quarta-feira, 23 de maio de 2012

Barato de mentirinha

Paraísos Artificiais se propõe a ser um retrato da juventude frequentadora de raves e festivais de música eletrônica, com todos os excessos hedonistas que costumam vir no pacote. É louvável que um filme brasileiro tenha coragem de falar sobre esse assunto, que sempre foi abordado pela mídia de forma parcial e sensacionalista. Pena que não o tenha feito dez anos antes, quando as tais festas estavam no auge e representavam um fenômeno pertinente. Hoje, a cena já mudou tanto que o filme soa um tanto datado, para não dizer anacrônico. De qualquer maneira, a direção de Marcos Prado e a produção de José Padilha (Ônibus 174 e Tropa de Elite) já foram suficientes para instigar minha curiosidade. 

O enredo: uma DJ e sua amiga vão a um festival eletrônico numa praia paradisíaca. Lá pelas tantas, conhecem um gatinho, vivem um momento intenso regado a sexo e drogas, e só voltarão a se encontrar anos mais tarde, por acaso, em Amsterdã. Esse quadro vai sendo construído aos poucos, já que a narrativa é todinha retalhada, cheia de idas e vindas no tempo (sim, mais um filme não-linear... até quando, meu Deus???). As atuações dos protagonistas não chegam a ser sublimes, mas têm seus momentos de entrega, e não vou estranhar se a carreira televisiva dos três decolar logo, logo. Até porque eles são lindos como o povo gosta. A fotografia é exuberante, com locações no Rio, em Pernambuco, Alagoas e Amsterdã, e a trilha sonora tem faixas escolhidas a dedo. Posto dessa maneira, parece mesmo a alquimia perfeita.

Apesar disso, a bala do filme não bateu em mim. A artificialidade antecipada pelo título estava em toda parte, a começar pela tal "grande rave no paraíso": um amontoado de figurantes bonitos, magros, sarados, de pele dourada e sotaque carioca, saídos diretamente do departamento de RH do Shopping Leblon. Para dar o arremate, um cinquentão hippie estereotipado oferecia conselhos enlatados para a galere, numa atuação constrangedora que só faria algum sentido dentro do set de Malhação. É verdade que nessa fase da vida os jovens vivem o momento e fazem loucuras, mas o consumo de drogas é retratado de maneira tão excessivamente romantizada, ingênua, pueril, que se torna pouco crível, sobretudo por quem já teve algum contato com o universo eletrônico. Além disso, ao colocar um casal hétero tomando GHB em uma rave de trance, o diretor erra a mão na caricatura e mistura referências de épocas e tribos diferentes e inconciliáveis, mais ou menos como se os Beatles comessem acarajé no Sónar. Simplesmente não cola.

Por fim, para um filme que se pretende tão moderninho, a mensagem subliminar é surpreendentemente careta e moralista. Sim, é claro que o uso de drogas tem seu preço e pode trazer consequências como acidentes, mortes, prisões e famílias desestruturadas. Há exemplos ao redor de todos nós. Mas mostrar todas essas consequências acontecendo ao mesmo tempo é um pouco meio muito, não? E o que dizer do garoto que se envolve com o tráfico só porque tinha um irmão que serviu de exemplo... e depois ainda se arrepende e se salva no final do filme, quando aliás todos os personagens que não morrem sofrem algum tipo de redenção? Só faltou aparecer o brasão do Governo Federal.

Talvez eu tenha me decepcionado porque vi os nomes de Marcos Prado e José Padilha e esperei algo mais próximo de um documentário, que se pudesse levar a sério, como análise de um fenômeno de comportamento ou mesmo de uma geração. Mas Paraísos Artificiais não segura a onda - é tanta caricatura junta que não convence nem como obra de ficção.

8 comentários:

marcuslara disse...

Incrível seu texto, como sempre, vi o filme e achei exatamente isso que vc escreveu. Mais confesso que gostei da viagem que elas tem no começo do filme com as vacas e o lagarto rs...

Anônimo disse...

Concordo plenamente ainda mais forcado quando a outra morre com apenas 2 gotinhas .... Todas sabem que e preciso muitos mais que isso ... Ou a tw viraria um grande cemitério kkk

Lucas T. disse...

Texto ótimo, ri muito em alguns trechos. O filme é uma piada de mau gosto, desperdício de dinheiro.

R U Comedian? disse...

Se filme que trata de algo do passado for anacrônico, então manda tirar 90% dos filmes do circuito, pois é neles que alguma parte da história do mundo é contada, revisitada, às vezes entendida com o distanciamento.
Bola fora, hein? Só falta falar que Hair é datado HUAHUAHUA.
Já ouviu falar em arte?

sidão disse...

Não sei Thiago, se o filme tinha que ser uma ode as raves e suas combinações perfeitinhas, como o uso da droga certa com o beat certo como você propõe.
O filme é atemporal, assim como a droga que evolui com as gerações e seu jeito novo de usar.
Achei mesmo que se Prado queria mostrar o lado junkie da droga, ele errou feio. Foi a overdose mais linda que já vi na vida. Serena, cheia de paz, tipo cumpri minha missão na vida. Quando na verdade o filme tinha que ser sujo, mostrar as vibes horríveis que a bala causa, pessoas se mordendo, se babando, caretas feias, olhos revirando, entre outras coisas que o ecstasy provoca. Até mesmo o cara sendo enrabado na cadeia, passando maus bucados por conta da droga. No final, mais gente sai querendo experimentar, foi minha impressão.
Quanto ao universo rave, só interessa a quem gosta, tinha mesmo que ser em último plano.
Se ele queria fazer uma ode a bala, quase que um filme encomendado pelo tráfico, ele conseguiu. Aí é ousado. Se era pra assustar, falhou.
No geral tem cenas bi lindas, o paralelo sutil do olho do drogado ser o mesmo do defunto é lindo. E acho que o público pode assistir e ligar pro dealer depois que sair do cinema.

Marcao disse...

olá Thiago, tudo bem? Mto bom voltar a ler seus textos. Abraço

wair de paula disse...

Sorry, seu texto é melhor do que o filme. Achei chatinho (o filme) de dar dó, constrangedor de tão chatinho.

João Figuer disse...

Talvez você não tenha percebido, mas a DJ do filme é a Nathalia Dill, que já protagonizou algumas novelas. Portanto, carreira televisiva já solidificada. O filme foi uma decepção pra mim. Nem mesmo as imagens de Amsterdam serviram para me arrancar do tédio de ver o universo da música eletrônica ser retratado de modo tão caricatural e asséptico. O hippie velho me fez dar uns risos de escárnio. O marido ao lado - que tem birra de filme nacional e só vai arrastado por mim - odiou. E ri agora com a imagem do beatles comendo acarajé. Em tempo, corrija a grafia do acepipe baiano.