realizado, inteligente - deixa a gente pensando sobre todos os argumentos que você descreveu. E o filme não mostra, nem uma única vez, alguém fumando.
Muque de Peão

Ricardo Gaioso disse...

Sou a favor da legalização da maconha, apesar de não consumí-la. Dito isso, meu único questionamento é, será que o critério de proibição não gira em torno da dose? O efeito instantâneo entre um cigarro de tabaco vs. um cigarro de maconha?