sexta-feira, 29 de maio de 2009

Desvendando os mitos do sexo pago

Verdade seja dita: para a esmagadora maioria dos homens gays, hoje em dia é muito fácil arranjar uma trepada. Se a luta pelos direitos civis ainda tropeça aqui e ali, em termos de possibilidades sexuais os nossos grandes centros urbanos não fazem feio às capitais europeias. Mesmo quem mora em cidades menores conta com a ajuda da internet, o supremo facilitador de fodas. Além disso, para bom entendedor, nem é preciso gastar o latim: com o olhar atento e um pingo de malícia, qualquer lugar pode render uma boa pescaria, do museu ao supermercado. Em se plantando, tudo dá.

Já que a coisa está dando em árvores, que fim terão levado os garotos de programa? Será que ainda existe demanda para o serviço que eles oferecem? E quem procura por ele? Se toda reportagem investigativa nasce para encontrar uma resposta, essa era a minha pergunta: quem paga por sexo hoje, e por quê? Nosso imaginário coletivo sempre encarou o sexo pago não como opção, mas falta de opção. "Pegar michê" é para velhos, gordos, solitários, gente que pendurou as chuteiras ou foi excluída do jogo. Verdade ou lenda? Sugeri a pauta para a revista DOM, eles gostaram e lá fui eu me embrenhar nesse universo, atrás de respostas. Era o começo de março.

Não demorei para sentir na carne que estava lidando com um tabu. Quando eu saía a campo atrás de fontes e personagens, o tema da reportagem provocava fascínio ou repulsa - jamais indiferença. Em discussões acaloradas, meus interlocutores tinham sempre opiniões formadas sobre o assunto, e eram muito convictos ao defendê-las. Ainda bem que eu não estava ali para defender ideia alguma, mas apenas para conseguir contatos. E foi o que fiz: conheci pessoas novas, conquistei a confiança delas, visitei saunas, conversei com rapazes que atendem pela internet. No final da apuração, entre boys (como os GPs preferem ser chamados) e clientes, eu tinha depoimentos de vários lugares do Brasil.

O que mais me surpreendeu foi a quantidade de caras jovens e atraentes com que me deparei - não GPs, e sim clientes. Claro que também encontrei vários fregueses (especialmente nas saunas) que se encaixavam no estereótipo do coroa-cacura, mas pude constatar que essa imagem está longe de ser regra. E que quem crê nesse padrão está endossando um preconceito. Preconceito, porém, é uma palavra que esses clientes não conhecem. A maioria se mostrou muito bem resolvida: nada de carência, solidão ou falta de perspectiva. Eles sabem muito bem o que querem e o que estão fazendo ali. Sexo com um boy é uma possibilidade a mais, da qual eles extraem o melhor, e que não inviabiliza contatos de outras naturezas, inclusive namoros sérios. Aliás, alguns dos entrevistados eram bem casados, apaixonados e felizes com os parceiros. Gente como aquele seu amigo Beltrano, bonitão e bem-relacionado, pode deitar e rolar com um GP, e você nem suspeita.

As motivações e expectativas dos clientes são variadas. Da comodidade aos fetiches, são muitos os fatores que levam essas pessoas a se mimar com uma transa profissional. Não vou entrar em detalhes, porque não quero entregar de bandeja a matéria, que está na DOM deste mês (aquela com o Gianecchini na capa). Mas ouvi histórias bem inusitadas e, no fim das contas, vi que eu mesmo tinha uma visão preconceituosa sobre o assunto e não sabia. Isso significa que hoje eu recomendo o sexo pago para todo mundo? Não. É uma forma de prazer que agrada a muitos, mas não serve para todos. A questão crucial: o que está em jogo ali é a satisfação do cliente, e apenas isso. É para usar, gozar, se lambuzar - e simplesmente abstrair o prazer do outro (o GP). Para algumas pessoas, isso pode ser muito excitante; para outras, o tesão do parceiro também é importante, ou mesmo fundamental.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

O outro lado da garotinha

A mesma Cássia Eller que arrebatava multidões com seu vozeirão poderoso não tinha a menor consciência do próprio talento e era um verdadeiro poço de timidez na vida pessoal. E as circunstâncias que envolveram sua morte são bem mais complexas do que a suposta overdose de cocaína que foi divulgada com estardalhaço pela imprensa. Essas são algumas das revelações feitas em Apenas uma garotinha, biografia da cantora que leva a assinatura da dupla de jornalistas Ana Claudia Landi e Eduardo Belo.

O livro se presta a uma reconstrução minuciosa da vida pessoal e da trajetória artística de Cássia, a partir de um extenso trabalho de apuração, que colheu depoimentos de pessoas importantes da história da artista. Da amiga de infância com quem viveu seu primeiro amor até os produtores musicais e executivos da indústria fonográfica que se envolveram com a gênese de seus discos e o gerenciamento de sua carreira, uma sucessão de personagens vai sendo apresentada ao leitor ao longo da narração.

É de se elogiar a disposição dos autores em levantar detalhes e minúcias da história da cantora, num exaustivo trabalho de pesquisa. Ficamos sabendo até a cor do surrado Fiat 147 com que Cássia e sua trupe se deslocavam para os ensaios, nos tempos em que as vacas eram magras. Por meio das contribuições recebidas de suas fontes, os escritores vão construindo um rico perfil psicológico da cantora, a partir de sua origem, suas primeiras amizades, a descoberta do amor, os primeiros passos na carreira e a maneira como foi driblando os percalços do caminho. A apuração é tão bem-feita que, a partir de um certo ponto da leitura, a gente até esquece que Landi e Belo não chegaram a conhecê-la, tamanho o grau de intimidade e desenvoltura com que passam a tratar seu objeto de estudo. E o fã tem a chance de partilhar dessa intimidade, sentindo-se também próximo de Cássia.

Ao mesmo tempo em que cumpre função típica da reportagem jornalística, a obra de Landi e Belo atravessa a fronteira do gênero literário. A própria manipulação da linha cronológica, com a narração sendo iniciada pelos últimos dias que antecederam a morte da cantora, é recurso típico das obras de ficção. Na medida em que já entrega ao leitor algo que ele desejava descobrir, o livro conquista sua atenção de imediato e estimula-o a prosseguir com a leitura.

Os acontecimentos reais não são distorcidos, mas temperados com o “molho” da literatura, que apara arestas e preenche lacunas, criando um texto agradável, bem-amarrado e coerente, que não chega a descambar para o reino da ficção. O calor úmido e pegajoso do dia do nascimento da cantora, descrições que reproduzem sua fisionomia e seus cacoetes, bem como alguns dos diálogos apresentados são, possivelmente, acréscimos imaginários que foram feitos pelos escritores, traduzindo expediente que a crítica Lilia Silvestre Chaves chama de “pontes metafóricas”. Trata-se, porém, de um trabalho de ficcionalização bastante sutil, que busca deixar a obra saborosa, mas tem o cuidado de não abandonar a correção do relato – o que denota respeito à memória de Cássia.

Apenas uma garotinha faz mais do que satisfazer a curiosidade dos que querem saber sobre a vida de Cássia Eller. Ao expor a maneira como a cantora se relacionava com o mundo, o livro acaba pintando um retrato de sua geração, com o qual boa parte dos leitores certamente irá se identificar. Afinal, questões como o descompromisso e a incerteza típicos da adolescência, os desafios de escolher a vida artística e mesmo os excessos com farras e drogas, todas elas já imortalizadas por outros artistas que viveram uma existência meteórica (live fast, die young), ainda são bastante familiares ao universo dos jovens.

O livro oferece ao leitor, ainda, um olhar interessante sobre o caminho das pessoas comuns até a fama e o estrelato. Cássia venceu dificuldades de todos os tipos. Era um típico “bicho do mato” e teve que enfrentar sua timidez. Entregou a gestão da carreira a um tio que não tinha o necessário tino de administrador e provocou sua ruína financeira mais de uma vez. Foi uma artista abertamente bissexual, mas conseguiu criar seu nicho sem jamais transformar sua arte em panfletagem gay. Usou drogas e foi usada por elas – mas, apesar disso, conseguiu furar o cerco fechado das gravadoras, tornou-se reconhecida por crítica e público e ainda arranjou tempo e espaço para ser mãe. Tudo isso contabilizando sucessivos tropeços e vitórias pelo caminho. Nesse sentido, Cássia incorpora ao mesmo tempo o herói e o anti-herói. Uma história e tanto, típica das pessoas que conseguem se tornar especiais por aquilo que possuem de mais ordinário.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Os melhores clubes eletrônicos do mundo

A revista inglesa DJ Mag soltou a versão 2009 do seu ranking anual com os cem melhores clubs do mundo. Em primeiro lugar, nenhuma novidade: deu Berghain, incrível balada dentro de uma usina desativada de Berlim, que eu vivi e contei aqui. Logo abaixo vêm o Fabric, que passou a reinar absoluto em Londres depois do fechamento do The End, e o sensacional Space, que sozinho já justifica uma viagem à ilha espanhola de Ibiza. Ainda entre os dez mais, bambambãs já bem cotados em votações anteriores, como o Womb de Tóquio, o Amnesia de Ibiza e o Watergate de Berlim, além do próprio The End londrino, em homenagem póstuma.

A maior surpresa aparece em nono lugar: o nosso D-Edge [foto]. O lugar é bacanérrimo e um orgulho da nossa cena paulistana. Ainda assim, fiquei admirado vendo ele ficar acima de tantos outros clubes de peso. Mas isso não importa, e acredito que o caixote de néons da Barra Funda ficará ainda mais legal quando a expansão estiver pronta. A resenha exalta o sistema de luzes, a qualidade do som e o ecletismo do público: "sapatos de salto alto dividem a pista com tênis All Star, todos na mesma onda".

Outros clubes brasileiros que estão bem na fita são o Warung, de Itajaí (SC), em 15º, e o Sirena, de Maresias (SP), em 19º - ambos mereceram elogios rasgados de DJs estrangeiros que vieram conhecê-los. O Pacha de Buenos Aires aparece em 22º. O ranking, que pode ser visto aqui, é uma mão na roda na hora de planejar aquela jogação básica no Exterior. Afinal, a melhor balada da sua vida pode estar onde você menos imagina. Eu, por exemplo, não tinha ideia de que o Berghain pudesse ser tão especial.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Intervalo heterossexual

Muitas pessoas consideram este espaço um "blog gay", pelo simples fato de que essa é a minha orientação sexual, mesmo que eu não escreva o tempo todo sobre festa, boate e parada. Da mesma forma, vários dos blogs que frequento são feitos por caras gays como eu (alguns deles meus amigos na vida real, outros não). Às vezes, referem-se a nós como uma "blogosfera gay", como se fôssemos todos parte de uma onda coletiva. Chega a lembrar aqueles movimentos artísticos e escolas literárias, em torno dos quais críticos e professores aglutinam a produção cultural (não estou dizendo que sejamos artistas, escritores ou algo parecido, embora alguns possam ter essa pretensão).

Pois bem, por mais que goste dos meus colegas e também seja parte do mundjeeenho, às vezes me cansa flanar pela tal blogosfera gay e ter que ler trocentas visões dos mesmos assuntos. Aparece um vídeo viral engraçadinho (ou não), uma propaganda com leitura homofóbica, uma declaração polêmica de uma pessoa pública ou mesmo uma festa nova da buatchy, e lá vão os papagayos todos fazer currupaco em uníssono. É como se realmente existisse um maestro invisível fazendo o agenda setting da galera e ditando quais serão os assuntos relevantes do dia. E tome protesto contra os Doritos!

Por essas e outras, gosto de diversificar minhas leituras e respirar novos ares. E isso inclui alguns "blogs héteros" (já que somos rotulados como "blogs gays", imagino que o oposto também se aplique, ou não?). Muitos de nós se descobrem gays, sentem-se acolhidos pelo gueto e acabam limitando suas vivências (e amizades, e assuntos, e interesses) a um mundinho bastante pequeno. Nada contra: não acho que o gueto seja desabonador e tenho até uma certa preguiça desses caras (que um amigo chama de "bofes de soja") que torcem o nariz e dizem "estou fora do meio". Só acho que não precisamos limitar tanto os horizontes. Senão, sem nos dar conta, acabamos nos tornando heterofóbicos, prejulgando que eles são todos jecas, cafonas, chucros, só falam de futebol... e deixamos de conhecer pessoas muito legais.

Em outro post, já falei sobre o Manual do Cafajeste (que ainda leio, embora já não me encante mais tanto com os textos). Hoje, vou indicar outros dois blogs. O primeiro é o Papo de Homem, na verdade uma espécie de revista virtual produzida por uma equipe fixa e colaboradores eventuais. Como eles pretendem tratar de um amplo leque de temas de interesse do homem agatê, nem sempre os posts mais recentes agradam. Mas fuçando nos arquivos, achei algumas pérolas, como um texto genial, em duas partes (1 e 2), que tenta explicar por que algumas mulheres gostam de levar tapas na cara. O texto vai fundo no assunto (sem ser chato), disseca os tipos de tapa e seus contextos, e ainda traz dicas para os leitores interessados em introduzir a novidade em casa e apimentar a relação. Além de bem escrito e nada machista, o post é totalmente aproveitável em transas gays, que muitas vezes (nem sempre) funcionam segundo uma relação de poder e divisão de papéis similar.

Como nas revistas clássicas, existem as colunas de aconselhamento que prestam socorro aos leitores: Dr. Love, Dr. Health, Dr. Cook, Dr. Money e Ladies Room (escrita por um time de mulheres). Todas são muito úteis, mas claro que é a primeira coluna que rende os melhores momentos, como quando um leitor suspeita que está sendo traído e outro sonha em ver a mulher sendo impalada por um cara bem-dotado. As respostas são inteligentes, sem esculhambação, mas também sem deixar o bom humor de lado. O único deslize do Dr. Love - responder ao leitor que levava cheque da namorada que a chuca não era indicada - foi prontamente corrigido pelo colega Dr. Health nos comentários. Outros posts que valem o confere são o Grey's Anatomy brasileiro, levinho e divertido, e "Como deixar ousada até a mais santinha" (partes 1 e 2) - surpreenda-se com um texto nada óbvio ou vulgar, gostoso de ler e inspirador, mesmo que não totalmente aproveitável do lado de cá do arco-íris.

Por fim, outro blog hétero de que gosto muito é o Cretino Lover, obra de um criativo escritor carioca. Basicamente, são contos que descrevem histórias de sedução e conquista. O protagonista, alter ego do blogueiro, é o típico não-galã que precisa rebolar para garantir o seu filé. Em muitas histórias (mas não todas), ele começa a abordagem sem muitas chances, mas, com muito jogo de cintura e cara-de-pau, ele vai desarmando a presa, não desanima diante da resistência inicial, até que a ninfetinha-boazuda se encanta com o humor e a esperteza dele, baixa a guarda e ele papa o troféu (e aí vira conto erótico). Poderia ser um punhado de narrativas presunçosas e convencidas, mas o machismo porco dá lugar à inteligência, bom humor e uma fantástica presença de espírito - o cara é ágil e tem resposta pra tudo! Uma espécie de "malandro carioca do bem", um casanova antenado 2.0, um tipo que provavelmente não existe, mas rende ótimas histórias (como estas: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8 e 9). Você pega um post às vezes gigantesco, mas a leitura é ágil, flui tão bem que você não larga o osso até acabar. Nada como alguém nos lembrar que o tal jogo da conquista não precisa ser tão levado a sério, cheio de regras, e que o importante é se divertir sempre, até com os foras. A sorte também sorri para os anti-heróis.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Delícia carioca

Difícil ficar indiferente ao rapagão da foto acima. Com um sorriso perfeito e um corpo todo trabalhado na farmácia, o personal trainer Bruno Spinelli é a personificação da beleza masculina carioca. Claro que não se pode generalizar, nem todo mundo no Rio curte homens como ele, mas não dá para negar que esse é o padrão vigente e perseguido nas areias de Ipanema. E nas boates gays, claro. Uma escolha acertada para estampar a última edição de ACapa, simpática revistinha de bolso distribuída em points gays de São Paulo, Rio, Floripa e, a partir deste mês, BH e Curitiba.

Para quem achou Bruno uma coisa e já está com a cabecinha cheia de fantasias, uma dica: o fortão [o Mix Brasil decidiu que não se pode mais falar "barbie", que é demodê - anotaram, bees?] de 29 anos fez um ensaio ainda mais bonito para o site Eles Para Elas. São 50 fotos distribuídas em cinco séries, seguindo uma estética parecida com a do site The Boy. Confira os links de cada galeria: 1, 2, 3, 4 e 5.

E se você prefere gostosuras cariocas mais fáceis de comer, o festival gastronômico Restaurant Week está fazendo sua primeira edição no Rio, até o próximo domingo (24/5). O esquema é o mesmo: menus com entrada, prato principal e sobremesa, a R$25 (almoço) ou R$39 (jantar). Os pratos costumam ser menores e evitam ingredientes caros, mas dá para garimpar no site alguns cardápios bem interessantes (todos têm descrição e fotos). Se eu estivesse solto pela Guanabara, escolheria (em ordem decrescente) os menus do Emporium Pax, Geisha Hi-Tech, Bar d'Hôtel, Rio Scenarium, Esch Café e Madame Butterfly.

sábado, 16 de maio de 2009

Chorando sobre o Milk derramado

Um dos últimos filmes a que assisti antes desse recolhimento foi Milk, de Gus Van Sant, aquele em que Sean Penn reencarna o político e ativista gay Harvey Milk. Muito legal que a nossa geração tenha a chance de conhecer a história real de um líder que ousou remar contra a maré, quebrou paradigmas e enfrentou a mentalidade tacanha da sociedade americana dos anos 70 (não muito diferente da atual, como mostra a trágica Proposition 8). Segundo a última gerente de campanha de Harvey, Anne Kronenberg, "ele imaginou um mundo virtuoso dentro de sua cabeça e, em seguida, agiu para criá-lo de verdade, para todos nós". É um daqueles filmes que apertam uma tecla dentro de nós. E tem ainda o James Franco, que conseguiu ficar lindo de bigode, proeza que 80% dos mudernos de São Paulo jamais vai alcançar.

Ao mesmo tempo em que deixei o cinema tocado e inspirado, uma pergunta não saía da minha cabeça: onde foi que nós perdemos o bonde? Nos dias de hoje, a história de Harvey Milk soa romântica, quase utópica. Se vivesse no Brasil, ele seria tido como um sonhador excêntrico. O que aconteceu? Terá sido a repressão do regime militar, que promoveu o gradual esvaziamento do debate público e do engajamento político? Terá sido o bombardeio das mídias, que nos prostrou como idiotas na frente da TV e do computador, enquanto a vida passa lá fora? Estamos desconectados de tudo o que não diga respeito ao nosso emprego, ao nosso corpo, ao nosso umbigo. Nestes tempos tão individualistas, com cada um tentando puxar a brasa para a sua sardinha, quantos de nós teriam a disposição de se sacrificar, de fazer sua parte por um mundo menos homofóbico, como o ativista Milk?

Pelo visto, muito poucos. Nem para atitudes mínimas temos braços e pernas. A campanha Não Homofobia, abaixo-assinado virtual para a aprovação do Projeto de Lei 122, que criminaliza manifestações de homofobia, conseguiu míseras 40 mil assinaturas. How come?! É tão fácil, não tem que pegar fila nem tomar chuva, basta clicar e pedir para os conhecidos espalharem! Se não engrossarmos o coro, a ignorância evangélica sempre falará mais alto e selará nosso destino (e nossos projetos jamais serão aprovados). O governo federal acaba de aprovar o Plano Nacional de Promoção da Cidadania LGBT, com 51 diretrizes importantíssimas da nossa agenda, desde combate à discriminação no trabalho até reconhecimento da união homoafetiva para fins sucessórios e previdenciários. Você teve a curiosidade de ir atrás e saber algo a respeito? O certo seria acompanharmos os acontecimentos políticos em geral, que afetam o destino de todos os brasileiros, mas nem quando a discussão "é com a gente" nós conseguimos nos interessar.

Será que um futuro mais digno nos aguarda? Será que um dia vamos olhar para trás, e estes tempos de trevas que nos oprimem serão um passado tão irreal e absurdo quanto a perseguição aos judeus, o "endireitamento" das crianças canhotas ou o tabu em torno das mulheres divorciadas? A mentalidade brasileira vai mesmo evoluir, as pessoas que patrulham a existência alheia vão aprender a cuidar da própria vida, a orientação sexual de cada um vai deixar de ser um entrave ao exercício da cidadania plena? As novas gerações serão, de fato, mais tolerantes à diversidade? Linchar gays no meio da rua será considerado algo tão medieval como queimar cientistas na fogueira?

Talvez. Pode ser que sim. Mas para isso é preciso um breakthrough, um choque de mentalidade que precipite essa evolução que hoje acontece preguiçosa, em passo de formiguinha. E eu não vejo de onde pode partir esse choque, pelo menos não entre nós, que deveríamos ser os principais interessados. Mais uma Parada do Orgulho LGBT está chegando, ganharemos visibilidade internacional por preciosos instantes e, de Salvador a Porto Alegre, tudo o que preocupa as participativas bilus é saber a programação das festas e ficar com o corpinho em dia para não fazer feio na pista.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

O descanso forçado continua...

... por mais 10 dias, se tudo correr bem. Mas vou ver se consigo voltar a atualizar o blog antes disso. Tenho diversos textos começados, que por algum motivo foram deixados de lado. Vou tentar tirar alguns deles da gaveta e desenvolvê-los, sem compromisso. Por isso, não se espantem se vocês lerem aqui alguns assuntos anacrônicos, que parecem meio deslocados no tempo. É uma maneira de ir retomando a vida, dentro das minhas possibilidades. O blog ainda vai levar algum tempo para voltar ao ritmo normal. [FOTO: Uma rara aparição no blog, para quem não tinha a menor ideia de como era o Introspective. Ouro Preto, MG, 20 de abril].

domingo, 10 de maio de 2009

Fora da tomada

Não sei se os outros também são assim, mas tenho uma necessidade enorme de manter minha vida sempre sob controle. Minhas metas, meus prazos, minhas responsabilidades. As pendências da semana no trabalho e na faculdade, o saldo e os próximos lançamentos na conta-corrente, o deadline dos freelas, o número de treinos do mês. Mesmo que eu me autorize a ter momentos de descompromisso, uma jogação ou um pilequinho, sei exatamente quanto tempo irá durar cada lapso de descontrole, quando ele vai terminar, quanto terei que descansar e a hora que o relógio voltará a funcionar normalmente e eu voltarei a produzir. Tudo planejado. As coisas precisam andar, eu preciso progredir, tudo depende de mim e está sempre na minha mão.

A gente se ampara nessa sensação de controle, mas ela não passa de uma ilusão. Achamos que podemos comandar tudo, mas a vida é mais forte do que nós. E às vezes ela trata de baixar nossa bola, dá um breque no nosso complexo de Superman e mostra que quem dá as cartas é ela. E simplesmente arranca o fio da tomada. E os nossos planos, obrigações, compromissos - importantes, inadiáveis, imediatos? Tudo pode esperar. O mundo lá fora, ele continuará girando, mesmo sem a gente.

Agora que estou fora do páreo, tenho espiado os giros do mundo exterior em doses bem homeopáticas. Dou uma olhada de relance, não posso me envolver muito: logo me canso e preciso me poupar. A Diurese Cultural que cobriu de mijo o centro de São Paulo... a farra das passagens aéreas em Brasília... as novas festas da Parada Gay... a crítica a elas feita pelo meu amigo Uomini (mesmo sem dizer nada de novo ou revelador, ele gerou uma grande repercussão, sinal de que muitas pessoas pensam da mesma maneira)... a gripe suína chegando ao Brasil... o tal trailer do filme que mostra o amor entre dois irmãos... os assuntinhos da hora são meros flashes que vêm e vão, e não preciso me mexer, interagir ou dar minha opinião. Outras pessoas certamente farão isso por mim, e a vida segue.

Não sei quanto tempo permanecerei desconectado. Minha mania de controle adoraria dizer que o blog ficará parado por xis dias, mas eu não tenho essa resposta. Aceito, afinal, que nem tudo está sob o meu controle. Dentro do possível, estou bem. Tenho uma mãe incrível, que está sempre ao meu lado e tem me dado umas demonstrações absolutamente tocantes de amor e dedicação. Ela está passando um Dia das Mães ingrato, mas farei questão de recompensá-la e levá-la para comer num lugar incrível quando eu estiver bom (e também puder comer). Os amigos - aqueles que importam, os que honram o status da palavra - também têm mostrado interesse e preocupação. Não desistam deste blog: pensem nisto como um simples "até breve". Agora preciso descansar e cuidar da minha saúde, mas voltarei à ativa assim que estiver pronto para outra. É tudo o que tenho a dizer no momento. Obrigado pelo prestígio de sempre. Beijos a todos.

domingo, 3 de maio de 2009

O que realmente importa

O que é mais importante para você? Qual o primeiro pedido que você faz para o "Papai do Céu" ou mentaliza quando corta o bolo de aniversário? O que está acima de tudo, meta número 1 da sua vida?

Um apartamento ricamente decorado e com vista embasbacante em Ipanema, nos Jardins ou melhor ainda - na sua capital europeia do coração? Aquele carro com o qual você se pega sonhando acordado? Um príncipe moreno, alto, forte, de olhos azuis, que venha buscar você trajando farda de gala, para uma noite de romance e loucuras inconfessáveis? Uma viagem por lugares mágicos e paradisíacos? Seu prato favorito, preparado com capricho, do jeito que você mais gosta? O disco que tem a música da sua vida? Ou a simples presença e o carinho dos amigos verdadeiros sempre à mão?

Nada disso. O que realmente importa é a SAÚDE.

Sem ela, você simplesmente não sabe o que fazer com a casa, o carro, o príncipe, a viagem, a comida, o disco ou o carinho dos amigos. Porque você não desfruta de absolutamente nada. E não aguenta nem o som do silêncio. O arrastar das horas sem melhora se torna uma verdadeira agonia, dentro de uma prisão solitária e sem janelas, onde jamais são aceitas visitas.

"Quando você está bem, qualquer lugar é Paris.
Quando está mal, nem Paris é Paris
".