segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Elogio ao acaso

Tirei a noite de ontem para ver dois filmes argentinos, Um Conto Chinês e Medianeras, cada um deles bonitinho à sua maneira. As histórias são bastante diferentes entre si, mas trazem um denominador comum: brincam com a questão do acaso, que aproxima pessoas, cruza seus caminhos - ou não.

No primeiro filme, um chinês está prestes a pedir sua amada em casamento, num barquinho típico no meio de um lago, quando uma vaca cai do céu (!?), muda tudo e ele vai parar em Buenos Aires, onde é roubado pelo táxi, termina na sarjeta e conhece o personagem vivido pelo onipresente Ricardo Darín. No segundo, um cara urbanóide-descolado mora no prédio em frente a uma garota urbanóide-descolada, eles têm tudo a ver e tudo para ficar juntos, só que não se conhecem e não sabem disso. Um argumento parecido com o do curta abaixo, que rodou a internet alguns anos atrás.

As duas histórias comportam interpretações que variam com a fé de cada um. Quem acredita no acaso certamente julgará que os personagens foram unidos por casualidades: a bovina calhou de cair do céu logo em cima daquele barquinho, e os pombinhos moderninhos foram entrar no chat justamente na mesma hora. Já quem acredita em destino poderá, tranquilamente, sustentar que as coisas "eram para ser" da maneira que foram, estava tudo escrito.

Saí do cinema ainda mais confuso e indeciso, sem saber em que acredito. Às vezes acho que sou totalmente dono do meu futuro, que tenho milhares de bifurcações diante do meu nariz e o dom de mudar meu caminho a cada nova escolha. Outras, sinto que as bifurcações existem, mas desde o começo já estava escrito quais direções eu iria tomar e onde iria chegar. Seja lá como for, a ignorância parece ser uma bênção. Já quis muito saber como será o amanhã; hoje, acho que sofro menos vivendo um dia de cada vez, fazendo menos planos longos e deixando a vida me levar. Já tenho coisas suficientes para lidar no presente, sem saber o meu futuro.

6 comentários:

TONY GOES disse...

Um dos mitos do capitalismo é o de que somos totalmente senhores da nossa vida, que podemos ser o que quisermos se trabalharmos bastante.

Claro que muita coisa depende de nós mesmos, mas não tudo. A sorte, o acaso (ou o destino, como queira) jogam um papel importantíssimo nas nossas vidas. Aceitar isto é se cobrar menos e ser um teco mais feliz.

Diego Rebouças disse...

Cada filme nos convoca a acreditar na realidade que ele constrói. Por isso, acho que não se trata de acreditar qual a probabilidade de uma vaca cair em um barco, mas se deixar levar justamente por essa provocação. Cinema não é pra ser realidade, é pra nos ajudar a dialogar com a realidade - justamente como parece ter acontecido com você.

E investir tão bem no seu presente é já uma forma de lidar com o futuro - com o seu futuro e o seu passado. Você está se reescrevendo.

;)

Marcos SC disse...

O único acaso que não existe é você ser exatamente como você é. Todo o resto é só consequência.

Rodrigo disse...

Adorei a casa nova!
;)
beijo pra ti

Lucas T. disse...

Casa nova, então? Maravilha. Estamos aqui acompanhando as usual. :D

sad eyes disse...

como europeu, adoro cinema que não seja norte-americado. o cinema sul-americado costuma fazer parte dos meus roteiros e já ouvi falar do segundo.