quinta-feira, 26 de janeiro de 2006

Porque tenho orgulho de ser paulistano (pt. 2)

São Paulo não é uma cidade fácil. Não se gosta dela de imediato. Sua beleza não é nada óbvia. Enquanto o Rio tem cenários maravilhosos que te conquistam na hora, enquanto a maior parte das capitais nordestinas tem uma orla convidativa e emblemática, São Paulo não tem nenhum canto com que o turista se identifique e simpatize num primeiro contato. Não dá pra falar, por exemplo, que quem pisa na Avenida Paulista pela primeira vez é acometido por um arroubo violento de amor à primeira vista...

A questão é que, assim como na obra de Antoine de Saint-Exupéry, o essencial de Sampa é invisível aos olhos. São Paulo tem SIM toda uma beleza, toda uma poesia, todo um sentimento, toda uma dinâmica que é bonita pra caralho e que consegue até ser harmoniosa. Mas isso tudo é algo que precisa ser VIVIDO, não aparece à primeira vista. Com o tempo, com a convivência, a cidade vai mostrando todo o seu charme, exatamente como aquela menina que não se encaixa nos padrões estéticos, que não rouba olhares por onde passa, mas por quem você acaba se apaixonando depois que começa a conviver e tem a chance de conhecer melhor.

A primeira reação de todo forasteiro é buscar uma atração típica, clássica, como uma torre, um mirante, um monumento, algo que sirva de símbolo e resuma a cidade. OK, São Paulo tem os seus ícones, o Copan, o MASP, a linha de prédios da Paulista, o Monumento às Bandeiras (também conhecido como "Deixa-que-eu-empurro"), o lago do Ibirapuera com seus chafarizes ornamentais, a Catedral da Sé... mas depois desse primeiro contato, o iniciante verá que não é isso que importa. O verdadeiro barato de São Paulo são simplesmente seus bairros, seus cantos, lugares anônimos num primeiro momento mas que são verdadeiras experiências a serem vividas.

São Paulo não tem um corpinho bonito, mas tem alma. E dentro dessa cidade, cada bairro também tem sua própria alma. Que você só consegue captar andando por suas ruas, reparando sem pressa nas casas, nas árvores, conhecendo e interagindo com as pessoas. Há bairros festivos, bairros melancólicos. Bairros efervescentes e bairros serenos. Mas todos com personalidade. E cada um mais adequado para um momento, um estado de espírito.

Os incautos se atém a Cerqueira César, a dita área nobre dos Jardins que reúne grifes internacionais de roupas, restaurantes, frisson e badalação. Que é mesmo uma delícia, e tem dias em que nada cai melhor do que um bom sorvetinho na Haagen-Dazs ou um café com petit-fours na Cristallo, depois de uma tarde de vitrines e bate-papo. Ou um jantar bem animado no Spot. Mas SP é muito mais do que isso. Como não se render ao charme da Vila Madalena, um bairro descolado sem ser afetado, bacana sem ser pretensioso, que encontra um raro equilíbrio entre estilos, e que consegue ser diferenciado sem jamais perder a simplicidade ? Com bares e restaurantes deliciosos, lojas e ateliês com gostinho de garimpo, e ruas tranqüilas com um certo quê de interior.

O Alto de Pinheiros, a Granja Julieta e o Campo Belo, com sua excelente qualidade de vida, ruas largas e totalmente arborizadas, belíssimas casas, praças onde a serenidade reina e as crianças podem brincar em paz. Os apartamentos antigos e enormes de Higienópolis (com a opção mais em conta da vizinha Santa Cecília). A região de Perdizes e Sumaré, com suas ladeiras íngremes e vários prédios bons pra se morar (a região ao redor da MTV é um dos meus xodós!). O Paraíso, que consegue ser pacato mesmo estando encostado na Avenida Paulista. O Itaim e a Vila Olímpia, com seu pique adolescente. A Vila Mariana, talvez um dos bairros de classe média mais queridos e sentimentais que possa existir. A Lapa, com suas ruas com nomes curtinhos como Tito, Roma e Catão e seu casario antigo entre as árvores, que emana uma ponta de melancolia. A Bela Vista, com seu espírito boêmio e sua babel humana que remete a Copacabana.

Mesmo fora do filé mignon mais central da cidade, há outros cantos agradáveis, de norte a sul. Bairros como Santana, Belém, Tatuapé, Ipiranga, Saúde e Jabaquara, entre outros, têm áreas boas para se morar com preços mais camaradas. Aqui há uma multiplicidade de opções, não são apenas cinco bairros que prestam. É uma cidade inclusiva, onde dá pra começar a vida. E adotar sua padaria predileta, sua praça mais querida, seu mercado mais barateiro, seu shopping mais conveniente, seus bares do coração – e seus amigos do peito, porque as amizades aqui são feitas pra durar.

E assim pude enumerar um montão de áreas aprazíveis de São Paulo sem em momento algum precisar falar no parque do Ibirapuera. Porque São Paulo é muito mais do que isso. E não dá pra eu te dizer aqui tudo que ela é. São Paulo tem que ser descoberta. Parabéns São Paulo!!!

2 comentários:

Anonymous disse...

Nossa! AMEI essa declaração de amor à cidade de São Paulo. Sou Paulistana, assim mesmo com o "P" maiúsculo. Infelizmente não moro mais aí por questões de trabalho do meu marido. Mas sempre que vou visitar a minha família, passo horas dirigindo pelos bairros, matando a saudade desses lugares tão singulares. Parabéns!

Tay S. Almeida disse...

Emocionada! Rssrsrs Morei na vila Olímpia e no Jabaquara! Foram os melhores anos de minha adolescência, ñ que eu esteja velha... (24 anos)! Atualmente moro em Campinas, e sinto uma falta enorme da minha linda cidade! Obrigada texto...